domingo, 5 de junho de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XCIV

VOCAÇÃO DEVORADA PELA TV

A indústria televisiva tem desviado vocações literárias ao mesmo tempo em que produz monstros de audiência. Alguns autores que iniciaram suas carreiras escrevendo literatura em modalidades como o romance, o conto, a poesia ou a peça teatral, foram seduzidos pela TV e passaram a se dedicar com mais ênfase ao texto para telenovela. Podem ser aqui lembrados Dias Gomes, que deixou peças de teatro memoráveis; Manoel Carlos, que chegou a publicar poemas pelo “Círculo do Livro”; ou Aguinaldo Silva, que continua militando nos dois campos, e contabiliza cerca de uma dezena e meia de livros publicados. Seu romance mais recente, 98 Tiros de Audiência, com subtítulo “Intriga e Mistério nos Bastidores das Telenovelas”, acaba de ser lançado e retoma a temática policial em que ele é especialista, com uma vasta experiência de repórter em jornais cariocas. Ninguém mais adequado para a função do que o pernambucano, uma vez que conheceu de perto e a fundo, a partir da década de 1960, a contravenção do jogo do bicho, o roubo desenfreado de automóveis associado ao avanço do tráfico de drogas, a corrupção policial indiscriminada e o mundo glamouroso, competitivo e banalizado das celebridades. O grupo seleto de escritores do qual poderia fazer parte Aguinaldo Silva é composto de ficcionistas do porte de João Antônio, José Louzeiro e Rubem Fonseca, que se esmeraram, cada um à sua maneira, na narrativa de cunho policial ou em episódios da malandragem do Rio.

Um dos livros de Aguinaldo Silva que causaram mais estranhamento foi Primeira Carta aos Andróginos (1975), um misto de romance e ensaio, com numerosas transfigurações e referências à mitologia grega e a personagens bíblicos, estrutura formal que se aproxima em muitos momentos à poesia, um questionamento subjetivo mas não velado do homossexualismo e das dificuldades sociais que o assumi-lo traz num país onde a cultura ainda é bastante machista e arraigada. Em República dos Assassinos (1976), ele conta a trajetória do policial-bandido Mateus Romeiro, um dos “homens de ouro” da polícia carioca, preparado para executar suas vítimas sem pestanejar, e que atinge o êxtase sexual no momento de sacrificá-las. O protagonista acaba enveredando pelo crime através do “Esquadrão da Morte” – organização criada pela própria polícia para matar bandidos –, ao enviar carros roubados para o Paraguai e investir o dinheiro ganho trazendo na volta cocaína. O personagem que faz o repórter Aguinaldo Ribeiro (uma junção de Aguinaldo Silva com o também repórter policial à época Octávio Ribeiro), envolve-se com o policial-bandido, a ponto de ajudá-lo a cobrar dívidas de gente poderosa na contravenção e de demonstrar por ele um grau de intimidade que ultrapassa os liames mais corriqueiros da amizade.

O último livro editado, O Homem que Comprou O Rio (1986), demonstra ainda a força do escritor Aguinaldo, com a escolha do contraventor Giovanni Improta para personagem central, promovendo a agilidade de uma narrativa impecável onde cada fato, personagem secundário ou situação relatada ocupa seu devido tempo e lugar. Esta distribuição, inter-relação e movimentação exata no espaço e no tempo dos personagens e eventos faz com que o romance atinja o seu estágio de eficácia e eficiência, cumprindo obviamente com sua função literária e estética específica. Este romance guarda algumas semelhanças de concepção de personagens e situações com 98 Tiros de Audiência. Primeiro, o modo como os detetives Paulinho Reitz e Luis Trajano atuam, se comportam e se relacionam com as mulheres, com outros policiais e outras pessoas. Ambos sempre são afastados de casos que envolvam pessoas importantes porque, em termos éticos mostram-se incorruptíveis. A Paulinho Reitz não importa se o maior implicado nas mortes de Orlando e Misael, de O Homem que Comprou O Rio, é um bicheiro que domina a Baixada Fluminense e que seja afilhado do governador Valmiro dos Santos.

Em 98 Tiros de Audiência vem à tona praticamente tudo o que se passa nos bastidores de uma novela global. A grande luta de atores, autores e diretores para manter o pico de audiência a qualquer preço, que às vezes teima em despencar. A humilhação de quem persegue a fama e encontra, em contrapartida, a fúria de executivos preocupados apenas com o número de telespectadores e conseqüentes investidores na publicidade. Talvez por isso se sinta mais forte a presença do autor de novelas do que propriamente do escritor ou do roteirista de cinema. O estilo romanesco segue o da trama folhetinesca, que guarda sempre a surpresa para o dia seguinte ou o próximo capítulo, levando qualquer leitor a querer saltar páginas e descobrir o que virá pela frente. Neste livro, ironicamente, o assassino da estrela Aurora Constanti é o alter ego de Aguinaldo Silva, o autor Everardo Lopez. Ele fica num beco sem saída ao ter de repetir a performance de 98 pontos no dia da morte de Aurora Constanti, mulher belíssima, porém bêbada e cocainômana, que investe tudo numa boa confusão e é odiada pelos colegas de trabalho, pelo diretor Quase-Quase e por Mister Zee, o Todo-Poderoso. Os capítulos aparecem em seqüências de blocos, à maneira de monólogos e depoimentos dos envolvidos com a diva Aurora Constanti, recurso já utilizado em República dos Assassinos para o julgamento de Mateus Romeiro. Mas, o que surpreende agora, em relação à escrita de Aguinaldo Silva, é aquela perda de vigor do escritor para deixar reinar o novelista. Nada se passa no âmbito da vida pessoal ou privada com discrição ou autenticidade, ao contrário, tudo resvala para o superficial, o bombástico, o sensacional, o deslavadamente público. Este é, sem dúvida, o preço que um escritor pode vir a pagar para ter seu público medido em milhões de pessoas.

