sexta-feira, 11 de junho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXIV

RAVELSTEIN
UM LIVRO IRÔNICO E INQUIETANTE

Uma década depois de seu aparecimento, Ravelstein se coloca ainda hoje como livro saudavelmente irônico e inquietante, além de provocante e explosivo. É o último livro de Saul Bellow (1915-2005), judeu americano nascido no Canadá e prêmio Nobel de 1976. Outras obras de Bellow, dentre o seu considerável acervo ficcional de décadas diferentes, como Por um fio, As aventuras de Augie Archer, O planeta do Sr. Sammler e Dezembro fatal despertaram a curiosidade do público americano e europeu pelas verdades do escritor ditas em tom polêmico e desassombrado, sem medo de desagradar a ninguém. Apareciam nas suas páginas referências repetidas das consequências desastrosas da Grande Depressão de 1929 em diante, das duas guerras mundiais e do anti-semitismo massivo e intercontinental, do ceticismo perante a América como a nação mais influente e democrática do planeta em contraponto com a vida miserável da gente esquecida dos guetos, bairros amontoados e similares de favelas tropicais. O mundo da alta cultura e da crítica não poderia desprezá-lo ou ignorá-lo, pois no seu desempenho narrativo encarregava-se de falar em absoluto a seu tempo, sem renegar a sintonia com um passado literário demasiado próximo ou distanciadamente clássico, e sem deixar de projetar e confrontar situações de sua própria época com essa tradição e os dias vindouros.

Judaísmo e guerra, velocidade tecnológica e desmoronamento progressivo do corpo, filosofia grega e gastronomia francesa, música clássica e esportes, compõem um conjunto de assuntos e uma sequência de acontecimentos desenvolvidos em Ravelstein (Rio de Janeiro, Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro). Ravelstein, um conhecido e bem-sucedido professor de filosofia política pede a seu amigo escritor Chick que faça a sua biografia. Ravelstein se encontra à beira da morte, acometido por vários males infecciosos, entre eles AIDS, mas resiste com determinação e coragem enquanto o corpo se decompõe vertiginosamente. O escritor reluta bastante, pois sabe que ao biografar o filósofo estará também retratando a si mesmo, ao considerar que os ligava uma amizade de várias décadas. É aí que reside o viés polêmico do texto: Bellow, identificado como Chick, – e Abe Ravelstein como o filósofo Allan Bloom (1930-1992) – teria cometido exageros no perfil e na visão do amigo. Mesmo que a obra tenha todo um lastro ficcional, a introdução de situações reais e ainda muito recentes da vida de ambos foi contestada, talvez pela maneira extremamente crua, sincera e irônica que Bellow utilizou.

O escritor e o filósofo promovem um duelo intelectual que expõe no limite o que pensam sem escamoteações. São diálogos encetados e construídos com a finalidade de analisar a alma por dentro, o flagrante nem sempre previsível das intrincadas relações humanas, a falta de entusiasmo nas coisas que são feitas como rotina. E também a corrida desabalada das últimas décadas do século 20 em direção a um caos irreversível e às vezes não identificado, ensejando a luta inglória pela sobrevivência entre predadores de todo tipo, o consumismo exacerbado e a indiferença pelo humano e o humanismo, a metafísica cambaleante, cambiante e teimosa por isso viva ainda, a tremenda desesperança dos rostos da maioria desorganizada.

O escritor se manifesta a partir do novelo literário de suas percepções, falhas, defeitos, titubeios, vacilações e acertos. O filósofo a partir do saber acumulado numa inteligência privilegiada volta-se para as causas da loucura do mundo moderno de informatas, burocratas e tecnólogos, estabelecendo a conexão possível entre o mundo antigo e o declinar do século 20. Filósofos gregos são trazidos e retransformados para a atualidade da alta política liberal europeia e norte-americana. Surgem daí reflexões sugestivas e entremeadas sobre Platão, Sócrates, Maquiavel, Rousseau e Keynes. O mundo patriarcal, monoteísta e dominador de Moisés permite que se fale sobre Jerusalém e a longa tradição das Escrituras, sobre a condição dos judeus agora incluídos geopoliticamente em países e continentes, mas ainda com sanções e efeitos restritivos nem sempre explícitos.

Ravelstein, um homem de muitos desafetos intelectuais, era o controlador dos amigos (monitorava os casamentos de Chick), de alunos (incitava-os a afastar-se de suas famílias, a imitá-lo na aparência exterior de ternos, gravatas e sapatos caros) e de quem quer que fizesse parte de suas relações acadêmicas, mundanas ou de amizade. A dependência de Chick relativamente a Ravelstein era apenas aparente e parcial, pois o escritor pensava por si mesmo e uma ou outra vez não desejava contrariar o amigo. Essa suposta humildade de Chick, que defendia a conversa franca entre ambos que nada deveriam esconder um do outro, talvez seja responsável pela extrema acidez e pelo humor constante que destila no perfil traçado, para muitos críticos e colegas do filósofo, incômodo, ao expor pós-morte fatos que não eram de domínio público.

Quando Ravelstein, que sempre gastou mais do que podia, chega a endividar-se sistematicamente, Chick propõe que ele escreva um livro sobre sua experiência acadêmica. A grande semelhança Ravestein-Bloom começa nesse ponto: o filósofo publicou em 1987 O fechamento da mente americana (The closing of the American mind), com prefácio de Bellow, um best-seller contundente, que vendeu milhões de exemplares e o tornou um sujeito rico, podendo transitar sem economizar em lugares luxuosos de Paris, manter um apartamento no mesmo hotel onde estava hospedado Michael Jackson, comprar acessórios pessoais, louça e prataria sem pensar nos seus custos dispendiosos. Os hábitos alimentares de Ravelstein são explicitados numa passagem esclarecedora, num almoço promovido pela esposa do fundador do seu departamento universitário: “Abe Ravelstein, na época um jovem membro do corpo docente, foi convidado para um almoço em homenagem a T. S. Eliot. Marla Glyph disse para Abe Ravelstein quando ele estava indo embora: – Você bebeu do gargalo da sua garrafa de Coca, e T. S. Eliot estava olhando, horrorizado.”

Um tema recorrente nas obras de Bellow, como não poderia deixar de ser, é o papel do nazismo na vida dos judeus, que continua a abrir sequelas quando nele se pensa a fundo. Ravelstein, um ateu liberal e filósofo de algumas ideias próprias, que aprendeu o esotérico em filosofia com seu mestre Leo Strauss (no livro, Davarr) não descarta totalmente o talento de apenas um nome vinculado aos nazistas, o do escritor francês Cèline. Mas a condição judaica de Ravelstein, aliada a uma mente de inteligência poderosa e contestadora, permitiu a exposição de uma visão independente, polêmica e diferenciada que atacava em todos os flancos as feridas recentes das duas guerras, a exclusão judaica de muitas decisões populares e nos altos círculos intelectuais e políticos de países. Essa mesma condição facilitou o envio de torpedos filosóficos e políticos envenenados no rosto sorridente da América do século 20: a falência do sistema educacional norte-americano, a paralisia da juventude entupida de rock’n roll, o engessamento de professores acomodados em sua rotina ideológica de esquerda ou de direita, a defesa intransigente da educação como formação de cabeças e quadros novos para exercer funções importantes nos setores públicos e privados do poder, que contribuíssem efetivamente nas escolhas políticas e econômicas de eventos como negociações envolvendo guerras, conflitos raciais e religiosos, invenções científicas e tecnológicas.

Críticos americanos não conseguiram entender como o filósofo convivia no cotidiano com seu ateísmo militante, seus impulsos conservadores e seu desregramento sexual. No final, ele reconcilia-se com o judaísmo, mas mantém a base pragmática e eclética de sua filosofia e não mais se importa com o risco advindo de parceiros ocasionais de rua. Bloom-Ravelstein afirmava que os seus mentores intelectuais poderiam ser listados rapidamente, mas nada era tão simples assim: Sócrates para o discurso filosófico, Maquiavel para o político, Nietzsche para o niilismo distribuído em modos de concepção diferenciados para americanos, judeus, ingleses, alemães, italianos e franceses, além de Rousseau para instigar o individualismo, a auto-exclusão da maioria como rebanho que não pensa, ou não pensa em termos do bem-pensante filosófico.

Chick adoece ao comer um peixe estragado numa praia caribenha, escapando da morte por pouco. No longo período de convalescença é que decide dar início à escrita de Ravelstein, cumprindo a promessa feita no leito de morte de Abe. Bellow-Chick admirava o raciocínio filosófico radical e a capacidade do amigo em mobilizar grandes plateias na Europa e nos Estados Unidos, para divulgar suas ideias em larga escala, nem sempre aceitas compulsória e compassivamente. Na última frase do livro, “Você não desiste facilmente de uma criatura como Ravelstein em favor da morte”, Bellow reconhece a presença de uma figura excepcional que não se acaba com o corpo. Pensamento e matéria, ideias e necessidades diárias que puderam andar juntas enquanto complementares de um mesmo jogo, se revelam onipresentes na experiência efêmera e dessacralizada da vida em confronto e simbiose com a violência inesperada e pacificadora da morte.

CRÔNICA-POEMA ESPORTIVA DE
PAULO MENDES CAMPOS

O jornalista e escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991), dividia seu tempo entre a crônica, a poesia e a vida boêmia. Era um expert em futebol e em frases espirituosas e bem-humoradas. Ao longo de sua vida teve colunas diversas, fixas ou menos duradouras, em jornais e revistas. Nesta crônica-poema, Paulo Mendes homenageia os jogadores da seleção brasileira de 1962, que ganharam o bicampeonato mundial. Ela compõe o livro O gol é necessário: crônicas esportivas (RJ, Civilização Brasileira, 2009, org. Flávio Pinheiro) e intitula-se 13 maneiras de ver um canário. Dos treze canários que o poeta cantou, dois não eram titulares, Pelé e o homem da rua. Mas gozavam da importância dada aos demais, pela condição de fenômeno de um e pela indispensável torcida do outro. Vamos à crônica-poema:


13 MANEIRAS DE VER UM CANÁRIO

I

Gilmar, quando Deus é servido,
come um frango
psicanalítico
por partida. Depois tranquilo-tranquilo, fecha a porta do inferno.

II

Vê Djalma Santos, indo e vindo, saltando, disparando,
correndo, chutando, cabeceando, apoiando, defendendo,
corrigindo, ajudando às vezes, inexplicavelmente, até sorrindo
em seu combate.
Vê Djalma Santos e reconhece logo:
ele acredita em Deus, é um servo de deus, um lateral direito
de Deus.

III

Mauro afirma em Marden, Samuel Smile, na força da vontade,
na vontade da força, na constância do caráter, na vitória
suprema da coragem, e em todos os sentimentos de aço, que
eu, por exemplo, não li.

IV

Nilton Santos confia na bola; a bola confia em Nilton Santos;
Nilton Santos ama a bola; a bola ama Nilton Santos.
Também nesse clima de devoção mútua não pode haver problema.

V

O povo disse tudo: antes Zózimo do que mal acompanhado.

VI

Zito é mensageiro de dois mundos:
o da vida, na área adversária (onde residem os mistérios gozosos)
e o da morte, na área do coração brasileiro (onde residem os
mistérios dolorosos).
Zito ziguezagueava zunindo para o Norte.
Zito ziguezagueava zunindo para o Sul.

