domingo, 9 de janeiro de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XLIV

ESCRITOR MERGULHADO NO OFÍCIO

Escrever, escrever, escrever: eis a sua fixação e o seu objetivo. Cogita o escritor que não produz de modo contumaz ficção, mas não exclui a possibilidade de desarquivar o que já pensou e ensaiou nesse ramo da prosa em outras e raras ocasiões. Escreve, sim, em maior ocorrência poemas caracterizados pela estranheza causada nos leitores possíveis que creem no seu talento e no seu exercício diário com a palavra.

Recusa-se a escrever poesia em instantes diversos de sua vida, embora nunca haja conseguido deixar de escrevê-la totalmente. Atitude que não representa nenhuma vantagem para o duende da vida prática, que resulta desvirtuado e tateante feito cego em tiroteio. Entretanto, ao escrever mais poesia e crítica do que prosa ficcional, isso não diminui em nada a sua condição de escritor. Sabe que é apenas um a mais entre tantos autores e autoras existentes mundo afora. Aliás, seu ofício diário inclui a leitura desbragada e reflexiva e a escrita em bem menor voracidade.

Não empresta importância ao desempenho ambíguo que conduz à fama rápida e a vendagens em massa, majorado em reconhecimento efêmero e posterior desaparecimento. Não descarta o mergulho nas águas escuras, rasas e superficiais do anonimato. Nem teme também lançar-se nas ondas profundas, serenas e propiciadoras da solidão necessária para ler e escrever. E assim vem fazendo desde menino ainda e na juventude recente, e continuará a fazê-lo na atual e futura maturidade.

Acredita ser altamente recomendável praticar a busca de um sentido ético para a vida no mundo, que tem como consequência direta um lastro histórico e vivencial permeado de renúncias e intervenções. Detesta a covardia, a malícia, a traição e a inveja quais sentimentos reprováveis, espúrios e destrutivos. Dos seus tempos de estudante do ensino médio e universitário, quando militante no Movimento Estudantil, recorda a forte propensão para o debate e a conversa de grupo, a convivência com o diálogo da conciliação ou o manuseio das sementes da divergência. A política profissional em dias posteriores reaquece o fogo da experiência pública in loco na extensão verde litorânea e canavieira. Estende seus elos aos longes de um sertão mágico, violento e ancestral, que há muito vem se desvestindo de raízes, costumes e leis próprias. Compreende a tempo que tais políticas localistas reavivam seus dons e falácias de musas microrregionais ambíguas, impiedosas e inglórias.

A sua preferência nos encontros e embates inclina-se em maior proporção ao ouvir do que ao falar. Mas não nega, à sua maneira discreta ou exaltada, sempre que os eventos e as circunstâncias permitam ou exijam, a manifestação da própria fala. E destila, com o devido cuidado, mesmo que a rapidez o constranja, para apreciação dos outros circunstantes, seu discurso individual de signos e sons bem ou mal articulados em oralidade e escrita no espaço-tempo multidimensional. Referenda que debater ou discutir coisas é das atitudes humanas mais antigas e civilizadas, ainda que descambe, em numerosos casos e oportunidades, para uma agressividade indesejada. Intenta manter certa cota de serenidade nas conversas coletivas, o que demonstra que ninguém deve pensar a priori nos diálogos e embates de origens e intencionalidades diversificadas como atrito ou confusão.

No âmbito da prosa, rabisca textos de variada tendência. A crônica, o diário, a carta. O esboço biográfico, o recorte autobiográfico e o texto de historiografia, além da opinião jornalística. Contudo, vincula-se principalmente à análise e à crítica literária, sem renegar o ensaio de configuração literária heterodoxa em suas diferenciadas modalidades culturais. Pela literatura não se arrepende de ter deixado uma carreira técnica promissora para navegar nas águas incertas do ensino e do serviço público.

Em algum tempo de sua vida, trata de elaborar uma dissertação de mestrado fugindo um pouco ao viés acadêmico consolidado. Durante uma década e meia sua militância na crítica literária em suplementos, revistas e jornais, encontra-o sempre às voltas com livros alheios, a fim de contribuir, de algum modo, para o esclarecimento de determinada obra ou conjunto de obras de uma época. Produz boa quantidade de textos ajustados a uma interpretação literária e contextualizada das obras que chegam a suas mãos, sem apropriar-se da essência do trabalho estético dos autores lidos e estudados em termos de imitação ou rapina.