In: Continente Multicultural, nº 73, jan. 2007.

Notas Cotidianas e Literárias XCIII

O SÃO FRANCISCO
                                                      Castro Alves

Longe, bem longe, dos cantões bravios,
Abrindo em alas os barrancos fundos;
Dourando o colo aos perenais estios,
Que o sol atira nos modernos mundos;
Por entre a grita dos ferais gentios,
Que acampam sob os palmeirais profundos;
Do São Francisco a soberana vaga
Léguas e léguas triunfante alaga!

Antemanhã, sob o sendal da bruma,
Ele vagia na vertente ainda,
— Linfa amorosa — co'a nitente espuma
Orlava o seio da Mineira linda;
Ao meio-dia, quando o solo fuma
Ao bafo morto de u’a calma infinda,
Viram-no aos beijos, delamber demente
As rijas formas da cabocla ardente.

Insano amante! Não lhe mata o fogo
O deleite da indígena lasciva...
Vem — à busca talvez de desafogo
Bater à porta da Baiana altiva.
Nas verdes canas o gemente rogo
Ouve-lhe à tarde a tabaroa esquiva...
E talvez por magia... à luz da lua
Mole a criança na caudal flutua.

Rio soberbo! Tuas águas turvas
Por isso descem lentas, peregrinas...
Adormeces ao pé das palmas curvas
Ao músico chorar das casuarinas!
Os poldros soltos — retesando as curvas, —
Ao galope agitando as longas crinas,
Rasgam alegres — relinchando aos ventos —
De tua vaga os turbilhões barrentos.

E tu desces, ó Nilo brasileiro,
As largas ipueiras alagando,
E das aves o coro alvissareiro
Vai nas balças teu hino modilhando!
Como pontes aéreas — do coqueiro
Os cipós escarlates se atirando,
De grinaldas em flor tecendo a arcada
São arcos triunfais de tua estrada!...


In: Poesias completas. Prefácio Manuel Bandeira. Rio de Janeiro. Ediouro, s.d.

sábado, 4 de junho de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XCII

UM POEMA DE ANTÓNIO PATRÍCIO
(PORTO, 1878 - MACAU, 1930)



PARA ALÉM


É para além de tudo o que alcançamos
que se adivinha enfim esse horizonte,
onde dormem os sonhos que beijamos
e a nossa sede tem a única fonte.

Há para além do céu ainda mais céu
se houver ânsia no olhar que o reflectir:
o céu mais vago e fundo é só um véu
que a alma rasga p'ra poder seguir...

É para além do amor que me adormece
nesta loucura doce de te olhar
que o coração pressente o que é amar.

Além da vida há vida, além é o norte:
e quando mortos, ainda a nossa prece
levantará as mãos além da morte...

In: Patrício, António. Serão inquieto e poemas reunidos. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000.

Notas Cotidianas e Literárias XCI

MEMÓRIA, DISCURSO E AMIZADES
DE CYL GALLINDO

O relato da convivência entre escritores não é uma tarefa fácil de ser traduzida em palavras, pelo que envolve de exposição do outro. Pode levar a julgamentos equivocados, que se geram a partir de interpretações confusas, falseadas ou desviantes. Entretanto, quando o relacionamento foi estabelecido em bases sólidas de amizade, franqueza e lealdade, o escritor dispõe de uma cota relativa de liberdade para falar sobre aqueles ou aquelas que mais o marcaram. O ciclo das amizades desdobra-se e é elastecido e referendado por outros testemunhos de época, de amigos comuns ao autor e ao escritor ou escritores lembrados.

Cyl Gallindo teve o privilégio de privar da amizade do poeta pernambucano Manuel Bandeira, do final dos anos 50 até a morte do autor de Estrela da manhã, em 1968. Na condição de estudante em terras cariocas, conheceu Bandeira numa circunstância inusitada: fora escalado pelo presidente da Casa do Estudante do Brasil Alfredo Viana, juntamente com dois colegas, para fazerem a abordagem do poeta em sua casa. A finalidade da visita era coletar a assinatura de Bandeira para um documento referente a uma homenagem à atriz Cacilda Becker. Terminado o encontro, Cyl é requisitado pelo poeta a voltar novamente a sua casa. Fica-se sabendo que Bandeira reivindicou, de início, a companhia do jovem Gallindo principalmente por causa do sotaque pernambucano, e depois para acompanhá-lo às quintas-feiras à Academia Brasileira de Letras. Mesmo vivendo no Rio de Janeiro, tinha amigos no Recife, como Gilberto Freyre e o casal Ascenso Ferreira/Stella Griz, servindo de articulador de novas amizades para Gallindo. O viés polêmico do ensaio fica por conta da aposição de um busto de Bandeira no Recife, que Gallindo descreve com detalhes num artigo publicado à época.