VII

Como o poeta limpando as lentes do verso,
como o microscopista debruçado sobre o câncer,
como o camponês a separar o joio do trigo,
como o compositor a perseguir a melodia,
o futebol de Didi é.
É lento, sofrido, difícil, inspirado, idealista.
Eis um homem que quase achou o que não existe: perfeição.

VIII

É pela cartilha da infância que se joga futebol.
Garrincha vê a ave. Garrincha voa atrás da ave.
A ave voa aonde quer.
Garrincha voa aonde quer atrás da ave.
O voo de Garrincha-ave é a chave,
a única chave.
E um bando de homens se espanta no capim.

IX

Vavá não crê, Vavá confere, Vavá vai ver.
Zagueiro faz escudo das traves da chuteira:
Vavá vai ver.
Goleiro faz maça medieva do osso do joelho:
Vavá (de Pernambuco)
vai ver.
Para o que der e vier, Vavá vai ver.

X

Há uma dramaticidade em Pelé que eu não me consinto adivinhar.
Como Cristóvão Rilke, Pelé tem um canto de amor e de morte.
Como Cristóvão Rilke, Pelé é o porta-estandarte.
Como o de Langeneau, Pelé está no coração das fileiras mas está sozinho.

XI

E eis que um jovem disse: “Quando vinha acaso um leão ou urso e levava um carneiro do meio do rebanho, eu corria após eles e os agarrava e os afogava e matava; o mesmo que fiz a eles, farei a este filisteu.” E foi assim que Davi-Amarildo liquidou Golias-Fúria com duas pedradas de sua funda.

XII

Minuto por minuto, durante 540 minutos, Zagalo cumpriu o seu dever.

XIII

Olhei por fim o XII canário
e era o brasileiro anônimo da rua, do mato, do mar,
o coração batendo, bicampeão do mundo.


O QUE DISSE O ATOR MARCO NANINI
SOBRE O TERMO CELEBRIDADE

Em entrevista recente (Playboy, maio 2010), o ator Marco Nanini (pernambucano do Recife, onde nasceu em 1948), ao afirmar que “celebridade é uma coisa insuportável”, foi instigado a explicar por que. E disparou: “Porque na verdade é um pobre-coitado o cara que se acredita celebridade. É um adjetivo tão vago... Quem disse que você é celebridade? Esse título valoriza demais a vaidade de quem está em foco. Se você acredita muito nesse canto de sereia, isso se reverte contra você. Porque quando você vira uma celebridade, seja em que nível for, isso é uma consequência do que você fez, não é a semente do seu trabalho. E, se você começa a acreditar na consequência, tira o foco do conteúdo do trabalho.”


A FORÇA DA POESIA FESCENINA

Existe uma literatura que não pode aparecer em lugares que exijam certa contenção ou recato, pois o comportamento e a etiqueta de algumas pessoas não aceitam conhecê-la, fazer sua leitura e muito menos ouvi-la. Decerto por isso, o norte-rio-grandense Oswaldo Lamartine de Faria, quando da primeira edição de Uns Fesceninos (Rio de Janeiro, Artenova, 1970), na coleção “Erotika lexicon”, avisava que seu livro era “publicado especialmente para bibliófilos e colecionadores em edição fora de mercado”. As manifestações dessa literatura tanto se veiculam em poesia quanto em prosa, sabendo-se embora que a poesia fescenina tem maior ocorrência do que a segunda, porque a rima é de mais fácil memorização e divulgação.

Um mote bem-sucedido que leva a determinada estrofe fica martelando na cabeça de espectadores ouvintes e poetas que apreciam as diferentes modalidades da poesia popular, estando a poesia fescenina aí incluída. Para que alguém verseje sobre atos cotidianos que desafiem o pudor, que desvelem o escondido da genitália e que exponham situações do ridículo humano, basta que esteja em ambientes coletivos principalmente, na rua ou no bar, na cidade ou no mato, onde quer que ocorram flagrantes que desenredem o novelo popularmente satírico e criativo dessa poesia.

A segunda edição de Uns Fesceninos saiu em 2008 no Recife, pela Bagaço, organizada pelo poeta e professor pernambucano Carlos Newton Júnior. Reproduzida em fac-símile diretamente da primeira, a partir de um exemplar que continha anotações feitas minuciosamente à mão por Oswaldo Lamartine. Envolvendo parte da produção norte-rio-grandense do gênero, deste livro participam 17 poetas com breves contribuições, pequenos poemas quase todos acompanhados de um relato em forma de causo, para ilustrar o acontecimento que deu origem aos versos. O tom é invariavelmente jocoso, gozador, sem papas na língua ou sem peias no lápis de quem os criou.

Os poetas que praticam a poesia fescenina glosam sobre situações as mais inusitadas. Há o caso de um delegado que queria empastelar um jornal interiorano, quando alguém da redação escreveu circunstancialmente num papel qualquer em forma de paródia “Liberdade! Liberdade!/ Onde estás, fela da puta?” O autor do desabafo foi preso pelo delegado da cidade, um sujeito que atendia por Aguiar, e logo após o poeta Damasceno Bezerra cometeu estes versos em cima daquele mote: “Não sei, ao certo, a verdade,/ Do fato como se deu./ Sei que Mesquita escreveu:/ Liberdade! Liberdade!/ E, por infelicidade,/ Um guarda-civil recruta/ Vai entrando, à força bruta,/ Sem nada o interceptar,/ Chamando por Aguiar:/ Onde estás, fela da puta?” A encomenda de um bodegueiro para conter e prevenir os seus devedores resultou na quadrinha de Jayme Wanderley: “Para não haver transtorno/ Aqui neste barracão,/ Só vendo fiado a corno,/ Filho da puta e ladrão.” Os versos anônimos de um ex-detento permitem que ele se vingue impiedosamente do juiz que um dia o condenou. A autoridade funcionava como barbeiro nas horas vagas, mas um barbeiro especial: “Eu afirmo e dou-lhe fé/ com toda convicção:/ Já tem outra profissão/ o juiz de São José./ Tosou Maria José,/ raspou-lhe as beiras da greta,/ por causa dessa faceta,/ é que todo mundo diz,/ que ele, além de juiz,/ é barbeiro de boceta.”

A morte não é levada a sério por alguns poetas. No cotidiano, de resto, pode-se comumente observar pessoas rindo em velórios, bebendo cachaça, fumando e arriscando um namoro. O poeta José Areias, numa roda de cachaça, ouviu de um dos boêmios presentes uma quadra de outro poeta, Américo Falcão: “Não há tristeza no mundo,/ Que se compare à tristeza/ Dos olhos de um moribundo,/ Fitando uma vela acesa”. Areias arrematou com esta quadrinha infame: “Não há tristeza no mundo,/ Que se compare à tristeza/ Do sujeito olhar um fundo,/ Sem ficar de vela acesa”. A última estrofe do soneto “Enterro do pecado”, de Abner de Brito, sugere um rito profano ao comparar o corpo da mulher a um cemitério no qual, numa metafórica sexualizada, será enterrado o pecado: “Abre os teus braços, mata-me desperto,/ Se tens no corpo um cemitério aberto,/ Vamos fazer o enterro do pecado...”.

A condição do pobre, jamais esquecida em poesia, inspirou os versos de Renato Caldas a partir do mote Se merda fosse dinheiro/ Pobre nascia sem cu!: “Talvez não tivesse cheiro,/ Servia de brilhantina./ Ninguém cagava em latrina/ Se merda fosse dinheiro./ Todo mundo era banqueiro!/ Sanitário - era baú,/ Porém aqui no Assu,/ A terra do interesse,/ Se tal coisa acontecesse/ Pobre nascia sem cu...”. O mesmo Renato Caldas, desejando publicar um livro, soube da presença do jornalista Carlos Lacerda em visita ao Rio Grande do Norte, no início da década de 1950. Lacerda estava a promover a campanha contra a seca nordestina “Ajuda teu irmão”, e o poeta aproveitou para sapecar a estrofe: “Seu doutor Carlos Lacerda/ Já que inventou essa merda/ De Ajuda a teu irmão,/ Publique Fulô do Mato,/ Ajude ao velho Renato,/ Poeta lá do sertão...”.

Ainda que seja feita de palavrões, irreverência, sátira e ataque ao duvidoso bom gosto pequeno-burguês, essa poesia continua a transitar de boca em boca, atravessando gerações, cidades e países. Seria difícil alguém imaginar que, por trás da seriedade de um Manuel Bandeira ou de um Carlos Drummond de Andrade, havia os cultores de versos altamente eróticos, sem excluir cargas do obsceno e do pornográfico. Mais recentemente, na obra de um Glauco Mattoso, encontra-se toda uma literatura vinculada ao calão fescenino. Mesmo os que hipocritamente se voltam contra e olham de viés construções desbocadas e chulas, motes lascivos e às vezes impróprios, se tiverem oportunidade, certamente vão conferir e se deleitar sozinhos com o proibido estampado em versos que a musa popular facilitou e ditou aos seus poetas.


A WEB E OS LIVROS

Contrapondo tipos raros de livros e textos ao formato do texto na Web, Alberto Manguel em A biblioteca à noite (SP, Companhia das Letras, 2006, trad. Samuel Titan Jr), argumenta em favor das formas consolidadas e seculares do livro e ataca a compulsão de velocidade que sustenta e caracteriza a Web: “O menor livro do mundo (o Novo Testamento gravado numa tabuleta de cinco milímetros quadrados) ou o códice mais antigo (seis folhas encadernadas de ouro de 24 quilates, escritas em língua etrusca e datadas do século V a.C.) possuem qualidades que não podem ser percebidas apenas por meio das palavras que contêm, e devem ser apreciados em sua presença física plena e única. Na Web, todos os textos têm a mesma forma, convertidos em nada mais senão texto fantasma e imagem fotográfica. Para o usuário da Web, o passado (a tradição que nos levou a nosso presente eletrônico) é irrelevante, uma vez que tudo o que importa já esta ali, à mostra. Comparado a um livro que revela a idade por seu aspecto físico, um texto na tela de computador não tem história. O espaço eletrônico não tem fronteiras. Os sites – essas pátrias autodefinidas – têm seu lugar nesse espaço, mas não o limitam nem o possuem, são como água vertida em água. A Web é quase instantânea, não conhece nenhum tempo senão o pesadelo de um presente constante. Superfície sem volume, presente sem passado, a Web aspira a ser (ou se apresenta como) o lar de todo usuário, onde todos pode se comunicar com todos os outros na velocidade do pensamento. É essa a sua característica principal: velocidade”.


GERALDINO BRASIL: UMA POÉTICA DA HUMILDADE

Sonetos de sol e outros poemas, sexto livro de Geraldino Brasil, pseudônimo literário de Geraldo Lopes Ferreira (1926-1996), foi publicado originalmente no Recife em 1979, numa edição do autor, com impressão executada nas oficinas da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). Na verdade, só chegaria a conhecer o livro em 1982, através do poeta Alberto da Cunha Melo, num encontro informal de poetas no Beco da Fome, após um recital dos poetas independentes, que ocorria sempre aos sábados. O beco ainda existe, está lá nas cercanias da extinta livraria Livro 7 desde o início dos anos 70, só que agora com frequentadores diferenciados dos poetas e escritores de variados matizes que o prestigiavam, dos estudantes e militantes de esquerda oriundos do diretório central que ficava próximo, das menininhas assanhadas e sequiosas de sexo, cerveja e conhecimento do mundo, dos porra-loucas, dos malandros, dos anarquistas e de outros bichos e artistas exóticos que por ali transitavam. Mas o livro, para além do seu valor simbólico e afetivo, resistiu tanto ao entrevero etílico daquele sábado, como atravessou valentemente algumas residências onde me instalei nos últimos anos, desgastado apenas pelo manuseio periódico a par das diversas leituras que fiz dele.

