quinta-feira, 11 de novembro de 2010
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
A POESIA COTIDIANA DA CRÔNICA
Prefácio
Luiz Carlos Monteiro
A crônica é um gênero literário polêmico por excelência. Da sua origem remota em sintonia com o relato histórico organizado no tempo, passando pelo ensaio e o folhetim até chegar aos nossos dias, quando se consolida na fronteira entre a poesia e o conto, o lirismo subjetivo e a narrativa cotidiana, há um longo percurso. Já na primeira metade do século XIX no Brasil, a crônica funcionou, nos poucos jornais existentes, como folhetim de derivação francesa. A narrativa domingueira e eclética dos fatos políticos, históricos e culturais do cotidiano, que saía no rodapé da primeira página dos jornais, sustentada no modelo francês, teve seus cultores iniciais na voga romântica, cujo representante principal foi José de Alencar. O escritor romântico manteve semanalmente, entre 1854 e 1855, uma seção famosa, “Ao correr da pena”, nos jornais cariocas Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Nos folhetins que publicava, Alencar aproximava-se da literatura ficcional, ao imprimir a sua maneira e o seu estilo aos textos: “Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio, a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do prosador que logo se afirmaria no cenário nacional” (1). Posteriormente, em 1856, Alencar inaugurou a seção “Folhas soltas” no Diário do Rio de Janeiro (do qual foi diretor), cujos textos, mesmo não tendo a periodicidade da coluna anterior, traziam agora o feitio característico da crônica, sem estar presos ao noticiário ou aos fatos jornalísticos.
O outro grande cronista da época foi Machado de Assis. Diferentemente de Alencar, o autor de Dom Casmurro questionava por dentro as relações entre texto literário e linguagem jornalística, a partir dos diversos moldes jornalísticos então utilizados na crônica: “Machado de Assis é o cronista que buscou a maturidade estética da crônica, tornando-a um gênero de natureza híbrida que pode abrigar várias linguagens no jornal e manter uma independência linguística ante o folhetim e o discurso jornalístico de sua época” (2). As transformações locais sofridas pela crônica, notadamente no Rio de Janeiro, fizeram com que recebesse contribuições definidoras que autorizam muitos críticos e estudiosos a considerá-la como modalidade desenvolvida ao extremo no nosso país. É dessa forma que ela é vista por Massaud Moisés: “(...) é certo que, pela quantidade, constância e qualidade de seus cultores, a crônica semelha um produto genuinamente carioca. E tal naturalização não se processou sem profunda metamorfose, que explica o entusiasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania brasileira da crônica: ao menos em relação à crônica dos nossos dias, tudo faz crer que raciocinam corretamente” (3). Chega-se a outros cronistas de especial relevância, numa série temporal que envolve os nomes de Olavo Bilac e João do Rio, Mário de Andrade e Rubem Braga, tendo este último atravessado, depois que começou a publicar em 1928, quase todo o restante do século XX a escrever crônicas de grande sucesso de público.
Uma das antologias mais recentes que pudemos conferir, Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria, organizada pelo professor Douglas Tufano, alinha apenas dez cronistas. São cinco cariocas – Carlos Eduardo Novaes, Lima Barreto, Luís Martins, Machado de Assis e Olavo Bilac, três mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, uma cearense – Rachel de Queiroz e um paulista – Lourenço Diaféria. O pequeno número de cronistas, com predominância do Rio de Janeiro, é compensado pelo número de crônicas, numa média de cinco para cada um deles. É bem menos conhecido fora da sua terra do que os outros, Lourenço Diaféria, embora seja tido como o legítimo representante da crônica paulista. Esse fenômeno ocorre também em Pernambuco com um autor enraizado feito Renato Carneiro Campos, o cronista natural e abalizado do Recife. Outro nome sui generis da antologia de Tufano, o poeta Paulo Mendes Campos, ombreia-se com o do pernambucano Nelson Rodrigues na valorização da crônica futebolística. O formato curto e a aproximação ao ficcional e ao subjetivo logram sugerir propósitos de concepção do organizador, ao ressaltar o “compromisso” dos cronistas com a “vida concreta”. Fornece, em poucas palavras, uma definição da crônica moderna: “Hoje as crônicas em geral são mais curtas, os autores gozam de uma liberdade de expressão maior, o tom subjetivo é mais acentuado, os elementos ficcionais estão mais presentes – mas todas guardam seu compromisso com a vida concreta, mesmo quando parecem não estar falando dela” (4).
Voltando um pouco no tempo, uma coletânea que teve grande alcance de público, Elenco de cronistas modernos, continha apenas sete autores: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. A afluência regional era menos acentuada, e o número de crônicas, dez para cada um. Mas, todos tinham sido editados pela extinta Sabiá, no que se constata facilmente que o critério geral de inclusão foi esse (5).