Outra amizade retratada é aquela encetada com o escritor e folclorista angolano Óscar Ribas, vindo a lume o que os uniu e identificou. Ribas acabou por exercer forte influência sobre Gallindo relativamente ao papel da raça negra na sociedade brasileira: “Foi lendo Óscar Ribas, a escrever, cantar, gemer, sorrir e chorar nas páginas dos seus livros e cartas datadas desde 1965, que alcancei a verdadeira dimensão da minha afinidade e consaguinidade com a raça negra”. Quem o conhecia mais de perto era o escritor Luis da Câmara Cascudo, que por sua vez tornou-se também amigo de Gallindo. Oscar Ribas faleceu em 2004, aos 94 anos, ainda lúcido e trabalhando com literatura. O texto de Gallindo apareceu em Portugal, em livro organizado por outro angolano, o escritor e jornalista Gabriel Baguet Jr.

A cidade onde Gallindo nasceu, Buíque, no Agreste pernambucano, guarda a peculiaridade de o escritor Graciliano Ramos ter vivido nela parte da sua infância. O alagoano que mudou a história da literatura brasileira com sua forma seca, enxuta e rigorosa de trabalhar as palavras, absorveu toda uma vivência rural que alguns lugares nordestinos lhe legaram. Entre eles, Palmeira dos Índios e Quebrangulo, esta última sua cidade de origem, além de Buíque, onde Sebastião Ramos, o pai de Graciliano, adquiriu uma fazenda e para lá se transferiu com toda a família. O autor volta às raízes, por ocasião da inauguração da Biblioteca Municipal Graciliano Ramos. Chama a atenção para o fato de Infância e outros livros fundamentais de Graciliano, provavelmente terem sido locados em solo buiquense. Segundo conta, instigou o holandês August Willemsen, tradutor também de Euclides da Cunha, a verter Infância para o neerlandês, o que terminou acontecendo, ao constatar a exposição do volume em livrarias holandesas, onde esteve recentemente.

Em 1994, Gallindo escreveu o prefácio para a 2ª edição do livro Canudos e outros temas, publicado pelo Senado Federal, contendo textos de Euclides da Cunha. O texto é contundente, e tem como característica principal certa atualização do pensamento euclidiano, permanecendo também nas outras edições. Faz uma defesa veemente do Nordeste brasileiro, do seu povo e da sua cultura, das formas desabonadoras como a região tem sido encarada por sucessivos governos. O histórico da publicação é apresentado em depoimentos de várias personalidades de pesquisadores e escritores, brasileiros e internacionais.

A edição da Panorâmica do conto em Pernambuco, organizada por ele e Antônio Campos, que também participam com textos de apresentação e contos, resultou da parceria entre o Instituto Maximiano Campos, de Pernambuco e a Escrituras Editora, de São Paulo. Lançado durante a Fliporto 2007, em Porto de Galinhas, o volume contém, substancialmente, 896 páginas e contempla 114 autores. Dentre os antologiados encontram-se escritores consagrados como os poetas Ascenso Ferreira, Joaquim Cardozo e Mauro Mota, os ficcionistas Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Hermilo Borba Filho, José Condé, Maximiano Campos, Osman Lins, Gilberto Freyre, Luis Jardim, Nelson Rodrigues. Esta apresentação é republicada oportunamente, pois o livro será relançado durante a próxima Fliporto, em novembro deste ano, em edição reformulada e com biografias atualizadas. São apresentados os critérios que nortearam a organização da antologia, os processos de seleção e escolha, os percalços enfrentados e os percursos utilizados para a execução do livro.

O memorialismo autobiográfico deriva-se aqui de situações coloquiais e vivências cotidianas. Em certos instantes, um simples encontro pode vir a transformar-se em motivações de reflexão e análise sobre assuntos variados. De um modo geral, afloram numerosas conversas sobre a vida e o que vai pelo mundo, sem pretensões de eruditismo literário ou filosófico, notadamente nos encontros com Bandeira. Os textos se inter-relacionam através das figuras que os compõem, que aparecem às vezes em mais de um deles, sem que o leitor espere. E ainda nos que não se referem propriamente às amizades do autor, o tom é discursivo, em primeira pessoa, privilegiando mais o coloquial do que a densidade reflexiva, a exemplo de “Em defesa da língua portuguesa”, conferência pronunciada em 2000 na Academia Recifense de Letras, marcando posição contra a descaracterização do vernáculo, sua invasão por termos de outras línguas, que sugerem um espírito de neocolonização nem sempre questionado ou refreado. Ao lado dos recortes da memória, do coloquialismo e das recordações gratas, convivem em sintonia o discurso de ocasião e os textos de prefácio. Todos, ao fim, permeados de informações preciosas e posicionamentos definidos, compostos por eventos da vida literária, de algo da história da literatura e da preservação da língua portuguesa como objetos demarcados e inesquiváveis.

In: Gallindo, Cyl. A intimidade da palavra . Recife: Bagaço, 2010.  