Também nesse período 1970/80, o poeta e crítico colombiano Jaime Jaramillo Escobar veio a descobrir a poesia de Geraldino Brasil no livro Poemas insólitos e desesperados, de 1972, passando a divulgar o nosso poeta e sua obra em Bogotá e outras cidades da Colômbia. Talvez por isto fosse comum afirmar-se no Recife que Geraldino Brasil era mais conhecido na Colômbia do que em Pernambuco, principalmente depois da edição colombiana de Poemas, um outro livro seu de 1982. No entanto, creio não se dispor de elementos seguros para uma afirmação desse tipo, a qual envolveria uma enquete mínima que fosse entre leitores e aficionados de poesia daqui e de lá. O que se sabe com certa margem de segurança é que ele continua sendo pouquíssimo conhecido em Pernambuco – e numa extensão que comportaria talvez um outro risco, no estado em que nasceu, Alagoas.

A primeira seção do livro, “Sonetos de sol”, engloba doze sonetos que têm como núcleo motivador e central o sol, como o próprio título indica. Estes sonetos não primam pelo rigorismo formal do metro mais comumente utilizado, o decassílabo. Eles permitem variações que, se de um lado ensejam dificuldades óbvias de contagem, pela quantidade de vogais soltas e de vocábulos que permitem uma dupla contagem e metrificação, de outro lado os versos se prestam, numa proporção satisfatória, ao que o poeta quis exprimir. Exceto o primeiro da coletânea, “Um soneto de sol para o meu irmão de tristeza, Cézanne” (moldado no rimário do modelo tradicional) e “Sol solidão” (onde há apenas uma quebra de sonorização, nos versos que rimam melhor/amor), os restantes estão vazados em versos brancos ou obedecem a um rimário nitidamente ocasional. Num soneto como “Sol sertão”, de temática áspera e reconhecidamente difícil, Geraldino Brasil alia pelo menos dois elementos característicos e de grande ocorrência na sua poesia: uma espécie de ironia direta e despojada de sofisticações e a solidariedade como marca de fé na vida e no homem: “Sol de que mais se morre que se vive./ Vi a gente de lá. Gente, tinha olhos,/ falava. Só a fome era de bicho./ E fé. O sertanejo é antes de tudo// um crente ou sua fé não é de gente.”

Em “Poemas de ler sem tempo” enfileiram-se vinte e quatro tercetos vazados em hexassílabos, podendo constatar-se ainda uma amplitude de variação métrica que se expande em mais de dezoito versos. Observe-se um exemplo escolhido pela justeza do que enuncia, o poema “Homem moderno”: “Eis o que faço e vou mal:/ do principal o acessório,/ do acessório o principal”. Em tais versos, torna-se flagrante, como um achado inesperado, a admirável síntese dialética – não sem uma certa angústia ou desolação –, presentificada no reconhecimento da inutilidade e do sem-remédio que circundam o fazer criativo, as ações humanas e o malogro destas ações quando pretendem ser e significar. Estes tercetos configuram uma vertente aforística peculiar a Geraldino Brasil, com reflexões pertinentes ou contextualizadas do homem, da vida, do tempo, do mundo, do amor e da morte, entre outros assuntos de escolha universal e recorrentes em poesia.

Na terceira seção do livro, “Conhecimento da solidão”, a forma fixa é descartada – com exceção de dois sonetos, “Amor” e “Na estação”, e de uns poucos poemas aleatoriamente rimados e de métrica irregular. Ele pratica agora o verso longo e desmedido, como se os assuntos enfocados exigissem um maior desdobramento sintático-coloquial. Uma faceta do homem-poeta Geraldino Brasil que reitera uma condição especial de humildade no seu universo poético e humano, pode ser entrevista no poema “No cárcere esquecido”: “Sou um pequeno poeta e não sei ver/ todas as belezas. Mas pelo pouco que vejo/ nem posso imaginar as outras que não sei ver.”

Dois poemas desta série incursionam pela inauguração de uma religiosidade condicionada a um diálogo, em alguns instantes transformado em confronto ou fuga, entre o homem e a divindade. O primeiro deles, “Identificação com o Senhor”, referenda, ao mesmo tempo que põe em dúvida e renega, certas atitudes do “Senhor”: “Eu sou triste, não sou de dizer amém!,/ portanto sou daqui, apegado a estranhos,/ ao sonho, à esperança, ao desespero,/ recusarei o céu,/ antes mesmo da minha condenação (...) Reparem, não é virtude, não me atribuo bondades./ Pelo contrário, é um desentendimento com Deus ou,/ quem sabe?,/ completa identificação.”

Já o drama de um homem condenado ao amor de uma mulher, e lutando por esquecê-la, é narrado em “Desconversa”. Ele tem um santo protetor que sempre o atende, em ocasiões diversas e inusitadas, e resolve apelar para o santo. Ao chegar à igreja, ajoelhar-se e começar a formular o seu pedido, estremece quando lembra que o santo forçosamente o ajudará. É então que se impõem um dilema e uma surpresa, logo resolvidos pelo poeta, onde valem as suas próprias palavras: “E com receio de perder o amor de que sofria,/ com reserva mental desconversou sua oração, tossiu,/ olhou para o relógio, simulou espanto,/ baixou o olhar ao chão, pra não fitar o santo,/ fez um sinal da cruz mal feito e escapuliu.

Ele esmera-se na tematização da infância e suas sugestões infindáveis, no poema “As coisas eram certas”: “Menino, meu futuro,/ a próxima manhã,/ e, certa de chegar,/ não era a espera vã.” Torna-se particularmente enfático quando retrata a circunstância da recepção, nas casas burguesas, de um cão, um mendigo, ou mesmo o leiteiro e o homem do pão em “Ninguém sobrenome não”: “Quando batiam à porta/ do meu santo lar cristão,/ às vezes era um Senhor,/ muitas vezes Ninguém Não (...) E me lembro: tanto ouvias/ o teu nome: - Ninguém Não,/ que se de cá perguntavam,/ respondias - Ninguém Não.” E esmera-se mais ainda na sua condição irrealizada de pintor de naturezas mortas e intérprete eventual de formas e motivos cromáticos, quando intenta substituir a “caneta esferográfica” de poeta um tanto passadista pelo pincel de Cézanne, seu irmão de tristeza, como no primeiro poema do livro, ou em “Quase Modigliani”, poema desta seção.

Fica a constatação de que a seleção destes vinte e dois poemas não obedece a nenhum critério estrutural específico, de forma ou de fundo previamente pensados e elaborados. Mas, devido a essa aleatoriedade que os reveste, eles ressentem-se de certa conformação de conjunto, restando quando não mais uma dicção que enuncia a presença explícita ou, de outro modo, recobre essa presença subliminar do poeta.

A expressão poética deflagrada em Sonetos de sol e outros poemas revela um Geraldino Brasil amadurecido e calejado, pois que à época já entrado nos cinquenta anos (segundo Drummond, referindo-se a Joaquim Cardozo, uma boa idade para poetas). Esta expressão, na sua totalidade, reparte-se em muitas falas e dons, reforçada por um estilo e uma sintaxe que veiculam e ensejam o gosto e a experiência pessoal desse poeta que jamais se afasta das suas fontes geradoras originais, dinamizadas a partir da busca de diálogo direto com um leitor nem sempre acessível. Poética que se retempera também nos arcabouços formais de poemas espalhados em direções multifacetadas: o soneto, o terceto “sintético”, a sextina, o verso livre, longo ou breve, branco ou rimado. E ao circular habilmente por tematizações e complexos conteudísticos e formais sustentados numa poética dividida entre o essencial e a objetividade, ele passa a elaborar a indagação do sentido irrevelado das coisas, além dos destinos e rumos, quase sempre inglórios, reservados ao homem comum no cotidiano.

(“Geraldino Brasil: uma poética da humildade”, Suplemento Cultural da CEPE, ano X, abr. 1997.)


UM POEMA DE FERNANDO PESSOA

O poema abaixo integra o volume Primeiro Fausto, da lavra dos textos dramáticos de Fernando Pessoa, organizado por Duílio Colombini, cuja primeira edição saiu em dezembro de 1986 pelas Edições Epopeia em São Paulo. A única sugestão de título é sinalizada por uma nota do organizador: Encimava o poema a indicação: “Ato III – Cena I”. Afora isso, o poema, no corpus do livro, aparece como o inicial do III Entreato, seguido de “Uma voz” e de outros dois sem titulação. Esse poema caracteriza-se por certo tom goethiano, coisa absolutamente normal, quando se pensa na condição antecipatória do Fausto de Goethe. É revelada, ainda, a faceta “dionisíaca” do Primeiro Fausto em tais versos que cantam o amor sensual e o vinho, numa tentativa de afastar o tédio da vida e a dor terrena:


Cantemos, que a vida
De nada nos serve.
Que em nós a garrida
Canção desmedida
Do vinho referve!

Cantemos, cantemos:
É medrosa a dor
E pegando em remos
Buscando-as viemos
Às praias do amor!

Cantemos as belas
Que sabem amar
Vamos que as estrelas
Sem pudor ou cautelas
Nos vêm escutar!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXIII


O PRÍNCIPE MALDITO:
MAZELAS DA REALEZA BRASILEIRA



Não será novidade para os que fazem a comunidade histórica brasileira alguma notícia sobre o livro de Mary Del Priore, O príncipe maldito, por ocasião de sua reedição recente, no Rio de Janeiro, pela Objetiva. É provável, no entanto, que para muitos leitores que não tiveram imediato acesso ao texto, que perderam a oportunidade de lê-lo ou pelo menos folheá-lo na primeira edição em 2007, resenhá-lo agora sirva para chamar a atenção para alguns pontos e problemas. O fato é que a partir do subtítulo expressivo, Traição e loucura na família imperial, o leitor começa a imaginar o que virá nas suas páginas. E, realmente, a autora corresponde ao que se propôs num relato pungente e apaixonado, numa escrita de quem não mediu esforços para chegar ao seu objetivo, através do conhecimento detalhado do seu objeto. Porque nada parece escapar ao olhar de lince da historiadora.

Infância, internato, viagens, estudos, o privado e o externo são investigados com grande riqueza nominativa e documental através de pesquisa abalizada, exaustiva e segura da maioria dos eventos e relações familiares e sociais que absorveram o príncipe Pedro Augusto de Saxe e Coburgo. “O menino que queria ser rei” titula o primeiro capítulo, que enseja uma visada panorâmica em câmara lenta da chegada do navio Boyne, fazendo retornar o imperador Pedro II de terras europeias, no dia 1 de abril de 1872. O imperador, acompanhado de D. Teresa Cristina e dos netos Pedro Augusto e Augustinho, entra no Rio de Janeiro aclamado, recebido acaloradamente pelas forças aliadas que compreendiam ministros, militares, políticos, comerciantes, acólitos, cortesãos e populares. Fizera a viagem de dez meses para, entre outras coisas, visitar o túmulo da filha Leopoldina na Áustria, que morrera um ano antes de febre tifoide.