Ao prefaciar um dos volumes da conhecida série Para gostar de ler, Antonio Candido afirma que a crônica “elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser natural. Na sua despretensão, humaniza; e essa humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição” (6). Eis aí, sem tirar nem pôr, o que seria um dos papéis fundamentais da crônica: humanizar e, no mesmo compasso, nos aproximar ao “modo de ser mais natural”. Dessa humanização, que reaquece linguagens e procedimentos, é que se chega ao texto acabado, livre das intrusões que o tornam frágil, gorduroso e destituído de seus sentidos inaugurais e extensivos. Por isso mesmo, foi facilitada uma ampliação da leitura da crônica no Brasil, vetorizada em formas esteticamente expressivas oralizadas (inicialmente no rádio) e escritas (na revista e no jornal) que intentavam comunicar quase sempre o que se queria ler, sentir e escutar. A permanência vigorosa da crônica nos jornais brasileiros era somente interrompida em circunstâncias imperiosas e superiores, que não dependiam exclusivamente dos cronistas, como, por exemplo, a morte. Mas, enquanto vivo, cada cronista recriava o cotidiano a partir do seu campo de observação, com sua visada pessoal que elegia o homem e a vida como objetos primeiros e privilegiados.
Nossa antologia inicia-se no Recife do século XIX, com um cronista de costumes, o Padre Lopes Gama, que passou a editar a partir de 1832, com algumas interrupções, um jornal implacável, O Carapuceiro. Nesse jornal, Lopes Gama fustigava todos os segmentos da sociedade, sob os pontos de vista moral, religioso ou político. Dele publica-se aqui a crônica “As palestras da ponte da Boa Vista”, uma viagem irônica, irreverente e bem-humorada por uma tipologia humana que se reunia diariamente na ponte em torno a conversas sérias ou maledicentes que dependiam dos caracteres sociais e humanos de cada grupo (“rabequistas”, “gamenhos”, “jogadores”, “políticos”, “cavaleiros da indústria”) (7). Na condição de cronista mais antigo desta coletânea, Lopes Gama enseja os passos inaugurais da prática jornalística de se fazer crônicas. E exatamente por isso, como não poderia deixar de ser, que a maioria dos autores aqui presentes é composta de jornalistas de batente ou que exerceram atividades de jornalista. Há, também, os que têm outras atividades, no âmbito artístico ou profissional, mas que não deixam de rabiscar a sua crônica e publicá-la em jornal ou livro. Escritores que se completam no romance, no conto ou na poesia, emprestam também a sua contribuição.
O Recife de Mário Sette é um capítulo à parte. Na crônica “Não há quem dê mais?”, do conhecido livro Arruar: história pitoresca do Recife antigo (8), Sette discorre sobre os leilões em domicílio que ocorriam rotineiramente no Recife do século XIX. Casas eram invadidas por agentes, licitantes e curiosos, uns ávidos por uma boa negociação, outros simplesmente para especular como vivia a gente que estava a vender seu mobiliário, na ânsia de desvendar segredos familiares, normalmente fechados ao público.
Uma boa quantidade de escritores que ultrapassaram com seu nome as fronteiras pernambucanas faz-se presente nesta antologia: Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Osman Lins. Dentre os que aqui viveram por um tempo, mas que não deixaram de lembrar o Recife em seus escritos, encontram-se Nelson Rodrigues, pernambucano que se radicou no Rio, cuja crônica, “O menino de Pernambuco”, é sintomática de sua infância recifense; Clarice Lispector, que passou parte da infância no bairro da Boa Vista, não tendo jamais esquecido a cidade; Raul Pompéia, que com um grupo de colegas deslocou-se em 1885 de São Paulo ao Recife a fim de concluir o curso de Direito; e Rubem Braga, que esteve aqui de maio a setembro de 1935. Braga conviveu com intelectuais e boêmios locais, frequentou a zona do meretrício e escreveu crônicas que se popularizaram em todo o Brasil. Fez amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Diégues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu 25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Aliança Libertadora Nacional nordestina, que ele editava. Depois de três prisões, deixou a cidade em 13 de setembro de 1935, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro (9). O cronista-compositor Antônio Maria, que viveu até o início de sua juventude no Recife, passando a morar depois no Rio de Janeiro, repartiu-se entre a crônica dessas duas cidades. Suas lembranças recifenses fornecem um painel lírico e urbano de fidelidade e paixão pela cidade; do mesmo modo, quando escreve a crônica carioca, consegue, com familiaridade, retratar amigos, absorver recantos boêmios, dobrar ruas e esquinas do Rio, relatar situações cotidianas com um profundo sentimento lírico.
Além da crônica-poema, como é o caso da que escreveu Everardo Norões, “Um certo padre Gomes”, o leitor vai dispor também de crônicas-perfis de autoria de Gladstone Vieira Belo (tendo como objeto o jornalista Antônio Camelo), de Osman Lins (que mostra a relação de amizade de Osman com o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld), de Paulo Cavalcanti (que reúne, num só texto, o poeta Mauro Mota e uma visada panorâmica e saborosa do Recife que este viveu). Nesse ponto, uma cronista brasileira da maior importância vem à lembrança, Rachel de Queiroz, que teve recentemente uma seleção de suas crônicas feita por Heloisa Buarque de Hollanda. Sobre os “perfis definitivos” em forma de crônicas elaborados por Rachel, notadamente um sobre o Padre Cícero, pronuncia-se Heloisa Buarque: “A galeria de personagens inesquecíveis, lendas e lembranças da seca, fatos curiosos e flagrantes do cotidiano é a matéria-prima central com a qual Rachel trabalha suas crônicas e sua expertise narrativa” (10).