Notas Cotidianas e Literárias XC

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Notas Cotidianas e Literárias LXXXIX


DIÁLOGOS DE PAZ E TOLERÂNCIA
 
A condensação dos dezesseis textos de Diálogos no mundo contemporâneo – por uma cultura de paz, recém-lançado pelo escritor e advogado Antônio Campos em edição bilíngue, estabelece uma nova série de ideias, sugestões e propostas sobre grandes questões do nosso tempo. Elege a bandeira branca da paz como polo central para onde são atraídas e ramificadas outras modalidades assemelhadas e convergentes do humanismo. Tolerância, diversidade e interculturalidade são palavras recorrentes e propositivas que trazem no seu bojo a força de uma ideia e a possibilidade de uma práxis. Além disso, a problemática da pacificação mundial enfatizada é, senão conhecida em profundidade, pelo menos intuída em superfície por muita gente. Há, contudo, os que fazem questão de ignorá-la solenemente, pela omissão ou pela indiferença. Ou, o que é mais grave ainda, de trabalhar contra ela. Pode-se pensar que daí se origina, em boa medida, os grandes conflitos sociais, os confrontos bélicos que vêm se tornando corriqueiros e o descaso como atitude generalizada acerca da preservação vital e ambiental do planeta.
O livro antecipa algo das discussões que esquentarão a próxima Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco) em novembro, em Olinda, tendo como temática “Uma viagem ao Oriente”. O homenageado deste ano, Gilberto Freyre, é analisado por Antônio Campos em vários textos, a partir de certo viés antropológico que caracteriza a obra freyriana. Afirma Campos: “Na perspectiva de Gilberto Freyre, as conexões entre o Brasil, no período de sua formação, e o Oriente árabe ou asiático iam muito além de aspectos arquitetônicos, tendo sido determinantes na conformação da sensibilidade brasileira, em sua visão do mundo e seus valores culturais marcantes”. Conexões, influências e interações vastas e derivadas de um forte caldeamento de povos imigrantes e nativos, trazem à luz manifestações culturais que envolvem aspectos amplos e diversificados da vida social e política, da arte e do lazer, da economia e do trabalho, do comportamento público e privado. Na esteira de tudo isso, o alerta sobre os embates alucinados e seus efeitos irreversíveis que anulam, nas suas bases mais simples, ou nos seus surtos de maior complexidade, uma cultura de paz: “Somente diálogos construtivos de paz, uma melhor compreensão e convivência com o outro, com o diferente, vencerão o terror e a tensão entre religiões e etnias, que é o grande desafio do contemporâneo”.
Era preciso que alguém levantasse essas questões de um modo didático, dialético e compreensível. E Antônio Campos o fez com pertinência e autenticidade.


Folha de Pernambuco, 20 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Notas Cotidianas e Literárias LXXXVIII

SAGRAÇÃO
 

CARLOS NEWTON JÚNIOR



Dizem
        que em alguma parte
                parece que no Brasil
        existe
                  um homem feliz.

                                               MAIACOVSKI         





I

Tempo, começarei a minha história.
Eu cantarei meu canto de mim mesmo
e nele me abrirei como se fosse
um livro feito em carne, folheado
sob a luz, pelo vento e pelo fogo.
Aqui eu deixarei tantas palavras
de ordem e desordem, de harmonia
e caos, por mais que sejam arrumadas
na aridez polida dos meus versos.
A dor não me deixou, eu te asseguro,
Tempo, ela ainda corta a minha alma
em pedaços de angústia, como a lâmina
corta postas de peixe no mercado,
à vista salivante dos mendigos.
A minha arma, Tempo, é de festim.
Sei pouco ou nada sei, então eu sigo
como um plagiador inveterado,
trazendo todo o inferno no meu peito
com os seus nove círculos de fogo;
pisoteando os versos que eu encontro
como se fossem uvas no lagar,
tentando, em vão, fazer meu próprio vinho,
que desce à garganta, aos engulhos.
Vê: hoje eu tentarei tocar a flauta
da minha escoliose acentuada.
Eu que jamais pensei em despedidas,
e sim na alegria dos encontros.
Não quero o pagamento, no futuro,
de todos os amores incompletos,
por mais que sejam belas as estrelas.
Eu a quero inteira, eu a quero
tal como a vejo agora no retrato,
nesta sua beleza que dispensa
discursos, que renega maquiagens,
como as cores, que foram escorraçadas
pelos renascentistas, dos seus mármores.
Agora é que o incidente começou:
eu passarei meus erros em revista
e os cantarei sem medo do ridículo,
sem medo do revólver na gaveta.
Mais de um crítico escroto irá dizer:
“Lá vem esse poeta decadente
com seus insuportáveis decassílabos”.
Não imaginam, Tempo, o que há de vir
e mesmo assim já mostram seus caninos.
Que eles se contorçam em suas camas
e engulam o veneno das salivas;
que cada coração se afogue em cólera
para expurgar de vez as impurezas.

Tempo,
que a tolerância deixe agora o palco
e o rancor dite os rumos da comédia:

eu irei transgredir meu próprio ser
resignado, calmo e complacente;

eu irei transgredir a minha fala
que não será mais doce, e sim amarga;

eu irei transgredir a forma exata
do poema, seus versos, suas quadras;

eu irei transgredir os meus ouvidos,
pois deixarei o metro como quem
larga a esposa e se atira num abismo. 


II

A todos vós, que me queríeis
corromper com um poema sujo,
sonhado desde as entranhas, oculto
de olhares indiscretos, com seus vermes,
e que fosse explosão, catarse,
desvelamento de impurezas
regado a vômito e fezes;

a todos vós, que me queríeis ver,
num instante de insensatez,
num momento de fraqueza, de inesperada atonia,
subverter a ordem poética;

horrorizado com o meu próprio martírio,
eu vos entrego, de mãos limpas,
a subversão da poesia.


III

Quando foi que me vesti
de sonho e de alegria?

Houve um tempo só de sonhos,
de iniciação aos mitos, de vivências
em que o real e o sonho se uniram
para forjar o poeta.