O príncipe Pedro Augusto, nascido em 19 de março de 1866, estava com seis anos e trazia esse triste legado da perda da mãe Leopoldina, além da ausência constante do pai Luis Augusto de Saxe e Coburgo, o Gusty, que pensava mais em caçar do que dedicar-se aos filhos. Gusty nutria esperanças de completar o quinto império de príncipes austríacos, alemães e ingleses, através de seu filho Pedro Augusto, que alimentava a possibilidade de expansão dessa dinastia europeia, nos anos em que a aristocracia era substituída pela burguesia em ascensão, cresciam o industrialismo e o comércio com evidências nos sinais de consumismo e de uma nova consciência da classe trabalhadora.

Posteriormente, a convivência conturbada com a tia Isabel e o seu esposo francês Gaston, o conde d’Eu, foram experiências que se somaram e levaram Pedro Augusto a estágios constantes de desequilíbrio emocional. O seu suporte era o avô, o imperador Pedro II, que o protegeu e educou após a orfandade, além de alimentar a ideia de tê-lo como seu sucessor. O imperador incentivava também a princesa Isabel a lutar pela sucessão. Essa posição dúbia de D. Pedro II teria consequências desastrosas para a família imperial e a monarquia. Ela iria permitir uma guerra surda, que duraria muitos anos, entre o neto Pedro Augusto e a princesa Isabel. A conspiração de ambos os lados era flagrante: Pedro fez aliados entre os liberais e até entre os republicanos, enquanto que Isabel tinha a seu favor abolicionistas e a gente da Igreja Católica. A circunstância de ser a filha mais velha do imperador dava-lhe direito constitucional ao trono nas viagens de Pedro II. O seu primeiro filho homem seria o sucessor natural, que nasceria somente em 1875, defeituoso de uma mão e recebendo o cognome real de príncipe do Grão-Pará. Representava uma ameaça a mais aos planos de Pedro de Alcântara, que ficara tão irado, invejoso e ressentido quanto a princesa Isabel, nove anos antes, no momento do nascimento do próprio Pedro.

A carolice da princesa e a assinatura de leis abolicionistas serão suas fraquezas maiores na luta pelo trono, gerando antipatia de uns (políticos, maçons e fazendeiros) e empatia de outros (escravos e católicos). Aliás, a passagem de Deodoro da Fonseca, antes amigo e comandado do imperador, para o lado dos republicanos, foi tida como um ato de vingança e retaliação contra Gaston, genro de Pedro II e marido de Isabel, que lutou na guerra do Paraguai substituindo Caxias, cometeu vários equívocos e deslizes arriscando vidas de brasileiros, tendo, entretanto, voltado como herói.

Uma viagem de Pedro Augusto com os avós à Europa entre 1887 e 1888 revela as suas qualidades de bon vivant, de engenheiro conferencista e colecionador de minerais, do articulador de si próprio visando o reinado brasileiro. Foi recebido pela nobreza do Velho Mundo e chamou a atenção da imprensa por onde passava, que não deixava de registrar positivamente os eventos dessa viagem. Há rumores de um suposto casamento do príncipe e as pretendentes são muitas, mas ele, solitário inveterado, pensando somente em reinar, e mesmo depois de ver frustradas suas aspirações, permanecerá solteiro por toda a vida, não tendo jamais se livrado dos efeitos da ausência do amor materno.

O acompanhamento cronológico da situação histórica da segunda metade do século 19, dos seus eventos políticos, literários e artísticos pelo mundo, autoriza a classificação do livro como literatura de não-ficção. Isso gera, também, efeitos perceptivos de outra ordem, como o deslocamento e a interpenetração de datas, estabelecendo o sincrônico de algumas décadas. Contudo, aparecem momentos em que Del Priore se deixa seduzir pela ficção, ao utilizar recursos desta, apesar de não se afastar totalmente da imagética realista renitente, da metáfora dura dos narradores historiógrafos e da ironia severa decalcada em pontos inesperados do texto. O relato biográfico excessivamente datado e descritivo transcende o histórico em passagens e trechos em que a escritora se aproxima da crônica em fragmentos e instantâneos da ficção, dando lugar a insights narrativos bem característicos do texto literário.

O príncipe maldito tem o mérito de humanizar a família real brasileira, de olhos azuis e ramos mais que misturados, a exemplo dos opostos Orléans e Coburgo. A obra mostra ainda que a estirpe da nobreza era tão mortal e tão suscetível a fatores externos e cotidianos quanto qualquer pessoa que não fizesse parte dos seus círculos fechados e reservados. O leitor, qualquer leitor, especializado ou não, se acaso entrar no embalo da leitura, terá dificuldades em abandonar o livro antes de ter virado a página final.

A loucura do príncipe D. Pedro vai intensificar-se ainda mais após a expulsão da família imperial do Brasil, com a proclamação da República. Tentará o suicídio, será internado em manicômios e clínicas, e falecerá, aos 68 anos, no sanatório austríaco de Tülln. E se aquele leitor optar por conferir depois as páginas pretas em tipos brancos que iniciam o livro, não sem intencionalidades editoriais visíveis, conhecerá as raízes de todas as mazelas do príncipe Pedro Augusto, em convulsão, isolamento e exílio na cabine de um navio em direção à Europa, sinalizadas pela morte precoce da mãe e pela não consecução do trono brasileiro.


UM POEMA DE SEVERO SARDUY

O cubano Severo Sarduy (1937-1993), adotou a escrita do grupo agora menos disperso de poetas e prosadores neobarrocos latino-americanos. O texto que se vai ler encontra-se no livro Jardim de camaleões: a poesia neobarrooca na América Latina (2004), organizado por Cláudio Daniel. O poema “Morandi” foi traduzido por Glauco Mattoso e representa uma espécie de homenagem ao italiano Giorgio Morandi, um inovador da pintura de natureza-morta. Sarduy nomeia os objetos e depois os apresenta nas suas relações com o ambiente, vívidos em sua nitidez e obscuridade, como se partilhassem do movimento e da inércia de todas as coisas. Mostramos a versão bilingue do poema:


MORANDI

Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.
Sem outra utilidade ou pertinência
que estar ali, que dar à consciência
um casual pretexto, mas não grafa

o traço humano que ora inflama, abafa
a luz ou que ali beba. Em tudo a ausência:
paredes que, caiadas, dão ciência
que ali ninguém repousa nem se estafa.

Somente é familiar a luz acesa
que põe sobre a toalha posta à a mesa
a sombra que se alarga: o dia quedo

do tempo o passo segue em sua vaga
irrealidade. A tarde já se apaga.
Abraçam-se os objetos: sentem medo.


MORANDI

Una lámpara. Un vaso. Una botella.
Sin más utilidad ni pertinencia
que estar ahí, que dar a la consciencia
un suporte casual. Mas no la huella

del hombre que la enciende o que los usa
para beber: todo há sido blanqueado
o cubierto de cal y nada acusa
abandono, descuido ni cuidado.

Sólo la luz es familiar y escueta
el relieve eficaz: la sombra neta
se alarga em el mante. El día quedo


sigue el paso del tiempo con su vaga
irrealidad. La tarde ya se apaga.
Los objetos se abrazan: tienem miedo.


CÉSAR LEAL, CRÍTICO

A obra crítica de César Leal foi publicada em dois volumes intitulados Dimensões temporais na poesia & outros ensaios (2005). que somam mais de 1.100 páginas. Os textos enfeixados no volume 1, às vezes revistos, contemplam ensaios e estudos antigos já publicados em outros livros como Os cavaleiros de Júpiter e A palavra como forma de ação. São republicados estudos memoráveis sobre autores universais e de há muito consagrados como Dante, Thomas Mann, Gil Vicente, Camões. Entre os ensaios sobre brasileiros, Machado de Assis, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Pena Filho. Este volume mantém uma certa coerência sinalizada pelos autores escolhidos, que representam uma linha de pensamento ao nível da competência poética tanto em seus aspectos clássicos como nas incursões pela modernidade.

Os trabalhos mais novos, às vezes inéditos em livro, que mostram uma produção mais eclética, ficaram para o volume 2, com textos sobre artes plásticas, teoria e história literária e ainda um bloco final com diversos poemas-homenagem dedicados a outros escritores ou a amigos do autor. Podem estar juntos, neste volume 2, poetas tão diferenciados e díspares como Ezra Pound e Weydson Barros Leal, Soares Feitosa e Octavio Paz. O fato relevante é que no âmbito da crítica literária ele fez sempre questão de deixar clara sua opção pela crítica de poesia, desde o aparecimento dos primeiros trabalhos em forma de artigos ou conferências na década de 1950. Sob esse ponto de vista, não se esquivou à problematização dos movimentos e tendências críticas mais importantes do passado e do presente – o new criticism, o estruturalismo, o formalismo russo, o impressionismo, o desconstrucionismo. Os preceitos propalados pelos grupos literários que assinam tais tendências o levaram a servir-se de um amplo acervo teórico para utilização analítica e interpretativa no poema, resultando numa propensão para enfatizar mais o efeito dos elementos expressivos do que comunicativos em poesia.

No ensaio “A crítica literária no Brasil”, registram-se afirmações que apenas corroboram o que pensa a respeito de poesia e técnica expressiva: “Na modernidade, o importante no poema não são os seus materiais, mas a técnica expressiva. Compreender um poema é compreender sua forma, sua estrutura linguística, seus sinais, suas obscuridades, pois a poesia moderna está escrita assim e não como desejariam seus críticos, seus autores, os apreciadores e desapreciadores de sua expressão. Expressão do poeta ou expressão do estilo que eles representam. Temos, ainda, de levar na devida conta aqueles críticos sofisticados aprisionados em seus próprios sistemas, ou os que não admitem modificações no cânon das artes”. Alguns autores imprescindíveis para ele, principalmente ingleses, alemães e norte-americanos, podem encontrar-se hoje um pouco afastados das discussões literárias, sendo, no entanto válidos em setores isolados e em compartimentos específicos de suas obras, a exemplo de T. S. Eliot, Ezra Pound, Dr. Richards, E.R. Curtius, René Wellek, e ainda Hegel e sua estética, que aparece constantemente no sistema crítico de César Leal.

No exercício público da crítica, César Leal especializou-se e revelou idéias próprias a partir de suas reflexões e leituras, assumindo a defesa de uma associação poesia-crítica-ciência, com a vinculação do poeta e do crítico às tendências da física de nossos dias, para enriquecer o instrumental científico-literário e humanista de ambos. E isto, para uma melhor compreensão do universo pós-Newton, com o acréscimo da relatividade e da multidimensionalidade do espaço-tempo. Com o elastecimento do universo, seria ideal que o homem também fosse privilegiado com a abertura da sua própria cabeça, com um pensamento que se distanciasse cada vez mais da barbárie e das práticas reacionárias e retrógradas, adquirindo uma visão voltada para o futuro e para a busca de um mundo melhor. Tal percepção cosmológica se sustenta nas mudanças que não poderiam deixar de acompanhar aquelas transformações científicas e tecnológicas socialmente benéficas e suas contribuições ao desenvolvimento, na atualidade do tempo, de um espírito cosmopolita cultivado e culto, amante da poesia e das artes.

A combinação de erudição com um forte estilo argumentativo, não representaria elemento motivador definitivo para que seus desafetos – a quem chama de “filisteus”, e desautoriza pela carga de intuição que demonstram, embora decline de dizer seus nomes – afirmassem que a crítica e a poesia de César Leal seriam excessivamente intelectualizadas. A leitura de seus textos críticos, de um modo geral, se verifica no âmbito da exposição clara e da expressão compreensível, mesmo que alguns assuntos tragam dificuldades imponderáveis para serem explicados e absorvidos. O ensaio curto pode vir iluminado por uma súbita reflexão ali colocada para deleite, informação e também reflexão do leitor.