Das crônicas sobre a cidade do Recife e suas manifestações culturais e festivas, seus personagens populares e sua convivência boêmia, sua compulsão libertária e seus novos-ricos, seus becos obscuros e seus locais públicos, a mais representativa é, certamente, “Recife”, de Renato Carneiro Campos. Que vem escrita em prosa poética delirante e nominativa, dando a impressão de nada ter faltado na tremenda declaração de amor à cidade feita pelo cronista.
Em toda coleta literária, surge imediatamente o problema das omissões, por variados motivos – de espaço, de contato ou de escolha. Omissões que podem ser corrigidas futuramente em novas antologias, nas quais aqueles que ficaram de fora poderão vir a ser contemplados. Nomes que invariavelmente serão lembrados pelo paradoxo da sua momentânea ausência, a exemplo de um Pereira da Costa. E de outros que tiveram presença e papel relevante na crônica recifense: Mário Melo, Aníbal Fernandes, Theo¬tônio Freire, Silvino Lopes, Altamiro Cunha, para citar apenas esses. Mas, com um trabalho assemelhado e militante nos jornais locais, tais omissões completam-se em outros contemporâneos que foram contemplados: Jorge Abrantes, Mário Sette, Mauro Mota, Nilo Pereira, Paulo do Couto Malta e Valdemar de Oliveira.
Novos cronistas comparecem, alguns inéditos em livro, outros elastecendo aos poucos a sua bibliografia – Cristiano Ramos, Geórgia Alves, Miriam Carrilho, Raimundo de Moraes. Ao lado desses, aparecem autores consolidados e de carreira literária extensa em suas realizações. Artistas plásticos de inclinação literária já reconhecida também trazem a sua contribuição – Francisco Brennand, José Cláudio e Marly Mota. Nem falta, aqui, a crônica sertaneja dos cangaceiros, com o texto de Frederico Pernambucano de Mello.
De um modo subliminar ou direto, insurge-se um elemento de ligação entre muitas dessas crônicas, sinalizado pelo que fascina ou instiga no perfil guerreiro ou festivo de uma cidade, o Recife. Elimina-se, portanto, algo da disparidade temática predominante e da aparente dispersão conteudística. E, em termos de estrutura e disposição textual das páginas da obra, ao optarmos pela não fixação prévia do tamanho dos textos, imaginávamos que, na consecução posterior do livro, teríamos de assumir a irregularidade das dimensões variáveis e da surpresa do produto final. Na solicitação dos trabalhos aos autores ou seus familiares, as negativas foram tão poucas e irrelevantes que seria ocioso mencionar. Amigos se prontificaram a ajudar, indicando formas de contato com autores, fornecendo livros e outros materiais bibliográficos, apontando locais de pesquisa onde seriam encontrados trabalhos de interesse para a antologia. Parentes de autores mortos agiram com rapidez e diligência enviando crônicas e esboços biográficos – alguns deles também presentes como cronistas, mostrando-se redundante citá-los. Todos sabem, contudo, o quanto ficamos agradecidos e sensibilizados pelo gesto solidário que consolida e reafirma amizades.
Quando Antônio Campos me convidou para este trabalho conjunto que é o Cronistas de Pernambuco, o tempo para pensar sobre o projeto foi mínimo. De imediato, começaram a desfilar no pensamento numerosos nomes que fui juntando aos que Antônio já havia sugerido. E a cada dia novas descobertas, novos insights, e um lema proposto por ele, que funcionou do início ao fim da elaboração do livro: incluir sempre, numa generosidade e desprendimento que não excluía, de outra parte, o critério estético. O fato é que conseguimos reunir uma centena de cronistas que configuram um perfil razoável do gênero em Pernambuco. O feitio estético, a qualidade literária e a capacidade de comoção ou entretenimento originários destas crônicas, deixamos para o nosso possível leitor sentir, desfrutar e avaliar.
Notas
(1) “Alencar conversa com seus leitores”, pref. José Roberto Faria. In: José de Alencar, Crônicas escolhidas. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ática, 1995.
(2) PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil. João Pessoa: Ideia, 1994.
(3) MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.
(4) Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. Organização e apresentação Douglas Tufano. São Paulo: Moderna, 2009.
(5) Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, [s.d.]. A Editora José Olympio relançou a 20ª edição desta obra em 2003.
(6) “A vida ao rés do chão”, pref. Antonio Candido. In: Para gostar de ler: crônicas. Carlos Drummond de Andrade... [et al.] Ed. Didática, v. 5. São Paulo, Ática, 1981. Além de Drummond, os outros participantes são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.
(7) O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. O levantamento das crônicas feito por Evaldo Cabral de Mello teve como base o trabalho anterior de Leonardo Dantas Silva.
(8) Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978.
(9) Para um conhecimento mais aprofundado da vida e obra de Rubem Braga, é importante conferir sua biografia, escrita por Marco Antonio de Carvalho (1950-2007), Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar. São Paulo: Globo, 2007.
(10) QUEIROZ, Rachel de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Gaudi Editorial, 2008. No prefácio a este livro, Heloisa Buarque de Hollanda, que também fez a seleção das crônicas, chama a atenção para “o belíssimo estudo de psicologia regional que é a crônica sobre o Padre Cícero, figura cearense emblemática, reconhecido pelo desenho afetivo e personalizado de Rachel”.