Houve um tempo de errâncias,
de brevidades irresponsáveis, de instantes
intensificados sob a luz da lua;
um tempo de verdades absolutas
que invadiam ouvidos resignados
e trancavam, por dentro, a boca muda.

Tudo o que eu ouvia, então,
era bom, era belo e verdadeiro,
mesmo que as rosas oferecidas
às vezes revelassem o espinheiro
e a triste frigidez das coisas mortas.

Não houve anjo torto nem exortação à vida:
houve a vida vivida sem disfarces,
o colégio, as notas, os brinquedos
e a solidão batendo à minha porta.


IV

Era um tempo de poesia, em que a beleza,
restringindo-se às formas naturais,
já era percebida pelo olhar
do menino cheio de esperanças.
Era um tempo de poesia, sem poema,
sem pecado nem salvação,
e um coração, de menino,
pulsava forte, mesmo sem paixão.


V

Houve um rosto que mirava espelhos
e mãos que estouravam as espinhas;
houve pés que um dia se calçaram
para jamais sentirem novamente
a terra molhada pelas chuvas,
os seixos roliços, o pinicar da areia.
Os pés incharam com o passar do tempo
até intumescerem suas veias.
Houve mãos que apalparam um par de seios
e dedos trêmulos roçavam os seus bicos
como ao sintonizar o rádio novo
do avô, temeroso de quebrá-lo.
A nudez proibida se mostrava
nos lugares mais inesperados:
num canto de muro, atrás das portas,
ou em sonhos acordados, no banheiro.


VI

De resto, de muito pouco é que me lembro:
dos jambos maduros roubados nos caminhos,
dos amigos que cresceram e mudaram de partido,
das brincadeiras de rua – bola de gude, academia, pega-bandeira,
esconde-esconde, baleado, polícia-ladrão –
e das primeiras angústias da morte inconcebível
naquele dia triste, depois do qual
não mais fui despertado por meu cão.
 

VII

Lembro-me da OCIA, a ultra-secreta
“Organização dos Cientistas Amadores”,
e sua gloriosa expedição ao Triângulo das Bermudas;
dos insetos capturados em terrenos baldios para serem dissecados,
da barata anestesiada sobre a mesa,
à base de pequenas doses de inseticida e leves chineladas,
e do primeiro choque estético,
ao ver seus líquidos internos na lâmina do microscópio,
que revelavam cores e formas admiráveis,
de um abstracionismo orgânico superior ao das vanguardas estéreis,
magistral, calidoscópico,
primordial e inigualável.
 

VIII

Na minha casa não havia livros, exceto os da escola,
e livros na escola não havia, exceto os que levávamos de casa;
moldava-se, assim, toda uma geração
de crianças cegas, alheias à vida verdadeira,
que tateavam o sublime sem compreendê-lo.
 
Esfriavam em pedra, dentro de nós,
as sementes das árvores frondosas
ali colocadas pela quinta força,
ansiosas por germinarem, ansiosas
por estenderem seus galhos nos espaços.

Adiada estava a contemplação dos enigmas,
adiado o desabrochar da consciência
de que o mundo é uma máquina, cujo segredo, indecifrável,
precisamos descobrir, sob pena de morte.
 

IX

Houve conquistas e roteiros malogrados
e olhos sempre abertos pelo medo.

Houve noites de insônia e auroras
atravessadas sem os seus cabelos.

Houve mãos vazias e dedos intranqüilos
a tatear em vão tantos segredos.

Houve tardes de sol, e se não foram tantas,
adornaram meus versos de esperanças.
 

X

Houve falas bebidas como sumos,
pois as línguas não duelaram, eram espadas
embainhadas, sem o vigor da ira.
As línguas se continham em cada boca,
inofensivas como as armas na parede
de um colecionador de antiguidades.
As órbitas reluziam os seus raios
de centro a centro das retinas,
e cada qual com o seu punhal oculto
via a alma do outro aprisionada
por compromissos, convenções, hipocrisias.
 

XI

Houve a tarde de chuva grossa, e o encontro
fortuito na esquina do colégio:
“Ei-la, então”, pensei quase alto,
“bastaria que essas mãos apaziguassem minha face
para que eu não mais temesse o sabor das maçãs
nem que essa chuva se transformasse num dilúvio”.

Ali estávamos:
eu com o guarda-chuvas, a oferecer abrigo
e a receber, em troca, o seu sorriso,
o leve contato do seu ombro,
a paz que excede os conflitos do mundo
nos segundos em que a levei até o carro.

Houve o beijo sonhado no escuro
e a realidade do escarro.
 

XII

Eu não venho dos bagos de guerreiros
como o poeta Mourão, eu não descendo
de Albuquerques, Cavalcantis, desbravadores
de mares e de terras, com suas cartas,
os seus dotes, suas ilhas, seus forais,
sua fome de ouro, seus brasões
impressos em padrões armoriais.

A minha grei de gente mediana,
de funcionários honrados, de mãos limpas,
de rostos escanhoados e bigodes
aparados, de voz polida
e sorrisos anuentes,
instilou no meu sangue essa revolta
que só agora vomito no papel;

que se materializa em negra tinta
e se espraia na barba descuidada,
nos modos obtusos, na rispidez da língua.

Eu travarei a luta, verso a verso.
Combaterei, incansável,
a crítica burra, a mídia louca,
a intolerância dos medíocres,
a inveja inconseqüente dos canalhas,
os jornalistas sem caráter,
a porca rafaméia dos políticos,
os poetastros, os possessos,
a gente analfabeta da província.