Outra qualidade de sua crítica é a sinceridade de propósitos que encampa, sem deixar de apontar as fraquezas de concepção ou realização de autores que ele mesmo admira, mas sem se recusar também ao elogio como reconhecimento da excelência textual. Em muitos momentos, César Leal poderá parecer alguém que detém uma boa fatia do saber literário, contudo sem ser partidário de uma prática exclusivista da retenção de idéias e afirmações, fazendo questão de alardeá-las e divulgá-las onde quer que possa chegar o seu alcance. Esta edição comemorativa dos 80 anos do poeta-crítico, organizada por ele mesmo, tem uma função didática irreprimível, pela vasta informação histórica, pelo desempenho teórico sem vacilações e pela responsabilidade das opiniões e julgamentos emitidos, que apenas promovem a ampliação do conhecimento literário, contemplando desde a época dos clássicos até os dias mais recentes.

“César Leal, crítico”, Continente Multicultural, ano VI, nº 61, jan. 2006.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXII

FERNANDO MONTEIRO & ANNA AKHMÁTOVA:
UM DIÁLOGO POSSÍVEL DA POESIA OCIDENTAL

Pode parecer estranho um poeta escrever todo um poema longo estimulado pela visada instantânea e avassaladora de um rosto feminino numa fotografia antiga. A imagem em preto-e-branco deflagra uma viagem ao fundo da herança poética e cultural planetária acumulada, que passa a envolver referências antigas, presentes e em constante progressão resguardadas no seu refluir greco-romano, medievo e iluminista, e somadas aos oráculos orientais nas vastas paisagens de montanha e deserto. Completando esse veio elastecido em verticalidade poética e desdobramento cultural que atravessa os séculos, do 19 em diante são trazidos a lume e em razoável proporção os rumos e descaminhos reinventados e deslindados pela poesia de amor e de guerra no Ocidente.

Antes deste Vi uma foto de Anna Akhmátova, Fernando Monteiro já carregava em seu fazer literário um êxito comprovado por várias obras de ficção e poesia que ultrapassaram as fronteiras locais. A escrita de livros alternando-se numa fatura estética que contemplava certa diferenciação peculiar entre cada um dos volumes lançados, mesmo pensando-se naqueles de prosa seriada. Na elaboração de poesia, cada texto mostrando-se formalmente desvinculado do anterior, o autor não se distanciando da inteireza de seu estilo, permitindo que traços diccionais e itens de linguagem se tornassem reconhecíveis em sua maneira adotada desde os começos.

Para citar sem consulta, lembre-se aqui esse percurso poético a partir de Memória do mar sublevado, sua estreia em 1973, apresentando um canto solene repleto de ancestralidade e dinastia faraônica. Um balanço enviesado de vida pessoal foi Leilão sem pena, publicado na voga pernambucana da Pirata, num tempo de resistência política, culto entusiasmado ao cinema e incursão pelas artes plásticas. Monteiro vai passar por uma experiência de especial inquirição metafísica em A interrogação dos dias. Sem perder de vista o impulso e o empenho empregados no ritmo ágil, mas que às vezes se arrasta, transparente e obscuro ao mesmo tempo, temperado fortemente pelas passagens de melancolia e depressão e pelas tiradas da sensibilidade irônica. E chegará, quem sabe se em simultaneidade, à exatidão centrada na consecução milimétrica de vocábulos, versos e estrofes em cadência matematicamente obsessiva com Ecométrica.

Em Vi uma foto de Anna Akhmátova uma solidariedade surda e rebelada vasculha o lastro histórico de guerras e revoluções repisadas de sangue dos inícios do século 20, trazendo a lume as numerosas e insanas perseguições que sofreram poetas e cidadãos pelos regimes ditatoriais que se locupletavam de sua própria indiscriminação ideológica. A poetisa Anna Akhmátova encontrava-se no rol de censura e cerceamento promovidos pelo Estado russo, que deixou marcas inapagáveis de violência. Os burocratas e dirigentes russos imaginavam que, para a manutenção do regime comunista, seria necessário alinhar ou expurgar os dissidentes, torturando e fuzilando intelectuais, artistas e poetas. Sendo um texto realizado a contrapelo de toda e qualquer tirania, descarta as viseiras da genuflexão política e revela uma faceta social permeada pela constatação corrente, porém sem a amplitude dos resultados práticos, de que qualquer atentado à liberdade do homem sufoca-o e termina por eliminá-lo. Uma opressão sustentada em atos abjetos e excessos de violência difíceis de suportar, faz com que se perca temporalmente a inclinação humana para os desvelos da convivência comum cotidiana e pacífica, na qual, em boa medida, podem ser buscados elos vitais do artístico e do criativo.

A cerveja da Boa Vista não desemboca no chope da Guararapes, e a presença de poetas pernambucanos se afirma indiretamente (Carlos Pena, Bandeira, João Cabral). A inclusão en passant de outros poetas reconhecidos como de alcance nacional reabre velhos problemas, tanto pela absorção questionadora de sentido e matéria abordados, quanto pela negação estética e conceitual que transita nas vias marginais do confronto temático e do modo de expressão de uma época (Drummond e Mário de Andrade). Aqui, na condição interna de leitor crítico, o poeta não resiste e associa sua própria experiência com o poético à experiência desses poetas que se encarregaram de transformar, ao longo de seu tempo, vida em poesia. Há uma transplantação de culturas poéticas em choque para instantes paródicos, miméticos e declinantes únicos, na tentativa de absorção do poema como um todo, afastada do unilateral e aproximada dos sentidos não vistos a olho desprevenido.

Este poema dedicado a Anna Akhmátova, estabelece um diálogo com a poetisa e esmiúça relações pessoais existentes talvez apenas no plano do imaginário da criação. A transferência empreendida flagra sexualidades latentes nas tramas veladas das funções solitárias e desejos indizíveis. Faz aflorar os meandros do prazer algo irracional que consome a sucessão de imagens profusas e apaga os rasgos detalhistas de corpos em solidão ou conjunção carnal, com sua atração irrefreável pelo impossível, o mórbido e o proibido. Morto o corpo, distanciada a alma, os atos se enfronham no presente da imaginação movida pela tremenda insatisfação, compulsão e efemeridade que impulsionam e dominam os jogos sensuais. E Anna vai assumir o papel de Mãe Maior da Poesia, irmã e filha, deusa e mulher, musa e amante.

Fernando Monteiro utiliza largamente esquemas e procedimentos expressivos como associações imagéticas em encadeamentos, enjambements e no palavra-puxa-palavra. Com o sabor diferencial de quem tem fôlego suficiente para manter um ritmo acelerado e eficaz na confecção de recortes, intrusões e incisões no corpo do poema, procura evitar o derramamento baboso e as celulites da fala. Por isso, sua dicção traz uma espécie de contenção cerebral inevitável por ser o autor quem é, por ser quem jamais escondeu sua erudição nem os propósitos de fazer alta literatura.

Neste poema, existem evidências que outros analistas podem facilmente identificar, como os ecos percussivos da “terra arrasada” de Eliot que remetem aos metafísicos ingleses e simbolistas franceses. A visão baudelaireana marginal das ruas que lembram Clarice Lispector e Anna Akhmátova, ambas ucranianas, uma tendo vivido no Recife e a outra fisgada no expressivo da fotografia interna a uma antologia de poesia russa comprada num sebo naquela tarde de setembro de 2001. A aquisição do livro suscita a questão de trocá-lo por cervejas em promoção nos botequins das imediações centrais da cidade, considerando-se a oportunidade de absorver o calor tropical em goles gelados e observando a surpresa indiferente da fauna humana que transita pelos becos, ruelas e praças.

Vi uma foto de Anna Akhmátova não foge da contemplação performática que reconcilia o poeta com o espírito pós-moderno e a alma cósmica. São desencavadas vivências cotidianas e situações particulares somente conhecidas, no andamento da construção do poema, pelo próprio poeta. Paisagens à aparência inalcançáveis e pouco acessíveis a quem está de fora, porém pressentidas em pequenos flashes, que ora se perdem no instante, ora são captadas pela sutilidade da poesia, mesmo que em regime de incompletude. E mesmo que seja assim, o poema continua a ofertar um conjunto de imagens em movimento alternado entre o veloz e o estático. E fornece também uma nova cinética e um novo dinamismo ao olhar que enxerga poesia na escuridão mais cerrada, cuja desfocação persiste sobretudo no encobrimento de estágios sensíveis da fruição humana optante pela não-destruição da vida no mundo.


A MULHER FLUTUANTE

Estavam todos completamente sem ação, todos que ali transitavam naquela hora da manhã sob um sol impiedoso de outubro. Homens e mulheres sem idade e sem rosto, mudos e perplexos ante a cena de transgressão milagrosa que se desenrolava na rua central da cidade. Ônibus, carros de aluguel e de passeio, motos e bicicletas entravam em rota de colisão com seus condutores acionando os freios para melhor ver a mulher. No mesmo passo de perturbação e curiosidade, a gente das lojas, bancas, fiteiros e botequins estancava a venda de roupas, sapatos, sonhos lotéricos, miudezas da ganga pirata, cachaça e cigarros.

Ela começou por acariciar o vestido que parecia feito da conjunção de pedaços de pele de tomate intensamente plástico e vermelho com farelos de carne de cenoura de um amarelo queimado. Contrastando com os raios ofuscantes do sol, o moreno saliente e destacado das coxas, do rosto e dos braços que iniciavam um movimento leve e sutil em direção ao secreto de auréolas e bicos, de pelos agressivos e imantados no seu absurdo brilho e negror, instigando promessas de desvelar e encontrar na caverna aventurosa e sugestiva de paisagens e recantos novos a safira preciosa e ansiada de um mundo cósmico inaugural.

Ela caminhava uns poucos passos e depois parava para contemplar o corpo que era seu pertencimento e danação narcisista, como se não houvesse mais ninguém do lado esquerdo da rua. Não andava, pois seu caminhar era um bailado abençoado por todos os deuses e entidades impossíveis e inimagináveis ou que porventura tivessem existido. Nela tudo era rubro e amarelo, as unhas e lábios flagrados em esmalte e batom, os botões redondos de osso do vestido agora lascivamente aberto, o magnífico corpo flutuante e a presença radiosa, os adereços que ela não precisava para compor sua beleza.

Era um caminhar preguiçoso que descobria quadris ousados e divididos em duas partes simétricas e absolutamente distintas, que encarnavam um complemento de loucura e prazer circulante para a órbita voyeurista no feitio assemelhado da rua. Abriam-se passagens de magia ancestral para um presente demasiado feroz e cruel, onde se entranhavam as duas vertentes oscilando entre o escuro e a luminosidade, ensaiando um mergulho definitivo e fatídico para outras veredas desconhecidas e inusitadas.

O trânsito parado, os pedestres acotovelando-se, a pulso dando o espaço necessário para melhor apreciação do espetáculo da mulher em se livrar de sua nudez parcializada e consentida, evoluindo para uma nudez maior, mais livre e sexualizada. Nela nada poderia agredir quem quer que fosse, naquele instante em que era como um turbilhão de carne que revirava o olhar mendicante dos homens e indignava a visada clínica das mulheres.