Recife, 30 de setembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Notas Cotidianas e Literárias XXXV
LEMBRANDO ALBERTO DA CUNHA MELO
O desempenho poético de Alberto da Cunha Melo realizou-se em cerca de cinco décadas. Nascido em 1942, sua produção em poesia, para o tempo de vida que pôde viver e dispor, foi respeitável. De temperamento pacífico, no entanto cético e questionador, o poeta não aceitava as injustiças e os tremendos desníveis sociais que caracterizavam o país e a região nordestina. A influência recebida dos eventos negativos em política no cotidiano serviam como estopim para a deflagração de seu canto indignado. Talvez pela abertura à poesia dos novos, pela grande capacidade de fazer amigos, e pelo fato de não ter renegado os companheiros da Geração 65, a recepção de sua poesia gozava de certa unanimidade no Recife. E que, nos últimos anos, tal prestígio ultrapassou as fronteiras pernambucanas, com prêmios, homenagens e publicações que o vincularam a um reconhecimento nacional. Contribui para isso a coluna "Marco Zero", que manteve desde os primeiros números da revista Continente Multicultural, até a sua morte em outubro de 2007, cujos textos foram publicados postumamente em livro pela Companhia Editora de Pernambuco, em 2009.
Alternando com ciclos de versos livres, alguns livros seus, entre eles os três iniciais, Círculo cósmico, Oração pelo poema e Publicação do corpo, foram construídos em versos octossilábicos. A perquirição rilkeana aparece em poemas que indagam sobre uma transcendência que se quer próxima e acessível ao poeta e ao Outro. A partir de versos solenes e meditativos, investe sobre o cotidiano em linguagem classicizante. Este ciclo que já trazia embrionária, contudo diferenciada e ainda inédita, a maneira desabrida de se expressar, encerra-se com a publicação de um novo livro, Noticiário, em 1979, que os mais organicistas diriam visceral. O verso sem demasiadas amarras, sem os freios da métrica principalmente, pode agora derrapar e se esbaldar na palavra direta que não exclui o palavrão, as situações vexatórias e ridículas, os efeitos da dominação que paralisava todo um país e, por extensão, o continente latino-americano. Mas o ritmo não dispensava a concepção rigorosa de se versificar, mesmo que a matéria com que ele trabalhasse fosse impura, como a própria vida.
Em 1983, Cunha Melo publicou, na antologia Soma dos sumos, parte da poesia que vinha fazendo desde 1960. O livro magro não correspondia, de modo algum, a uma obra que poderia ter sido mais bem destacada, apesar de sair no Rio de Janeiro, pela José Olympio. Isto vai ser compensado logo depois com Poemas anteriores pela local Bagaço, em 1989. Aqui, comparecem em octossílabos, meia centena de poemas inéditos e os três livros iniciais já referidos. A força e a dificuldade empregadas na consecução do metro que cultuou com avidez e maestria, o octossílabo, retorna em trabalhos da fase final. É o caso, por exemplo, de Yacala (1999), longo poema que intenta recuperar, para um modelo de homem universal, a solidariedade, a harmonia e a unidade perdidas. Neste texto monotemático, sem esquecer a ramificação de assuntos que o caracteriza, Alberto da Cunha Melo testou seus próprios limites. E conseguiu alcançar, de modo eficaz e competente, um desempenho que o coloca ombro a ombro com os maiores poetas brasileiros das últimas décadas.
Diario de Pernambuco, 12 de outubro de 2010
O POETA
Por muito tempo andou dividido
entre o que restava de vida na noite
e os ritos selvagens de um amor impulsivo.
No entanto tudo aquilo um dia acabou.
Percebeu depois que como chegaram sumiram
a dor e o pranto, o sofrimento e o desamor.
De imediato outras cores e frutos vingaram.
Novo canto soterrou os seus versos primeiros.
A solidão desarmou do seu ser suas unhas e garras.
Assumiu seu papel que sabia inteiro.
Regressou filho e hóspede à antiga cidade.
Recebeu pelas ruas mil abraços festeiros.
Buscou rio e campo nos confins da estrada
a pensar como e quanto se consumiu no amor.
A natureza abrandou sua memória sem calma.
Pois aquele amor impossível finalmente passou.
O AUTO-ENGANO DO POETA
No livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), no Cap. 1, p. 55, a citação abaixo refere-se ao auto-engano do poeta em relação a si mesmo, tomando como base o trabalho poético de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. O trecho poderia, com poucas exceções, ser aplicado à maioria dos poetas, aos poetas que não alcançaram nenhuma espécie de glória em vida, mas que persistiram na sua tarefa despojada e sem grandes esperanças de semear a poesia possível. Ou, no limite do possível e de suas forças, escrevê-la apenas. Vale conferir a relação estabelecida por Giannetti, entre a persistência e o auto-engano:
“Tudo, em suma, conspira para que o poeta entregue os pontos, para que reveja sóbria e friamente a sua existência como um desperdício imperdoável – algo para ser renegado e jogado fora como um punhado de versos imprestáveis. E, no entanto, ele não cede. Ele dobra a aposta e se agarra ao infinitesimal de uma probabilidade remota, como a um galho débil no precipício de sua vida. Ele faz do absurdo de sua própria ambição inexplicável a matéria-prima da criação poética. Ele se mantém fiel à sua paixão juvenil com a tenacidade de uma aranha e o fervor de um recém-convertido. Com o passar dos anos, ele constrói anônimo a sua obra, pedra sobre pedra, duvidando e recomeçando sempre, sem aplausos, sem prêmios, sem assento em academia. Auto-engano?”
sábado, 25 de setembro de 2010
Notas Cotidianas e Literárias XXXIV
POESIA MINIMALISTA E ANGUSTIADA
Um escritor dispõe de possibilidades de escolha diferenciadas para construir a sua obra. A luta com a palavra leva-o a buscar aquelas opções com que mais se identifica em termos de estrutura e sentido. No caso de um poeta, faz-se imprescindível o conhecimento de expressões e manifestações estéticas anteriores e atuais, pois não deve afastar-se demasiadamente da tradição ou mesmo de modalidades correntes de pós-modernidade que estão a acontecer e se perfazem ainda em nível de teoria e experimentação.