A mesa já está posta, os comensais
aguardam ansiosos o banquete.
“Há ali um colunista social”, alguém me diz,
“que veio para cobrir tão nobre evento”.
Dá-lhe, amigo, aquele feixe de feno,
pois eu te asseguro que se ele o provar
sairá daqui extasiado, afirmando
não haver degustado, em toda a vida,
semelhante iguaria, tão bem servida.
 

XIII

Nutrido de distâncias, eu, o amargo,
ainda espero a tua aparição efêmera.
Quando virás dourar as minhas tardes
descendo desse azul de céu sem fim?

Eu te espero na solidão de fruta
esquecida no prato, à revelia das crianças,
que irá apodrecer sem ser provada.

Eu te espero
como o menino que se perdeu,
desesperado entre tantas pernas,
chora abraçado à sua bola.

Eu te espero
como um velho lúcido, mas inválido,
aguarda a jovem e bela enfermeira
que o levará ao jardim.

Eu te espero como o mais mísero dos náufragos,
um doente dos nervos, um neurótico,
boiando no oceano da loucura,
e que ainda aguarda, por milagre,
a tábua da sua salvação,
o fim dos surtos, dos delírios, das alucinações.
 

XIV

Chega a noite, abro mais um livro
de poeta que me toca, o doce som da flauta
acende o apetite dos ouvidos
e faz vibrar a viga dos meus ossos.
Meus dedos roçam, lentamente, o inefável,
percorrem as manchas negras no papel,
como se tateassem o ventre de mulher grávida,
que ainda não clama com dores, ainda
não sofre tormentos por parir.
Eis o choque estético, a faísca elétrica
transmite-se de uma folha à outra,
da folha impressa à folha branca, imaculada
que o poeta também trouxe para a mesa,
e a estupra no furor da esferográfica.
Então o poema, prenhe de beleza
gera outros versos, como o sêmen
gera filhos, e estes, num olhar, num simples gesto,
revelam, mesmo sem querer, a sua estirpe,
o pasto em que seus touros ruminaram,
a mais pura visão da sua origem.
 

XV

Uma ave sobrevoa o meu poema
em círculos, ela adeja sobre o núcleo
da beleza que não gerei, mas reencontro
em tantas noites de leitura silenciosa.
Será o poema, então, reminiscência
não dos arquétipos, mas de tudo
que se constrói à luz do engenho humano
e de repente explode e se derrama
num gozo de prazer indescritível
pela alvura do papel, como os metais
derretem-se no cadinho do alquimista.
Um poema alimenta o outro, como a ave
alimenta seus filhotes, depositando a caça
retalhada em pedaços, pelas garras,
diretamente nos seus bicos.
Ao fazê-lo, decerto ela ignora
que lhes transmite a seiva do futuro,
de tudo aquilo que reluz agora
e irá reluzir, mesmo no escuro.
 

XVI

Há milênios essa ave
acicata a nossa raça,
chamando-nos para o sol.
Desde o dia primeiro, em que voou
sobre pequenas placas de argila,
até hoje, quando adeja
sobre teclados, monitores, fiações.
As distâncias percorridas no seu vôo
revelam a soberba extensão da memória.
A ave, de fato, voou alto,
percorrendo distâncias imensuráveis:
partiu das margens dos quatro rios,
sobrevoou as ruínas de Sodoma,
transpôs montanhas e vales desérticos,
desceu velozmente à Hélade piscosa, roçou
as asas nos pescoços dos aedos,
acompanhou, de cima, as trilhas dos menestréis,
cruzou o oceano acompanhando caravelas,
tocou as cordas de prata das violas,
forjou o som fanhoso das rabecas.
E assim, ligando os elos da corrente,
marcou a minha fronte a ferro quente.
 

XVII

Não há vôo
sem pássaro dentro, não há
nenhum vôo à nossa espera
que nos leve além das rotas conhecidas
por essa ave que singrou os quatro ventos
em seu indômito e selvagem nomadismo.
Não haverá verso sem ânsia de história,
indiferente aos mortos que nos gritam
suas queixas gasosas nos ouvidos;
não haverá verso sem passado e sem memória,
de poeta fechado no seu quarto
trocando a vida pífia pela glória
de tornar-se imortal sem ter vivido.
 

XVIII

Orientado por uma bússola interior,
instalada em suas vísceras profundas,
o pássaro sobrevoa o lugar
em que corpo e espírito se reencontram
e se contradizem.
Aqui,
liberto da sua indumentária,
das suas máscaras, seus coturnos,
na flácida nudez do corpo inerme,
o perecível ator só diz a fala
da sua própria natureza obcecada
pela glória das efêmeras criações,
pelo amor que não gozou, pela dor
que sente ao perceber que o tempo voa
ainda mais ligeiro que o pássaro maldito.
 

XIX

Que a ave cante, pois eu a seguirei
como criança que vai à caça do tesouro,
que esquece os compromissos da escola
e nem sequer se lembra do almoço.
Que poder tem esse canto, que feitiço
emana desse som que contagia
e se propaga de geração a geração,
e nos faz fantasmas em nosso próprio castelo,
arrastando correntes pelo chão?
 