Ela era a mulher na inteireza de sua nudez, na simbolização secular do pecado original. E todos, com especial fervor os homens, eram adões que talvez não merecessem doar àquela divindade sensual e carnal os ossos da costela não mais edênica. Porque já estavam impregnados da fuligem urbana da cidade destruída pela lama e sujeira, dos dias e das noites reinventados em carência irremissível por uma imaginação paralisada, debilitada e excessivamente inchada das coisas artificiais.


O ENTREVERO DE LAMPIÃO COM MEIA-NOITE
OU O LIMITE DA TENSÃO NA CAATINGA

I

Sem que naquele instante
de tensão atingindo o limite
no bando de cangaceiros

ninguém tivesse a ousadia
de se pronunciar ou mover-se
um passo ínfimo que fosse

e então sorrateiro ou explícito
mas nunca desavisado
pensasse em intervir ou meter-se

em ingresia tão grossa e certeira
ao intentar demonstrar ou fazer
um gesto qualquer de boca

ou ligeiro usar ao acaso
as mãos e os dedos nervosos
de agilidade feroz e treinada

que nem mesmo no lazer ou repouso
prevenidos não se separavam
do gatilho e da lâmina das armas

para se postar de um lado da briga
e firmar posição ostensiva
de lealdade-defesa-amizade.

II

Depois do ataque a Souza
naquele ano de vinte e quatro
Meia-Noite discutiu feio
com dois dos irmãos Ferreira.

Levino e Antônio tramaram
naquele Agosto agourento
uma enviesada partilha
dos restos do roubo e pilhagem.

III

A desavença está feita
e é preciso a interferência
urgente e destemerosa

do chefe dos cangaceiros:
há uma situação radical
de decisão e bravura,

irrepetível e único
eis um momento total
de ferocidade e loucura.

IV

Definidor é agora o confronto
para a liderança de Lampião
desacatado por Meia-Noite.

Naqueles sertões bravios
o negro desaforado
a vivente nenhum respeitava.

E a autoridade legítima
de Virgulino famoso e cruel
não mais reconhecia ou atestava.

Naquela hora incendida de ira
estavam em xeque as vidas
de homens sem medo da sina.

Na caatinga o vento escondia-se,
as nuvens ficaram paradas no ar
e o Sol recoberto de cinzas.

Lampião está calmo e frio
como o seu punhal preferido
sempre sedento por sangue.

Por ora não pensa em fama,
ouro e dinheiro esquece,
quer apenas resolver o conflito

mesmo sem vocação de pacífico,
pois no seu íntimo admira
a valentia do ousado bandido.

V

Meia-Noite desafia o bando
gritando em alto e bom som
que na cabroeira canalha
ninguém ali é tão macho
para diretamente enfrentá-lo
ou apreender suas armas.

Maria Bonita ainda não conta.
Não apitam Jararaca ou Sabino.
Lampião está lúcido e severo,
porém concentrado e em vigília,
relegando até a vingança paterna
a um plano passado e antigo.

Sabe que Meia-Noite é capaz
de impiedosamente matá-lo.
Do mesmo modo que o negro
tem também Lampião seu destino
na palma das mãos ou nos dedos,
nos desfechos de punhal ou de rifle.

Um irmão morto não será importante
no desafio que o instante lhe impõe.
E contra o protesto mudo do bando
libera o homem sem um arranhão.

In: O cangaço na poesia brasileira: (uma antologia). Seleção e prefácio de Carlos Newton Júnior. São Paulo: Escrituras Editora, 2009.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXI

AS CIDADES E A CULTURA

É um fato consumado que as capitais brasileiras se movimentam com grande avidez cultural, nos campos extensivos da arte e da literatura, nestes inícios do século 21. Ninguém pode negar que, em cada uma delas, há a insurgência de um surto cultural que jamais se revela em mero continuísmo de outras décadas e gerações, em espúria macaqueação de outras regiões e países. Mas somente quem pode absorver o melhor de gerações anteriores, saberá os rumos a tomar quanto à sua própria geração. Porque os artistas, intelectuais e escritores buscam caminhos que, se não trazem nada de extraordinário no campo da inovação e da inventividade, não se caracterizam apenas pela repetição e esvaziamento. No meio destes encontros, aparições e performances organizadas ou caóticas, há que separar a palha verde do milho, o manguito mofado e travoso da manga-rosa saudável e restauradora.

Em várias manifestações artísticas e culturais existe gente se destacando. Não será preciso alinhar Brasil afora tantos nomes das artes plásticas, dança, cinema, teatro, música, literatura. Todos os dias aparecem caras novas em jornais de grande circulação. Contudo, o hábito de ler jornal diariamente está cada vez mais perdendo espaço para uma visada rápida nas manchetes, para a leitura superficial e sem compromisso de um ou outro artigo. Está se tornando uma prática maciça acompanhar o que acontece localmente ou no planeta pela Internet. Gente de empresas privadas e públicas produzindo eventos de grande, média ou pequena dimensão, blogs e sites que proliferam geometricamente, mídias mais atuais e em voga que se popularizam do dia para a noite. O acesso do mundo se faz ao alcance da mão, desde as teclas de um desktop ou de um notebook. A característica geral e em vias de uniformização dos seres humanos do pós-moderno traz de volta o individualismo e a exclusividade dos ambientes virtuais em casa, no lazer, no trabalho, na escola, em todas as extensões setorizadas da vida social.

Rasgos da cultura rural convivendo com o mais ferrenho urbanismo, com espaço para todos que quiserem trabalhar e ousar. Forrozeiros, declamadores e violeiros bem aceitos por plateias ecléticas, abrangendo desde o pesquisador universitário dos núcleos acadêmicos fechados, passando pelo funcionário público sacramentado, pelos empreendedores de opções financistas menos ambiciosas, até chegar aos jovens iconoclastas em formação. No Recife há um pessoal tão ousado que faz de toda a cultura uma festa só. São escoceses deslocados em suas saias tropicais, meninas sem senso de humor de longos coturnos e cabelos curtíssimos. Os maduros, idosos e senhoras longevas abrigam-se em academias e sociedades culturais, sem perder o vigor e a alegria de continuar burguesamente produzindo, expondo e publicando.

Neste torvelinho de vaidades em escala estática e sem ascensão visível, uma interrogação saltita no ar, pois ela deseja encontrar o artista: o poeta, o ficcionista, o pintor, o ensaísta, o cineasta, o fotógrafo. O poeta que não acumule versos no papel ou na tela simplesmente, desarrazoado e sem o senso secreto do ritmo. O ficcionista que, dentro de seu remover-se ocidental e cósmico, mostre a que veio, e se poderá ser partilhado por tantas pessoas que a vista não alcance. O pintor que não saiba apenas misturar cores e tintas, e sim transformá-las em objetos de desejo, prazer e conhecimento. O ensaísta que, na ambiência de sua especialização, mostre-se desabrido e aberto às múltiplas manifestações da arte e da cultura. O cineasta e o fotógrafo que vejam mais do que a realidade chã logra propiciar, libertos dos naturalismos e impressionismos que teimam em espetacularmente ressuscitar.

Um objeto para se brincar como outro qualquer, e de preferência, para aqueles amigos mais à frente do tempo, é a crítica cultural multifacetada em crítica sorriso, crítica coluna social, crítica acrítica. A matriz larga e cilíndrica da crítica se transforma em coisa tênue, barato, curtição para estes simulacros de analistas da própria sombra e do umbigo alheio. Abastecem e confortam uns poucos egos, a retirar de suas pretensas obras e trabalhos vistos de passagem, um salto qualitativo que tais supostas obras não comportam nem podem gerar.

É impossível negar, entretanto, ainda quando se espalham vertiginosamente tribos, confrarias e guetos, que as grandes cidades não cochilam quando se trata de cultura. A maioria dos agentes culturais não tem votos, a não ser o próprio, embora quando unidos interfiram nos orçamentos disponíveis. Posam às vezes de lideranças políticas e sujeitos politizados, cuja popularidade não resiste à primeira sabatina, enquete ou provocação pública. É preciso reconhecer que, nos cargos culturais onde corre dinheiro, não está descartado um político profissional comandando em surdina. Verbas vs. votos. E vice-versa. É o braço amigo quem aprova projetos, oficinas, shows, publicações. Que é o mesmo braço inimigo e desconhecedor da cultura, a promover nulidades. Ninguém pode mais do que estes braços todos comprimidos e juntos em torno dos fogos ambíguos e utilitários.

Não basta somente liberar verbas para pessoas ou entidades. Tem de haver algo mais que atinja a população carente de acertos básicos. Com trabalhos pontuais que precisam do mínimo de dinheiro público. Eventos que à vezes se tornam mais importantes para uma cidade do que as costumeiras apresentações diversificadas em festivais, shows, oficinas, congressos, palestras. Um trabalho subterrâneo e sem alarde midiático, de poesia, fala e teatro popular, a exemplo do de Ariano Suassuna. Composto de aulas que param e mobilizam as numerosas cidades aonde chegam, mesmo sendo a divulgação restrita. Os resultados mostram-se avassaladores, pois exibem momentos e funções populares de alegria autêntica, conscientização artística e interação criativa.

Quando se coloca um político profissional num cargo de gestão cultural, o desastre é certo e esperado. Ele vai levar consigo amigos, correligionários e gente auto-indicada ou indicada por pessoas de suas relações. Daí ao nepotismo disfarçado em obscuras genealogias ramificadas e à ausência de estratégias e ações é um passo. Se o gestor, de outra parte, é um fazedor de cultura, poderá ter bom trânsito entre fazedores de cultura, mas, quase sempre, se mostrará sofrível administrador e político. Um terceiro caso é o do gestor que é apenas técnico na área envolvida, que poderá ser bom administrador, contudo não gozará de transitação política nem entre quem produz cultura.

Para o mandatário de um Estado ou de uma cidade, esta é uma equação difícil de ser resolvida. No seu íntimo, preferiam talvez nomear alguém da política, por motivos e injunções óbvias. Podem ceder à tentação de indicar um nome proposto em amizade. Ou pela mera competência técnica. O desejável seria, para os cargos da cultura, nomes que aliassem, além de compromisso cultural já comprovado, as três condições referidas: a política, a técnica e a cultural. Algo espinhoso de se encontrar nos dias de hoje, pois todo mundo tem a necessidade de especializar-se em alguma área ou matéria, como consequência dos avanços da globalização e da competitividade.


QUANDO LUCILA DESCOBRIU O AZUL DA POESIA

Chega um momento na vida de todo artista verdadeiramente criador em que aflora a urgência de uma guinada nos rumos e moldes de sua criação. Como algo que pode emergir na forma de ruptura de atitudes estéticas e valores humanos até então assumidos e praticados, gerada pela forte insatisfação com o já realizado. Na outra ponta do novelo, oscila o barco sóbrio e conformista de quem irreversivelmente se ajustou às injunções e exigências diárias de um questionável senso comum, que não ensaia nenhum passo fora das rotas e trilhos de antemão concebidos.

Para a poetisa Lucila Nogueira, esse instante de um novo caminhar pelo campo extenso, desconcertante e quase sempre desconfortável da poesia, se manifesta com o livro Desespero blue. É um caminho que se antecipa em outros textos, como no Livro do desencanto, quando ela se posicionava quanto a preferências artísticas e existenciais, ao escrever “Estou mais para Elis e Janis Joplin/ Florbela Espanca, eu sou Virginia Wolf” ou “tudo que em mim pareça comedido/ não passa de uma máscara de vidro”. Mesmo no livro da estreia em 1979, Almenara, essa compulsão para a liberação desejada e a frustração de não consegui-la, faz-se presente no fogo obscuro da alma “que a abismos se sabe condenada”.