Em seu sexto e mais recente livro, Um beijo para os crocodilos, o poeta pernambucano Almir Castro Barros investe fortemente na consecução de um minimalismo obsessivo, cirúrgico e telegráfico para nortear a composição de suas formas poéticas. Utiliza-se de uma economia de meios para a gestação da palavra que a apreende em seus graus diversos de vocábulo, signo verbal, corpo de verso e estrofe. É uma tarefa que exige concisão e equilíbrio para fazer cortes, buscar o fonema exato, alcançar o verso impecável e bem realizado.
Outra tendência estética adotada, mais ligada ao discurso e ao significado, sinaliza para um lirismo algo metafísico e recortado em instâncias angustiantes da frágil condição do poeta e do homem em qualquer sociedade em que viva e transite. Tal condição lírica está intimamente ligada aos feitos da experiência cotidiana vivida ou a viver, ao sonho e ao desejo que cada poeta carrega em si, a genealogia e infância, ao ambiente familiar e à vida coletiva e social. Mostra-se reveladora também das intencionalidades do poeta no trato com a vida, a palavra e a linguagem.
Torna-se promissora aqui a atitude que renuncia a certas facilidades comprometedoras da dicção poética que se quer autêntica, viva, incidente e talvez única na sua diferenciação de base. A manutenção da fidelidade fraterna em relação aos companheiros de geração, a Geração 65, não impõe que se desvie do caminho e dos propósitos escolhidos. Assume as injunções, incertezas e consequências do próprio fazer poético, com uma poesia que amplia certa compulsão por uma escrita situada entre o rigor e o subjetivismo. E que ao mesmo tempo refreia algum excesso ou derramamento discursivo que porventura se insurja nas veredas percorridas desde o livro da estreia em 1975, Estações da viagem.
Nada do que Almir escreve ocorre sem a persistência dos obstinados. Serve-se da lente dissecadora dos que não se contentam com um produto poético derivado do manuseio fácil da palavra. É um daqueles poetas que se debatem entre a esperança e a descrença, mas que podem, ao passar da borrasca, exercer a humildade e o rito de perdoar o descalabro e a insensatez alheia. Mas, ao questionar as motivações de ofensas, opressões e traições, não referenda aquela espécie de perdão sem luta, originário da passividade e do conformismo que entorpecem os sentidos e a fala. A dor e o sofrimento são minorados pela tensão saudável recriada pela poesia. O leitor é espelho e parceiro nesta travessia que envolve tanto a sua participação solidária, quanto a liberdade que sugere o preencher lacunas e incompletudes quase sempre propositais deixadas pelo poeta na busca de síntese, profundidade e aperfeiçoamento da arte de fazer e desfazer versos.
Diario de Pernambuco, 18 de setembro de 2010
UM MINICONTO DE DAVID FOSTER WALLACE
David Foster Wallace, nascido em Ithaca (1962), faz parte da geração de novos autores norte-americanos. Professor, contista e romancista premiado, sua escrita volta-se também para o ensaio. O conto aqui publicado abre o livro Breves entrevistas com homens hediondos (São Paulo, Companhia das Letras, 2005) e intitula-se "Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial":
Quando fomos apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo.
Aqui é onde tudo o que se perde é resgatado. Nesse mundo em que não reconhecemos ninguém, onde nos perdemos e, isolados de nós mesmos, esquecemos identidades, resta apenas nos enfiarmos por caminhos perigosos, espancados e castrados. O que era seu, meu e de todos se esvairá rapidamente diante do Mundo JAMÉ VU.
Então, que Fulano de Tal ressurja do próprio sangue! Neste espaço suas narrativas serão recuperadas, envoltas no mistério de seu suicídio. Além delas, outros achados se farão presentes, servindo de espaço para o estranhamento e a reflexão. Para tanto, convido a todos que adotem este espaço como seu, sentindo-se parte desse pedaço último de humanidade, apresentando resquícios da decadência de sentido, fundamento e essência.
Faça parte do Mundo JAMÉ VU. Contribua, comente, siga e divulgue.
http://www.jamevu.tumblr.com/
Editor: Homero Gomes
Contato: homero.gomes@gmail.com
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Robson Sampaio, jornalista e poeta, é alagoano radicado no Recife, onde recebeu, em 2006, o título de Cidadão do Recife, concedido pela Câmara Municipal. Publicou os livros O Recife & Outros Poemas (2007) e Eu Sou Capibaribe (2009). O poema abaixo traz um efeito anafórico afirmativo e simplificado nos versos inciais tríplices do que seriam as estrofes, se houvesse a subdivisão dentro do próprio poema, que aparece estruturado em bloco único. Mesmo assim, a sequência é preservada, e "O mistério do entardecer no verão recifense" permite que se pense no Pernambuco ancestral e histórico de grandes lutas e batalhas insurreicionais em relação ao país, na cultura diferenciada em festa popular desbragada que são o carnaval e outras manifestações, e na ambiência tropical que expõe belas mulheres no azul do mar e nas areias das praias fartas e privilegiadas que caracterizam o locus pernambucano.