Mesmo que sua atividade crítica tenha sido acusada de fria, cerebral e dissecadora dos corpos e elementos apodrecidos e empobrecedores da escrita, continua a privilegiar a impessoalidade como uma virtude tão vã e banal quanto o uso egocêntrico em primeira pessoa ou o precário coletivo em terceira. Não se mostra hipócrita ao extremo de não pretender fazer aflorar minimamente que seja seu esforço literário nos meandros estético-formais de linguagem, palavra e signo.

Observa que quem assim não age, quem não aperfeiçoa o que realiza, trabalha contra si mesmo e deve cuidar de esboçar apenas relatórios, gráficos e projetos. Não se associa radicalmente a formas tecnicistas que gozam de uma grande reputação entre os remanescentes de estruturalistas, formalistas, lógicos, construtores, matemáticos, racionalistas, arquitetos e concretistas. Também não cede à hipnose das formas excessivamente impressionistas que, de outro lado, levam a uma opção pela crítica unilateralmente devedora do gosto pessoal, se bem que realizada com mestria e competência em seus moldes europeus e nos momentos elevados dos derivativos brasileiros.

Para o bem ou para o mal, dispondo de pouca ou relativa divulgação, considera-se um escritor. Mesmo falando no escuro ou pregando no deserto, não abre mão da sua condição de amante zeloso e aficionado dos livros e da produção cultural, intelectual e artística que ensejam. E por isso rejeita todo o amadorismo em literatura, a começar pelos erros crassos, abusivos e imperdoáveis de quem não tem intimidade com a escrita. Termina por concluir que o escritor é alguém que pode, voluntariamente ou não, despertar o olhar enviesado e traiçoeiro da inveja. A sua ligação e fidelidade à literatura logra incomodar aqueles que não se dedicam com exclusividade a essa tão exigente senhora.

No redemoinho da criação e da vida literária, defende que o escritor jamais deve adquirir ares de importância que efetivamente não tenha. Imagina que o que determinado grupo de leitores pensa de um autor só raramente vem à tona. Para depois constatar que tal confraria de leitores não identificados fica abstraída de todo o processo criativo, preferindo conferir à distância relances da vida daquele a quem admira e a desfrutar a sua obra já acabada e impressa, sem estabelecer relações de proximidade com o seu autor. Alguns leitores apostam no que ele faz e como o faz, isto é, com a possível honestidade intelectual e aquele sentido ético exigido para que alguém adentre o campo minado, altamente elastecido e ramificado da literatura. E assim tem como metas presentes e futuras trabalhar a escrita com entusiasmo e dedicação, consciência social e estética, além de humildade nas atitudes e ações individuais.

(Recife, janeiro de 2011)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XLIII


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Notas Cotidianas e Literárias XLII

OS AMANTES DESCOBREM SEU ÓCIO



OS AMANTES DESCOBREM SEU ÓCIO

Os amantes descobrem seu ócio
entre orgasmo, prazer, alegria.

Só muitos poetas não vemos
descobrir neste tempo a poesia.


A VOZ LUNAR

A voz lunar que desperta
a compulsão dos desejos.
E a um olhar mais ousado
a boca que avidamente soletra
o arfar delirante da carne,
as delícias comuns de um beijo.


DOIS MOMENTOS DA MESMA NUDEZ

1.

Tua nudez
quando
refletida em si mesma
navega:

Uma luz permeada
com rumor na paisagem
que cega.

2.

Sopro de vida enterrada
nessa sequência de lápides
tua nudez solitária
feito um arquivo de nadas.


MANHÃ

Estendo a ti meu silêncio
nessa manhã que desperta.

Revelas a mim tua crescente
nudez acesa, agreste.


A SESTA

Fantasias eróticas alternam-se
entre o tédio e a abundância

quais labirintos vorazes acesos
de sensualidade e apetência

ou etéreas visões e desejos
da carne em afrodisíaca dormência.


O VIAJAR INCANSÁVEL

O viajar incansável
pelo teu rosto e cabelos.
A perfeição de teu corpo
inviolado, sem máscaras
o teu perfume insondável
e eriçados teus pelos.

Tuas coxas que giram em arco
Bipartido
               palpável
                             não-lapso.