Desespero blue tem sua referência estrutural aproximada a Imilce (terceiro volume da tetralogia ibérica, completada em 2001 com Amaya) pelo uso de versos entrecruzados em formas espacializadas, que propiciam mais de um modo e sentido de leitura, numa disposição visual que imprime grande flexibilidade aos poemas. A diferença de tratamento da matéria temática é flagrante: o modo classicizante e dramático de Imilce transplanta-se agora para os labirintos urbanos dos encontros noturnos e transgressivos. A impulsão feminina que não quer se deixar aprisionar pela incidência do experimentado, e por isso se desveste e despoja de todo o inquietantemente recente, incluindo-se aí a infância.

Em Desespero blue insurge-se uma outra Lucila Nogueira, conforme ela mesma afirma num verso, “essa outra que descobri carregar dentro de mim”. Os poemas estão dedicados a pessoas próximas, como espelhos de uma temporalidade contemporânea fragmentária, numa partilha que contempla inicialmente os amigos e posteriormente se estende ao mundo circundante sinalizado por “todos e qualquer um” (caso de dois poemas fortíssimos, “Desespero blue” e “Feminina / Masculina”).

A dicção escolhida ultrapassa certa solidão romantizada e suportável com esforço e sacrifício, ao cantar a ausência de algo inominável e interdito: “sei que a palavra não cessa/ a dor da solidão presa no corpo/ mas sei que escrever ajuda/ porque todo silêncio é perigoso”. E também ao demitir e expor o decoro que refreou por muito tempo os sentimentos mais profundos e subliminares do lírico, no embate consigo mesma e com o outro, tão próximo quanto irremediavelmente distanciado: “porque você nada sabe da insônia/ e existe uma parte de mim onde ninguém chegou ainda/ e o desespero sempre faz com que a gente precise acreditar em tudo/ estou ficando cada vez mais com medo desse sentimento súbito”.

Entre os malditos que elege em “Desdizeres”, o delirante Antonin Artaud, que suportou a França surrealista em estado permanente de loucura, “o Torturado [que] tornou-se para todos o Reconhecido”; o velho bêbado e depravado Charles Bukowski, a praguejar no poema de Lucila, dizendo aos quatro ventos da América que “a vida gira sobre um eixo apodrecido”; a delicada e deprimida Sylvia Plath, falando em tom suave e suicida para si mesma que “morrer é uma arte, como tudo o mais/ isso eu sei fazer como ninguém”.

O conjunto dos versos deste livro vem à tona com vigor, sedução e ironia, preservando, contudo, o sublime daquela voz singularizada do início. São as palavras que seguem o poeta aonde quer que ele vá, com seu léxico estigmatizado pela passagem dos dias e na retenção disponível para uso individual e intransferível. Desse ponto de vista, Lucila não se afasta radicalmente de uma fala que a transformou, em duas dezenas de livros, na poetisa de obra reconhecida e solicitada que é, utilizando-se de formas fixas, com predileção especial pelas estrofes em quadras. Também jamais renegou o sentimento de grupo (que não configura alinhamento estético), e que, no entanto, definiu sua ligação à geração 65 de Pernambuco. Geração em que se alojaram poetas os mais diversos, a maioria tendo buscado a consecução de estilo próprio no mar demasiadamente caótico de confusões, impasses, engodos e disfunções da poesia contemporânea brasileira.

Desespero blue é livro para ser curtido ao som de um B. B. King e um Eric Clapton juntos, destilando o sabor instigante de um imaginário audacioso e ainda inalcançado. Neste embalo de vozes e cordas endiabradas, a fruição violenta de suas canções e notas logra perpassar com irreverência ímpar o ar de um tempo indiferente e amorfo, banalizado e incompleto. Onde se processa também a absorção de tais poemas sem mais contemplação passiva nem piedade atávica. Para que, na perspectiva única desse instante vivido pelo ouvinte-leitor, cheguem à superfície os meandros perigosos e as veredas subterrâneas de um mundo que se realiza no transitório de sua nudez e linguagem.

In: Suplemento Pernambuco, Recife, nº 43, set. 2009.


RUBEM BRAGA NO RECIFE

Em Gilberto Freyre de A a Z, dicionário elaborado por Edson Nery da Fonseca, o verbete “Prisões”, faz referência a uma crônica de Rubem Braga, intitulada Recordações pernambucanas, que conta como Freyre foi preso pela primeira vez em 1935, da qual recorta-se o trecho seguinte, que é parte integrante do artigo “Gilberto Freyre de A a Z”, deste resenhador, publicado na Continente Multicultural, em abril de 2003: “Gilberto naquele tempo andava pelos 35 anos, já publicara Casa-Grande & Senzala e estava acabando de escrever Sobrados e Mucambos, e era solteiro. E eu também era, o Cícero Dias também era. Assim fomos os três, num trenzinho da Great Western, à estação de Prazeres para subir o morro e participar da festa de Nossa Senhora, naquela igreja que domina as colinas de Guararapes, onde brasileiros e holandeses se guerrearam. Usava-se ir às antigas trincheiras apanhar folhas para benzer, pois as plantas dali tinham sido regadas pelo sangue dos heróis. E nas trincheiras aconteciam casos de amor. A certa altura Gilberto sumiu e, depois de muito procurá-lo, Cícero Dias e eu fomos até a estação: lá estava ele preso por um sargento, pois atentara contra a o pudor publico fazendo amor com uma jovem mulata no capim de uma trincheira. Custou muita conversa e algum dinheiro, mas libertamos o sociólogo. Coisa que convém referir para que não seja esquecida em sua biografia. Nestes seus maravilhosos 82 anos de idade. No entanto, Edson Nery põe em dúvida a veracidade do relato, ao arrematar que Gilberto Freyre disse a seu filho Fernando Freyre que tal prisão nunca ocorreu”.

Seja como for, isto serve como um dos registros da presença de Rubem Braga no Recife, de maio a setembro de 1935. Outras referências, textos e documentos existem, como a sua extensa biografia Um cigano fazendeiro do ar (São Paulo, Globo, 2007, 610 p.), que reflete esse e outros tempos. Escrita pelo também capixaba Marco Antonio de Carvalho (1950-2007), levanta com riqueza detalhista o longo percurso vivencial e nômade de Braga, até fixar-se no Rio de Janeiro. Um capítulo inteiro, “1935, Recife: Folha do Povo” é dedicado à passagem do cronista pelo Recife.

Aos 22 anos, Rubem Braga assume posições firmes no cenário político e cultural brasileiro. É antigetulista e combate um alto representante do catolicismo conservador, o crítico literário Alceu Amoroso Lima. Não poupa os poetas Murilo Mendes e Jorge de Lima, que haviam lançado naquele ano de 1935 Tempo e eternidade, livro de poesia voltada para os preceitos cristãos. E não compactua com o integralismo de Plínio Salgado nem é comunista de carteirinha, embora defenda ideias e ações à esquerda, ao fazer parte de grupos paralelos da ALN – Aliança Libertadora Nacional, cujo presidente de honra era Luis Carlos Prestes.

Levado por António de Alcântara Machado, trabalha em O Jornal, dos Diários Associados, mas sua relação com Assis Chateaubriand é difícil, precária, instável. Alceu Amoroso Lima exige a demissão de Braga, tendo como causa um artigo do cronista em que este atacara a Igreja Católica. Esta crise culmina com a vinda de Braga ao Recife. Escreve Marco Antonio de Carvalho: “Dario de Almeida Magalhães propõe a Rubem que vá para o Recife e se junte à redação do Diário de Pernambuco, também dos Diários Associados, que já publicava suas crônicas; ele agradeceu e saiu em definitivo das proximidades de Chateaubriand, partindo para Pernambuco, de barco, seu meio de transporte preferido, entre o vento, o mar, o céu”.

Convive com os intelectuais e boêmios locais, frequenta a zona do meretrício e escreve crônicas que se popularizam em todo o Brasil. Faz amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Diégues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares e Gilberto Freyre, entre outros. Carvalho contabiliza 25 crônicas escritas no Recife para a Folha do Povo, jornal da ALN nordestina editado por Braga. Depois de três prisões, deixa a cidade em 13 de setembro, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro.


O POETA AOS CINQUENTA ANOS

1

São cinco décadas

que pareceram

mais cinco séculos


a idade dele

no ano invicto

de dois mil e sete


poeta em trânsito

a remover-se

nesta cidade


mauriciana

de mar e plano

que é o Recife


sempre atento

ao urbano

de suas tribos


nunca esquecido

da terra-matriz

que foi Sertânia


dos arredores

de sítio e mata

da sua infância


em Cacimbinha

no Rio da Barra

ou Jacuzinho.

2

Percurso estreito

este que fez

do nascimento

até aqui:


da clara infância

à juventude

mais malograda

que desregrada,


de tantos nadas

e tantos nãos

que enfrentou

sem se dobrar,


veredas falsas

e traiçoeiras

que desvendou

sem vacilar,


abraços frouxos

que devolveu

sem comoção

nem confiar.

3

Caminho raso

e enviesado

de nordestino

tímido e ambíguo,

pretenso e falho

como escritor.


Caminho obscuro

de estudante

desnorteado

e presunçoso,

e assim frustrado

como doutor.

4

Em cinco décadas

que se estenderam

quais cinco séculos

pagou bem caro

sua performance

desintegrada

em estilhaços

da agonia

louca e diária,

sem calmaria

mas necessária

da vida prática;


pagou com juros

sua poética

fragmentada

entre a escrita

precisa e rara

que concebeu

e o resultado

tacanho e parco

dessa poesia

que cometeu.

domingo, 11 de abril de 2010

CINCO BALAS CONTRA A AMÉRICA

Com o aparecimento de Cinco balas contra a América, do jornalista e escritor cabo-verdiano Jorge Araújo (Editora 34, São Paulo, 2009), a literatura infanto-juvenil recebe uma forte e diferenciada contribuição no sentido próprio do seu fazer. Produz-se um sério abalo nas suas estruturas convencionais, no modo arraigado e repetitivo da concepção, ultrapassando as fronteiras e as missões previsíveis e às vezes simplórias de apenas entreter ou edificar. Ao invés da orientação autoral explícita ou subliminar para temáticas que ativem vendagens contabilizadas em centenas de milhares de edições, promove-se aqui um espaço amplificado de reflexão, ação e animação para os jovens leitores, que subverte as ambiências e enredos comumente encontrados no gênero. A edição, didática e de venda proibida, faz parte de um programa do ministério da Educação, o que garante a sua distribuição na rede oficial de ensino. As ilustrações, de traços magros e avantajados, expressivos em sua economia ambígua, ficaram a cargo do angolano Pedro Sousa Pereira.

A motivação psicológica dos quatro personagens adolescentes aprofunda o senso da discussão em torno à sua origem e formação, os embates da sua prática de vida diária, onde afloram as qualidades e defeitos inerentes ao humano, inclusive a coragem e o medo, que serão testados na aventura que viverão. O Comandante Zero, personagem disfarçado e misterioso, é temperado na mistura de velho boêmio mulherengo e sátiro, emigrante e nativo que somente com o tempo revelará a que veio, na sua faceta verdadeira de militante revolucionário calejado. Viverá ainda o bastante para absorver a vitória merecida pela luta contra os colonialismos europeus, e neste caso, mais especificamente português.