ENTARDECER
O mistério do entardecer no verão recifense
ilumina o Capibaribe e reflete a alma:
Pernambuco.
O mistério do entardecer no verão recifense
anuncia o som dos clarins de Momo:
Passo e frevo.
O mistério do entardecer no verão recifense
sugere águas mornas e areias quentes:
Azul do mar.
O mistério do entardecer no verão recifense
reacende o calor das mulheres que brincam de sedução:
Vontades ardentes.
O MUNDO JAMÉ VU DE HOMERO GOMES
Aqui é onde tudo o que se perde é resgatado. Nesse mundo em que não reconhecemos ninguém, onde nos perdemos e, isolados de nós mesmos, esquecemos identidades, resta apenas nos enfiarmos por caminhos perigosos, espancados e castrados. O que era seu, meu e de todos se esvairá rapidamente diante do Mundo JAMÉ VU.
Então, que Fulano de Tal ressurja do próprio sangue! Neste espaço suas narrativas serão recuperadas, envoltas no mistério de seu suicídio. Além delas, outros achados se farão presentes, servindo de espaço para o estranhamento e a reflexão. Para tanto, convido a todos que adotem este espaço como seu, sentindo-se parte desse pedaço último de humanidade, apresentando resquícios da decadência de sentido, fundamento e essência.
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UM POEMA DE ROBSON SAMPAIO
Robson Sampaio, jornalista e poeta, é alagoano radicado no Recife, onde recebeu, em 2006, o título de Cidadão do Recife, concedido pela Câmara Municipal. Publicou os livros O Recife & Outros Poemas (2007) e Eu Sou Capibaribe (2009). O poema abaixo traz um efeito anafórico afirmativo e simplificado nos versos inciais tríplices do que seriam as estrofes, se houvesse a subdivisão dentro do próprio poema, que aparece estruturado em bloco único. Mesmo assim, a sequência é preservada, e "O mistério do entardecer no verão recifense" permite que se pense no Pernambuco ancestral e histórico de grandes lutas e batalhas insurreicionais em relação ao país, na cultura diferenciada em festa popular desbragada que são o carnaval e outras manifestações, e na ambiência tropical que expõe belas mulheres no azul do mar e nas areias das praias fartas e privilegiadas que caracterizam o locus pernambucano.
ENTARDECER
O mistério do entardecer no verão recifense
ilumina o Capibaribe e reflete a alma:
Pernambuco.
O mistério do entardecer no verão recifense
anuncia o som dos clarins de Momo:
Passo e frevo.
O mistério do entardecer no verão recifense
sugere águas mornas e areias quentes:
Azul do mar.
O mistério do entardecer no verão recifense
reacende o calor das mulheres que brincam de sedução:
Vontades ardentes.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Notas Cotidianas e Literárias XXXIII
CARTAS DE BRENNAND A FERNANDO MONTEIRO
(SOBRE O POEMA VI UMA FOTO DE ANNA AKHMÁTOVA)
Em 17 de maio de 2010, Fernando Monteiro me enviou quatro cartas de Francisco Brennand, que tinham como assunto central o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova. O poema havia saído há pouco no Recife e Monteiro estava imerso no processo de sua divulgação. Nelas (postadas por e-mail), Brennand, na condição de leitor lúcido e erudito, enceta uma defesa intransigente do poema, analisa por dentro e questiona o alcance crítico das análises feitas, inclusive de uma resenha que escrevi e postei neste blog. O texto, “Fernando Monteiro & Anna Akhmátova: um diálogo possível da poesia ocidental”, escrito algum tempo depois que o poema apareceu, mas não no calor da hora, circulou por outros blogs: NotaPE/PE (Cristiano Ramos e Cristhiano Aguiar); Substantivo Plural/RN (Tácito Costa); Papo Furado/RN (Jairo Lima); O Pensador Selvagem/RS ( Milton Ribeiro); e Literário/SP (Pedro Bondaczuk). A resenha conseguiu incitar Brennand a perquirir com veemência o afirmado num dos parágrafos, na Carta IV, datada de 17 de maio do corrente. Esta carta chegou exatamente no dia em que Fernando mandou também as outras três, que são de 2009. Em mensagem a Fernando Monteiro, não pude deixar de atender à interrogação de Brennand sobre “a incompletude” de que falo no trecho referido, e que será melhor absorvida depois da leitura da própria carta: “Para o parágrafo que ele [Brennand] destaca, diria que a poesia, apesar de ter uma grande penetração no real e no surreal, com toda a sutilidade que isso requer, deixa lacunas sensoriais que não podem ser apreendidas pelas palavras, e sim pelas sensações e pelo mundo dos sentidos, daí a incompletude de que falei”. Fernando encarregou-se de explicitar as razões do amigo, extremamente válidas, pelo que trazem de amor e zelo ao poema: “(...) como o Anna repercutiu profundamente sobre Brennand (tenho aqui mais de cinco longas mensagens dele sobre o poema), creio que qualquer coisa o inspira a ‘defender’, digamos, o livro pelo qual realmente tomou-se ‘de amores’ (para grande honra minha)...” As cartas, transparentes e densas, além do registro cronológico, considerado como o dia de cada postagem eletrônica por Brennand, contêm ainda títulos esclarecedores e de importância evidente para a compreensão do conteúdo. Vale a pena conferir.