Tuas formas, desvelo, entremeios
quando estás concentrada nas águas
e após este teu banho-volúpia
quando és tão somente tu mesma –

Triangular
                  absorta
                               bivalve

e entrevista em janeiro –
ó visão merecida
ó mirada selvagem
ó visagem dos deuses –
Maravilha de te ter por inteiro.


POEMA (DESVENDADO O MISTÉRIO)

Desvendado o mistério
esvoaçantes teus olhos
a florescer no espaço
no desenlace da tarde:

Abelha rútila
a sugar
o mel dos lábios.

Amante súbita
a singrar
o fel das perdas.


SONETO DESMEMBRADO DA FORMA DE ORIGEM

Há um constante fluir no vazio
cotidiano e presente,
                                 um estio
de verão que só a custo elabora
sua própria paisagem.
                                   Dessa forma,
sob o sol lágrimas já não se retêm
do horizonte,
                      e pelo mar mais além
não há condensação nem vapor.
                                                   Nesta tarde
ouve-se apenas o som sem alarde
das brisas
                  a espalhar seu rumor pelas ondas
na praia
               enquanto nossas vidas se redimem sem pressa
no cristal de um abraço
ansiado
              e o nosso amor então se desdobra
na ardência de um beijo
desde sempre esperado
              e o desejo enfim se consuma
no esplendor de dois corpos
em impulsão e orgasmo.


GESTUAL

Voo em ti
volúpia jasmim
loucura sem fim
sedimentada
nestes teus olhos
de bela infante
multiplicada
neste teu corpo
de nave vagante
reunida às estrelas
antecedida à contemplação.

2

Canto para ti
me envolvo de ti

nestes cubos cinzentos
pelas ruas compactas

nestas ondas maciças
de embalos selvagens

neste mar impulsivo
que revolve tuas águas

3

As longas coxas morenas
descuidadas repousam
no espaço da cama
entre úmidos lençóis
desfolhados orgasmos
a saliva de bocas
os suores e abraços

Ácido o vento
gema e alento
clara e evento
manha odor movimento

Ponte pênsil
pênis duro
peso denso

os peitos expostos
nos descobertos mamilos

os pentelhos içados
e o esperma intenso
que freme que jorra e que vibra

na caverna no bosque a safira
na umidade crispada do sexo
penetrado há bem pouco tempo.

E agora o sinal dessa mão que elabora
os acontecimentos ardentes:
o elastecimento da carne
a tenacidade do nervo
que endurece
novamente.


UMA NOITE NÃO É O BASTANTE

Para que nos amemos sem tréguas
devemos nos conceder sem demora
do tempo que ainda nos resta
todas as noites, segundos e horas.

(Poemas inéditos)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XLI

DA GENIALIDADE ROMÂNTICA


Entre os românticos o gênio
ardente se manifestava
na afirmação da poesia
em coletiva irmandade

e não eram ironias diretas
à distorcida eloquência
ou arremedos discretos
da elegância tacanha

que provocavam às vezes
inclinações desviantes
do borbulhar tresloucado
em malfadados rompantes.

O que o gênio espantava
eram contendas vulgares
e um apego vão e avaro
do que não fosse poesia

(mesmo na solidão se aliava
à causa da gente oprimida
na busca de liberdade e alegria

e nas lutas do povo escolhia
as armas do verbo inflamado
e o discurso da palavra incendida).

O gênio que assim se prezava
preferia a vida boêmia
amava o obscuro da noite

mas não tolerava tiranias
e nem aprovava o açoite
dos indefesos e fracos

e suas brigas raras se davam
no meio dos que o conheciam
somente em favor da poesia.

(Inédito, 2010)

Notas Cotidianas e Literárias XL

A ESTREIA DE ADMALDO MATOS NO ROMANCE


Imagine-se uma cidade de interior onde ocorre a morte inesperada e violenta de uma mulher bonita e de família tradicional, desejada pelos homens e invejada pelas outras mulheres. Tudo passa a girar em torno do episódio, da tragicidade rara que surpreende e envolve habitantes, mobilizando conversas e comentários. O crime se constitui em objeto narrativo deflagrador do romance de estreia de Admaldo Matos de Assis, A muralha e o cavalo (Recife, Bagaço, 2010). Próxima à capital, a cidade oscila no intermédio entre o rural e o urbano e enseja a ambientação na qual os personagens transitam, com seus perfis humanos de caracteres diferenciados.