É o Comandante quem deflagrará a trama e a ação inicial do livro: “Foi Zapata quem recebeu o revólver. Ficou deslumbrado, tão deslumbrado que os seus olhos de pólvora seca dispararam estrelas. Mas logo, logo, tratou de domesticar a euforia, inspirou sentido de autoridade, encheu o peito de um ar de falsa tranquilidade. Tinha de estar concentrado, a missão era de grande responsabilidade”. Com Zapata, cujo nome verdadeiro era Salazar, encontravam-se Aristóteles, seu escudeiro subserviente, e os amigos inseparáveis Bob e Frederico, que estavam na aventura mais à procura de diversão, embora não espantassem a percepção e a práxis dos ideais revolucionários em voga na cidade cabo-verdiana do Mindelo e nas circunvizinhanças guineenses.

Aos quatro “miúdos” será confiada a missão de ficar de guarda, numa praia da ilha de São Vicente, no arquipélago de Cabo Verde, prevendo a eventual aparição e invasão de tropas norte-americanas, tendo como armamento apenas um revólver com cinco balas. Cada capítulo, acompanhando o rumo dos acontecimentos, será intitulado Bala 1, 2, 3, 4 e 5, Bala Perdida e Bala Final. Questões históricas e ideológicas desfilarão com verdade e leveza, mas sem denuncismo, planfetarismo ou propaganda dirigida. Em breves referências, não serão escondidos os papéis dos principais líderes das guerras pela Independência e das revoluções comunistas ocidentais e orientais.

Talvez fosse muito cedo para assumir missão de adulto, mas a fronteira entre duas idades mostrava-se tênue e ansiosamente aguardada sua quebra. Enquanto isso, Bob dedilhava seu violão, Zapata exercia sua inclinação de chefe desastrado, Frederico bebia da mesma aguardente e partilhava histórias de mulheres com Bob, e Aristóteles se guiava pelo mesmo passo inseguro e vacilante de Zapata. O sentimento de grupo mantinha-se mesmo assim, entre a tensão e o companheirismo, na discórdia e na desavença, na alegria de zombar do outro, tendo como cerne motivador a conquista de ser visto e distinguido pelo Partido. A necessidade da guerra justificava parcialmente o alinhamento da juventude guineense e cabo-verdiana aos eventos da libertação do jugo colonial. Os garotos, no entanto, não poderiam ser reprimidos ou se afastar demasiadamente de suas vivências pessoais na ilha, onde sempre haveria lugares como o cinema Éden-Park para os encontros jovens, despojados e aventureiros.

A fragilidade e o egoísmo de cada um vai se manifestar durante a noite que passarão, forçosamente, em vigília. Além disso, as ambições políticas serão desnudadas pela falta de preparo e maturidade. Porque sucumbem ao menor sinal de presença humana ou evento marinho. Tudo é motivo para a proximidade e viscosidade do medo: “Os quatro não mais saíram da tenda durante o resto da noite. Ficaram encostados uns aos outros, abraçando-se uns aos outros, assim sempre tinham a sensação de estar mais seguros. Mais protegidos. A escuridão continua a fazer das suas, a pregar-lhes partidas. Foi uma noite em branco, uma noite sem sono. Nunca no Mindelo os espíritos andaram tão à solta como naquela noite. Deveria estar a preparar-se uma revolução no céu”.

Quando a manhã chega sobre a praia, a euforia desfaz ressentimentos, provoca abraços e reconciliações num momento único na vida dos quatro militantes inseguros e sem experiência ou batismo de luta, sob a guarda da família, voltados, sem que por vezes o soubessem, para o que caracterizava as coisas de sua própria fase. As cinco balas, fornecidas pelo velho Comandante, serão disparadas por Zapata para comemorar a vitória da ultrapassagem da noite. Transformadas, surpreendentemente, como numa roleta russa não programada, em seis, por um artifício de Zero, um dos bravos “pioneiros” militantes, por pouco, não é atingido fatidicamente: “Desde que a sexta bala tinha sido disparada, desde que a bala adormecida na câmara ressuscitara, desde que Frederico escapara como que por milagre à execução sumária, que estavam em estado de choque. De todos, Zapata era sem dúvida o que estava em pior estado, recuperara o espírito, é verdade, mas não o juízo. Não dizia coisa com coisa, tinha esquecido todo o palavreado revolucionário”. Nenhum inimigo colonialista ou imperialista tinha surgido nas horas da vigília, mas Bob foi o único que testemunhou, após o sexto tiro, em meio à aflição dos outros e à sua própria, um elemento estranho na praia de São Pedro: “O porta-aviões navegou calmamente em direção aos mares do Sul, foi engolido pela contraluz. Bob fez de tudo para chamar a atenção dos restantes colegas de vigilância. Correu, gritou, esperneou, gesticulou. Desesperou. Tudo em vão. Ficou guardião de um segredo que era muito maior do que ele. De um segredo que nunca poderia contar, partilhar, porque nunca ninguém iria acreditar”.

As fórmulas infanto-juvenis batidas e estanques, engessadas e utilizadas à exaustão por editores ávidos e escrevinhadores midiáticos, declinando quase sempre da qualidade estética, foram rejeitadas pela mão de Jorge Araújo, cujo texto assume parâmetros de boa literatura. Auxiliando a reflexão e o questionamento de quem mais precisa disso, daqueles que estão de passagem para a vida adulta, a singularidade desse livro é fruto da sua inteireza em não esconder nem escamotear o cerne polêmico que o engendra e configura. Falar de pessoas entre 14 e 16 anos de idade, envolvidas nos meandros políticos de independência e colonialismo, dominação e liberdade, não é tarefa fácil, exigindo tato e bom-humor, responsabilidade ideológica e traquejo vivencial para que sejam evitados os tons do panfletário e do propagandístico.


UM CONTO MINIMALISTA DE OSMAN LINS

Exercício de imaginação é um conto de dimensão minimalista que o escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978) deixou inédito em livro. Tematiza preferencialmente a infância, embora essa motivação ficcional lúdica e hedonista que o lastreia aflore-se permeada de um alto teor de sofisticação linguística e de inventividade rítmico-sonora:

"O pássaro, a menina, a bola e o gato. O gato, a bola, a menina e o pássaro. O pássaro a bola o gato a menina. A menila o pasto a bona e o gásaro. A Pastomenila e o Bonagásaro.
Encontraram-se um dia, numa encruzilhada, a Pastomenila e o Bonagásaro. A Pastomenila: corpo de penas, asas de palheta, rabo curto de seda e longos dentes de vidro; o Bonagásaro talvez fosse feito de esponja (diminuía de volume, quando o apertavam), falava aos berros através do bico muito comprido e rubro, andava sem que ninguém lhe ouvisse as pisadas e saltava para o alto, com facilidade, acionado por molas, quando contrariado.
A Pastomenila abriu as asas; o Bonagásaro pôs-se a andar em silêncio. Soprou entre eles um vento brando e morno.
– O Verão está quase chegando – berrou o Bonagásaro.
– O Inverno também – disse a Pastomenila, falando devagar, para que as palavras fizessem tilintar os cristais dos lustres de cristal.
– Ontem chegaram os peixes – foi o brado seguinte.
Fazendo ressoarem melodiosamente os incisivos, a Pastomenila informou:
– E amanhã, às 10 horas, no máximo, chegam as aves.
– O Pavão também?
– Não.
O Bonagásaro mastigou a palavra “não”, engoliu-a e começou a saltar extremamente irritado. “Por que o Pavão não vem? Por que não vem o Pavão? O Pavão não vem por quê?” Seu bico vermelho parecia uma espada, enquanto ele explorava as possibilidades sintáticas da frase. Quando silenciou, disse a Pastomenila:
– O Pavão chega hoje com os leões.
O Bonagásaro bradou: – Por quê? Quem deu ordem?
A Pastomenila começou a girar, tilintando a cristalina dentadura. Abriu de súbito as asas de palheta e enlaçou chorando o Bonagásaro, que ficou menor.
Nisto, o vento, antes suave, entrou a soprar forte. Receando ser arrebatados, o Bonagásaro e a Pastomenila uniram-se com desespero.
– Também está chegando o Outono – gritou ainda o pobre Bonagásaro.
– Também a Primavera – tilintou a outra.
Regiraram os dois, ouviu-se em meio àquele torvelinho, com um rumor de taça quebrada contra as pedras, a palavra ARPRIMEVA! Cessado o vento, eram outra vez, na página, o gato, a menina, a bola e o pássaro. Não havia sinal de Pastomenila nem de Bonagásaro. Cerrei os dentes e ergui a cabeça, à espera do Pavão, com sua imponente guarda de leões."

Nada de novo ou surpreendente acontece enquanto não são definidos os dois personagens principais, a Pastomenila e o Bonagásaro. Seus nomes resultam da junção dos elementos humanos e materiais iniciadores da narrativa, tais quais: o pássaro e seu voo azulado; a menina e o seu princípio feminino irrecusável porque prévia e sensivelmente delineado e apresentado; a bola e seu movimento que é similar ao da própria Terra; e o gato feito felino terreno à aparência frio e indiferente a tudo, porém constantemente a saltar muros e a remover-se no mundo subterrâneo noturno de telhados e espaços vazios.

Esses elementos configuram certo mundo lúdico, de personagens e objetos perfeitamente identificáveis, mas que se transmudam, sintaticamente transformados, no sentido mesmo de sua dinâmica e renovação, em novos objetos e seres. A Pastomenila e o Bonagásaro fundem-se insolitamente a partir do seu encontro definidor numa encruzilhada, lugar característico e determinante de opções e escolhas, ou da inexistência delas. E serão, até o desfecho do conto, os novos integrantes da narrativa, sustentados em vocábulos modificados e reagrupados, como a empreender a simbiose ou a desintegração de seus fonemas em movimentos inclusivos e excludentes. E assim, permitindo novas construções vocabulares, abarcando a inversão e a reversão, especialmente no trecho inicial do conto, onde a sintaxe ora se mantém intacta, ora é recriada. O texto passa a evoluir duma maneira que incorpora a mudança situacional desde a ultrapassagem da linearidade espacial e temporal, ao aparecimento de pequenas variações e associações sintáticas e semânticas. A narrativa pode suscitar, assim, voos imaginativos inusitados, que teriam como aliados outros jogos prazerosos e descobertas lúdicas da aventura literária.

A chegada das estações se dá com alarde e estridência. Quando o vento começa a soprar forte, a Pastomenila e o Bonagásaro unem-se com desespero. Efeitos guturais traduzem onomatopéias e cacofonias e sugerem sinestesias. Também possibilidades de intervenção junto a modalidades de prosa visual, na fragmentação do ficcional, em diálogos inusitados, vertentes trocadilhescas, recriações anagramáticas, noções de espaço-tempo subvertidas em ação, intermédio e desfecho.

Mesmo que a clientela infantil desconfie antecipadamente de todo esse engenho de jogos e performances, de significantes sobrepostos a significados, ela não deixa de recriar, em linguagem própria e intransferível do seu próprio mundo, uma dinâmica ritualesca de gestual, sons, mímica e silêncios. Pode-se apenas imaginar o prazer inaudito que à criança é facilitado sentir, ao inventar seus próprios jogos de palavras, silêncios e sons, fazendo a diferenciação do seu mundo do mundo adulto pragmático e racional, através de reinvenções de palavras de um ludismo inesquecível e peculiar. A escrita se desfaz no parágrafo final como um brinquedo depois de certo tempo de uso, ou pela curiosidade de seu dono em desmontá-lo – o gato, a menina, a bola e o pássaro voltam, num abrir e fechar de olhos, a ser o que eram.