CARTA I
Gnose (com novos acréscimos)
27 de agosto de 2009
Prezado Fernando Monteiro,
“Vi uma foto de Anna...”, em hebraico. Não me surpreende a súbita inspiração de um professor da Universidade Bar-llan, em Israel, de traduzir o seu livro para o hebraico.
Aqui, entre os meus alfarrábios que formam um conjunto parecido com um diário, encontra-se uma personagem fictícia de um cozinheiro coreano que resolve escrever uma carta indecifrável. Tentei saber um pouco a respeito do sistema de escrita coreano e acabei descobrindo não haver um consenso entre os linguistas sobre a identidade desse idioma, frequentemente classificado como um “idioma isolado”. Sem explicação achei isso de uma nobreza tamanha devido ao fato de uma pessoa se expressar num idioma que jamais será universal. Não estou fazendo nenhuma digressão e vou direto ao assunto: o seu longo e admirável poema “Vi uma foto de Anna Akhmátova” ficará dentro da literatura brasileira de todos os tempos como um “idioma isolado”. Foi isso o que me ocorreu. Pode, inclusive, nem ser um elogio, mas o efeito substancial desses versos é de tal forma avassalante que, por natureza, tornará inevitável sua exclusão. Lidos, com ou sem atenção, eles são únicos e plurais. E estranhos, muito estranhos. Que lembranças invulgares, que associações ao mesmo tempo espirituosas e fisiológicas, como se estivéssemos diante de uma batalha sem tempo, de uma carnificina ímpar (e você dentro dela a vociferar, vez ou outra recordando a foto de Anna que também é o tempo). “O tempo que não passa porém cancela nossas pegadas nele.”
Diz você que é a sua visão do mundo. Em oitenta e cinco páginas você escreveu a história da humanidade. Pelo menos a que nós conhecemos, alguns de nós. Outros, jamais a conhecerão. Não pretendo ser um profeta fácil. Agora, de uma coisa estou certo, dentro de muito pouco tempo “Vi uma foto de Anna Akhmátova” será traduzido em diferentes idiomas, a começar significativamente pelo hebraico.
Abraço do amigo,
Francisco Brennand
PS. Qual tem sido a reação do público e da crítica local e nacional? Talvez minhas previsões não tenham cabimento. Teria muito a acrescentar sobre a foto de Anna, mas prefiro voltar a reler: “Havia um mapa traçado na pélvis,/uma naturalidade na nudez total,/um despojamento, uma cor no calcanhar...”
Roberto Alvim Corrêa, que eu conheci de perto numa de minhas exposições no Rio de Janeiro admitia que, em se falando dos poetas, não é prudente citar seus versos a fim de interpretá-los. No seu caso é impossível fugir a tentação.
FB
CARTA II
O reconhecimento da carne (Com acréscimos e PS)
8 de setembro de 2009
“Minhas previsões não tinham cabimento.” Eu acreditava ─ sempre erramos em relação aos outros ─, na minha visão particular das coisas e uma coisa pode ser todas as coisas, como pretendiam os hippies de São Francisco, na Califórnia, nos anos 60. De uma maneira sistemática você foi me mandando exemplares de diferentes críticos brasileiros e todos acertando no alvo, ainda com mais precisão e propriedade de linguagem do que eu em relação a esse poema esdrúxulo “Vi uma foto de Anna Akhmátova”.
Só por diversão, depois de ler a excelente crítica de Hildeberto Barbosa onde ele ressalta a energia de sua linguagem poética, tinha mandado Cristiane alterar o meu pequeno e-mail inicial (“Gnose”) pela quinta vez, para uso próprio, justamente em cima de uma frase que não me agradava: “(...) ao mesmo tempo espirituosas e fisiológicas.” Nada de fisiológicas e sim carnais, porque nas suas múltiplas visões de Anna Akhmátova, você se “permitiu ver a alma na carne / como numa prisão que Dido faz arder”. Não vou abusar de citações para justificar a inconveniência de minhas palavras diante dessa fogueira. No sentido da crítica temos o bastante em Jorge Tufic, muitíssimo em José Castelo e igualmente forte e desconcertante em Milton Ribeiro.
Fui salvo por uma única palavra: talvez. “Talvez minhas previsões não tenham cabimento.” E pelo visto, a “reação” ao poema começa a corroer a alma dos melhores espíritos quando nos encontramos apenas na overture do enigma.
Fiquei confundido com a existência (ou não) de um amor incestuoso entre mãe e filho, embora os versos nada pretendam esconder: “Não poderia haver arrependimento / do amor restabelecendo o elo / do cordão guardado entre cânfora e mirra...” Ou então: “o longínquo traço de sangue da estrela / entre as raças do incesto, o pudor tardio / fugindo dos meus dedos, / escapando do meu sexo até o dia / de lhe inspirarem horror.”