XX

Não nasce o poema
de cesariana, os versos arrancados
das entranhas do cérebro, do sangue,
de um já tão inchado ventre.
Não há poema
indiferente à fértil placidez das águas claras,
às fontes e suas musas desbocadas,
ao pássaro que voa além das chamas redentoras
e nos incendeia com o seu canto,
aliviando o fardo que levamos.
O livro aberto, as palavras sublinhadas,
na vigília do desejo insatisfeito,
na iminência da fecundação
de estrofes e outros tantos versos,
sim, e ainda assim, elas esperam
a noite certa, a hora exata,
o minuto preciso da explosão.
 

XXI

De tempos em tempos, a ave, em pleno vôo,
que é risco de memória no espaço,
volta a cabeça para contemplar os escombros
das antigas civilizações,
a catástrofe dos ossos sobrepostos
como a formarem uma altíssima muralha
a impedir o seu retorno; então,
pena por pena, as asas se arrepiam,
e ela aperta, entre os dedos, os grãos
colhidos na sua terra de origem,
e que a alimentarão, para todo o sempre
e a cada salto, pois ela voa, incólume,
cada vez mais alto.
 

XXII

Ave, pássaro...
somente agora me ocorre a dúvida atroz:
será de fato ave, aquele ser alado
que só de longe diviso, mas descrevo neste canto
como se o tivesse pousado em meu ombro
e sentisse, no pescoço,
o inefável roçar das suas asas?
Será pássaro, o ser alado
que noite e dia me tutela os passos
e indica o caminho da difícil escalada?

Angelical ou demoníaco, o ser alado
oriundo das terras ermas, de mundos paralelos,
de lugares só descritos em antigas mitologias,
pode ser grifo hediondo, pode ter
o seu perfil de esfinge feroz, cruel cantora,
a nos lançar os seus enigmas indecifráveis,
ciosa de nos devorar e corromper...

Não importa: resignados, nós seguimos,
humanas carcaças do porvir,
cada qual com a sua vertigem, cada qual
com a sua morte e a sua solidão,
a tentar, no desespero dos dias e das noites,
escapar à voragem do abismo,
erguendo pontes sobre as ilhas em que nos isolamos,
feito náufragos da própria criação.

Nós, humildes servos da harmonia,
a lavrar a terra em infindáveis corvéias,
que se repetem, dia após dia,
na vã tentativa de edificar um império,
o tirânico império da Beleza,
que jamais irá nos pertencer
e no entanto já está em nós,
como uma luz para sempre acesa.
 

XXIII

A Beleza, Tempo, que é a tua mais enfática negação,
posto que é luz que transcende os belos corpos,
e tudo o que é vivo, e brilha, e é perecível,
somente é conhecida de alguns poucos:
são esses os eleitos, os que, ainda em vida,
percorreram, em difícil ascese, a via estreita,
contemplaram a juventude dos deuses,
e a estes se uniram, em pacto de sangue.
Somente depois foi que morreram,
imunes à dinâmica dos finíssimos grãos
que escorrem na ampulheta do teu ombro.
 

XXIV

Eu vi coisas, Tempo,
que nem o teu fantástico poder
apagará da minha mente.
Eu vi
os soberbos corcéis e seus ginetes
extraídos da pedra pelo gênio
de Fídias,
o touro negro às portas do holocausto,
indiferente entre os seus algozes;
eu vi, em outra sala,
a leoa ferida que rugia
os seus urros cortantes e ferozes.
Vi Ulisses atado ao mastro
do seu bojudo barco, costeando
a ilha das sereias, o largo peito
impando com o deleite dos seus cantos.
Eu a vi
passando em gestos leves como deusa
de talhe impecável e harmonia
de pássaro em vôo, eu a vi
dourar um dia escuro como a noite
e me trazer de volta a alegria.
 

XXV

Os corredores do museu
eram fantásticos portais do tempo;
suas paredes, guardiãs de arcanos
insondáveis pelo simples pensamento.
Meus passos esmagavam apenas metros,
e a cada metro desapareciam
as distâncias seculares da história;
desapareciam, por artes de magia,
a fome dos miseráveis, o sangue das trincheiras,
o luto das mães, as mortes inocentes,
as incompreensões, as guerras fratricidas.
Sobressaía, ao meu olhar enfeitiçado,
todo o nosso destino assinalado,
nossa estranha passagem pela Terra.
 

XXVI

Ó Senhor das vértebras aladas,
mito, sono e veio puro!
Ó Tempo, tu que és a substância
de que todos nós somos feitos!
Tu que és o curandeiro universal!
Ó tu, grão-vizir da memória!

Ó filho do Céu e da Terra, que cedo revoltou-se
contra o próprio pai, ferindo-o gravemente à foice!
Ó tu, que nem dos próprios filhos tiveste piedade
e lépido os devoravas, ao vê-los nascer,
para somente contemplá-los no fundo das tuas entranhas!

Eu te suplico, Tempo,
a ti, que te atreves a colunas de mármore e corações de cera;
a ti, vaqueiro imbatível, que em todos nós, cabeças do gado humano,
pões a tua marca, que queima feito brasa viva:
deixa-a imune a teus caprichos
de sádico cruel e inconcebível.
Em troca,
a teu decreto curvarei a fronte humilde
sem emitir nenhum protesto.

Eu me entrego a ti, em oferenda,
para que possas me consumir ainda mais rápido,
duas vezes mais rápido,
três vezes mais rápido,
matando, em meu corpo, a tua sede
de epidermes e coronárias.

Mas se isso for de fato impossível,
ó Tempo duro,
ao menos retarda sobre ela a tua ânsia
de demonstrar o teu inigualável poder.