Aquilo que disse que não iria fazer, estou começando a abusar. Veja como são as coisas que podem ser todas as coisas...
Abraço do amigo,
Francisco Brennand
PS. Obrigado pela versão fotográfica de Balthus. Scarlett, de mais perto, tem cara de fruta.
FB
CARTA III
O Juiz
11 de setembro de 2009
Prezado Fernando Monteiro,
Na sua expressiva carta Hildeberto Barbosa demonstra um entendimento incomum dos alicerces subterrâneos de seus versos, chegando ao fascínio, às vezes, ao espanto e mesmo ao estupor diante do poema “Vi uma foto de Anna Akhmátova”, no entanto, no final, acaba por revelar que: “Quem sabe, eu não escreva um texto crítico sobre ele, vontade não me falta, vamos ver o tempo...” Será que HB não se apercebeu que o texto crítico já estava implícito na carta ou ele distingue entre uma carta particular e um artigo público, evidentemente muito mais comprometedor?
Enquanto isso, na sequência dos acontecimentos, chegamos a um inesperado resultado quando um longínquo leitor de Florianópolis, um juiz de direito aposentado, num gesto enfadonho de fim de tarde, resolve ler um poema que a primeira vista lhe pareceu longo e logo adverte o autor das dificuldades desse empenho.
Na continuidade das primeiras quinze páginas do livro, num crescendo da “overture estranha que leva para o poema uma certa majestade”, o magistrado, prisioneiro de suas interpretações forenses, lembra do “Navio Negreiro”, de Castro Alves, ainda não se apercebendo do rio caudaloso que teria de vadear, embora já deslizasse em “ritmo acelerado e vertiginoso”: “Nada de igual havia sido feito na poesia brasileira”, ele confessa.
O resto não precisa comentar. As cartas estão numeradas. Na número 6, ele fala “no teor erudito, algumas vezes, impossível de devassar o sentido”. Na número 7, ressalta “o esforço inaudito do poeta para evitar a vulgaridade, o lugar comum, etc.” E conclui: “tudo parece ser cuidadosamente construído”. Reconhece, na número 8, “a espantosa estrutura organizacional do poema”. Na carta número 9, o juiz se transforma numa das personagens do próprio poema e é ele aquele que deve julgá-lo em última instância: “A razão de ser do poema é o próprio poema. Todo grande poema postula o mistério. Ou é o próprio mistério. O enigma supremo.”
Ele ainda tem muito mais o que dizer nas cinco últimas cartas, mas ninguém melhor do que o autor para se regozijar em silêncio (com um certo sorriso, embora triste). Eu não sei se foi Borges ou outro escritor citado por ele que propugnava que “o leitor fosse o autor duplicado”.
Apesar do nosso crítico militante Hildeberto Barbosa prometer um possível texto crítico, um juiz aposentado (com muitas horas de ócio), lá nos sítios do longe, fez sua as vozes do JUÍZO FINAL.
Você não pode esperar mais.
Abraço do amigo,
Francisco Brennand
CARTA IV
Mais uma vez, Anna
17 de maio de 2010
Prezado Fernando Monteiro, às vésperas de sua viagem à Andaluzia.
Li, com atenção, a crítica do “Anna Akhmátova”, de Luiz Carlos Monteiro, como uma abordagem completa e erudita de todo o seu poema, além de referências ao seu percurso literário traçado em outros poemas, os quais certamente não deveriam ser ignorados porque são excelentes e, em parte, desvendam um pouco de Anna.
Toda a análise de Luiz Carlos Monteiro navega nos bordos do seu poema e o descreve com a linguagem apropriada dos críticos dando a impressão de tê-lo desvendado de uma maneira arguta do começo ao fim. Não resta dúvida que ele leu o poema várias vezes e que soube dizer tudo aquilo que um crítico de sua agudeza pode argumentar.
Poder-se-ia concluir que o conjunto é altamente elogioso e ninguém pode dizer o contrário, embora, a mim, tenha dado a sensação de que ele esqueceu de alguma coisa que deveria ser dito e ele não disse. Entretanto, uma simples carta (um bilhete) de Francisco Jarauta, confessando “ter lido o poema e dele extraído tantas afinidades poéticas e espirituais... E ainda prosseguir na leitura e assim compartilhar nossas ideias e palavras”, me fornecem, de imediato, pelo tom como foi dito, o quanto o filósofo se apercebeu com quem está tratando. O passado de Jarauta já o autoriza com essas poucas observações, a sua enorme afinidade com aquilo que “Anna Akhmátova” merece. E merece sem nenhuma restrição.
Não me agradou Luiz Carlos Monteiro ter mencionado no seu artigo o seguinte termo: “Captadas pela sutilidade da poesia, mesmo que em regime de incompletitude”. Eu pergunto: que incompletitude e em que sentido? Não entendi.
Com o maior prazer escolhi um dos exemplares do livro BRENNAND (Spalla, 1987), escrito por você. O exemplar já está devidamente embalado e seguirá com urgência para o endereço fornecido por vosmecê. Só não coloquei uma dedicatória porque minha letra macularia o livro. Preferi um cartão onde confesso a minha profunda admiração pelo filósofo, quando assinei meu nome.
Boa viagem para você e Cristina.
Abraço do amigo,
Francisco Brennand
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