Toma este meu canto para te distrair, considera-o
como o som das batidas de escudos e capacetes
oriundo da dança dos Curetes.

Ministra, com vagar, teu caldo estranho,
a ela que é inocente, pois não tem culpa
da beleza que lhe foi concedida
como uma dádiva, como um raio de sol,
e que, se não pode permanecer para sempre,
ao menos deve perdurar, para melhor ser lembrada,
semeando, sobre a terra,
a alegria de que é repleta, e que tanto contrasta
com teu semblante de feroz carniceiro.
 

XXVII

Cloto, Láquesis e Átropos
contigo se mancomunaram, Tempo,
para tecerem nossos tapetes, distintos e imutáveis,
mas cujos fios um dia se cruzaram,
talvez por um descuido incompreensível, posto que divino,
talvez por interferência de outros deuses, mais antigos
e de Panteão incerto.
Seja como for,
não vês que agora somos, eu e ela, Deucalião e Pirra?
Não vês que nossos pastos foram poupados, nossos rebanhos e nosso trigo,
e só juntos poderemos, agora,
renovar o gênero humano,
atirando, de olhos velados, pedras para trás,
que em homens e mulheres irão se transformando?
 

XXVIII

Setembro expõe as minhas rugas
pelos espelhos da casa.

O poeta está no poema
como a chama de uma vela
permanece na lembrança
após uma longa noite de blecaute;

o poeta está no poema
como a árvore está no fruto que se come
ou no pássaro que a tocou
ao pousar em seus galhos;

o poeta está no poema
como o estômago do homem permanece
na mão de quem lhe deu um soco,
ou nos olhos espantados do seu rosto;

o poeta está no poema
como o cervo permanece
na bala do caçador
que lhe roeu as entranhas;
como o cervo também permanece
no pernil que vai ao fogo, na fumaça
que se desprende da fogueira,
no seu forte e agradável odor;

o poeta está no poema
como o cervo ainda permanece
num osso descarnado, jogado aos cães,
como merecida recompensa,
ou na menor gota de saliva
que da boca de um cão cai na terra,
e é por esta tragada, em sua sede insaciável.
 

XXIX

Precocemente envelhecido, aos quarenta anos de idade,
Carlos Newton Júnior, professor e funcionário público,
descendente de paraibanos, pernambucanos e portugueses,
homem sem patrimônio e escritor cheio de inimigos, justamente
por não condescender com a mediocridade e o mau-caratismo,
por não bajular os poderosos do dia, por não
mudar de opinião, muito embora não tenha a idéia fixa dos doidos,
emparedado entre as dunas e os muros da universidade em que leciona
tão-somente para ganhar o pão, pois não acredita
na educação em um país de governantes que não lêem,
forçado a ascender mas mutilado
por tudo que é cansativo e antipoético
como a prosaica luta pela sobrevivência,
orgulhoso do título que recebeu,
de “Cavaleiro Armorial da Ordem da Pedra do Reino do Sertão do Brasil”,
por artes e vontades de si mesmo, à revelia
das academias, clubes de escritores e institutos
com seus compadrios, suas malícias, estatutos,
seus presidentes vitalícios, suas nulidades literárias,
cada qual com a dimensão que a província lhe concede,
sagra-se, enfim, poeta.
 

XXX

Somente agora, aos quarenta anos de idade,
eu me aproximo de ti, Maiacovski.
Antes fosse pela tua vida
de comandante revolucionário;
antes fosse pelos teus versos
cortantes, claros, combativos;
antes fosse pela inveja do teu porte
de gigante bem apessoado,
com um crânio repleto de versos
que saíam de tua boca numa voz imperativa
como o estrondo de um trovão.

Eu me aproximo de ti
por causa do amor.
Por não acreditar no trigésimo século
e saber que não irei ressuscitar
para revê-la.

Porque, com o meu coração dilacerado,
eu também desejei ser um czar
para gravar uma única imagem sobre todas as moedas
e fazê-la brilhar pela terra inteira,
cheia de alegria.

Sei, por ouvir dizer,
que poema algum irá jogá-la nos meus braços
e apagará a chama que me queima.

Sei, por ouvir dizer,
que não há esconderijo seguro o bastante,
e a ruína silenciosamente se infiltrará
em nossas veias.

Sei, por ouvir dizer,
que tudo é oculto
neste mundo edificado em erro e fogo,
e portanto não devo crer nem procurar
o que a mim foi vedado desde o nascer.

Tempo, saqueador de juventudes,
confio na tua sapiência,
conheço a tua amplitude e a ti me rendo.
Não sou um príncipe de contos de fadas, não mereço
um final feliz.
Os dias irão passar, os invernos,
primaveras e verões que hão de vir,
as dores, as lágrimas, os outonos,
os frutos apodrecerão sobre a terra
e outros surgirão, novos roçados
serão plantados após as queimadas
até a completa exaustão do solo,
destroços serão levados pelos rios
de águas poluídas e peixes mortos,
e o fruto enorme da felicidade
despontará um dia entre as ruínas
que, sem qualquer epitáfio,
abrigarão os ossos do poeta.

Um dia, quem sabe, os pósteros lerão
o meu melhor verso,
que não lhes dirá nada.

E um nome estará perdido,
para todo o sempre,
na minha sagração.


[07-09-2006]
 

In: De mãos dadas aos caboclos, Bagaço, 2008.