É aí que entra o aspirante a detetive João Bosco, escrivão de polícia, exercendo a função de delegado interino. Passa a investigar o provável assassinato de Ritinha por envenenamento, sem descartar inteiramente a hipótese de suicídio. E para isso recorre aos recursos possíveis e imagináveis à mão e ao raciocínio de quem se encontra impregnado de ficção policial. Pressionado pela incerteza de sua nomeação, o interino pretende dar o melhor de si. A sua jornada investigativa ultrapassa a cidadezinha e chega à capital Recife. Seu desempenho no caso divide a opinião pública. Ao fim, Bosco, sustentado na ética pessoal e na clareza de propósitos, fracassa. Perde tudo: o emprego, a namorada, o apoio de amigos, restando apenas os parentes próximos. Desiste do suicídio após a morte do pai e reergue-se para a vida.

Este “sucesso” em forma de crime da década de 1950, acontecido ou não, é o elemento motivador da parte I de A muralha e o cavalo, “Morte e mistério”. O leitor, preso nas malhas da surpresa elucidativa sempre adiada, provavelmente relutará em abandonar o livro, que poderia resolver-se, sem prejuízo do restante das páginas, nessa parte inicial. Na parte II, “Vida sem mistério”, o tom oscila entre o ensaístico, o descritivo e o memorialístico, além de ser promovida a atualização e explicitadas as transformações operadas na cidade ao largo do tempo, que tudo leva a crer ser Gravatá, onde o escritor nasceu. A parte III, “Desenlaces”, na qual um João Bosco idoso descobre, por acaso, o assassino de Ritinha, serve como arremate da primeira, mas já sem o impacto desta. Seja como for, Admaldo Matos mostra, com seu romance, a que veio. Trabalha com conhecimento de causa, a partir de enredo e narrativa que funcionam satisfatoriamente, além de estilo seguro e amadurecido. O que é motivo bastante para a recomendação urgente da leitura do seu romance.

Diario de Pernambuco, 27 de dezembro de 2010

sábado, 25 de dezembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXIX

Foto: Ursula Newmann

AOS AMIGOS E VISITANTES DO BLOG
COM VOTOS DE UM FELIZ 2011

Antes de qualquer conversa, começo por desejar um 2011 de intensas e múltipas realizações a todas as pessoas que conheço ou convivo cotidianamente. Sem discriminação de gênero ou de outras roupagens e feitios, aí estão incluídos amigos, familiares, vizinhos, conterrâneos, companheiros de jornada, conhecidos de longe ou de perto. Isso se estende também a desconhecidos de quem talvez venha a ser amigo um dia, e mesmo ainda àqueles com quem me desavim por algum motivo que se mostra, no instante em que escrevo, com a sua importância relativizada. Nesta listagem não poderia esquecer, de modo nenhum, os visitantes deste blog que mantenho há um ano. Com alguns, faço contato presencial e com outros, apenas virtualmente. Com ambos, os sinais de amizade são reforçados pelo gosto da literatura.

Aliás, neste âmbito, o ano que finda foi bastante produtivo, em especial para os projetos coletivos. O acontecimento literário mais importante foi, certamente, a realização da Fliporto em Olinda, no mês de novembro. Nossa participação direta se deu com o lançamento do livro Cronistas de Pernambuco, em colaboração com Antônio Campos, curador da festa, como parte de um projeto maior da editora Carpe Diem, a trilogia Pernambuco em antologias. Atendendo ao convite de Sérgio Pires e Fátima Falbo, da agência publicitária Atma Promo, realizamos, até agora, três mesas-redondas sobre Carlos Pena Filho e sua obra, na condição de eventos internos à exposição Carlos Pena Filho: 50 anos de memória, no Santander Cultural. Dispusemos de uma boa cobertura da imprensa e participamos do livro em formato álbum que leva o nome da exposição. Esperamos concluir algum projeto que restou inacabado em 2010 ou de anos anteriores.

Mantivemos uma forte interação com a blogosfera através da reprodução de textos e publicação de inéditos em espaços locais e de outros estados. Destacamos, no Recife, o Jornal da Besta Fubana, do escritor Luiz Berto, que hospedou a nossa coluna “O Mundo Circundante”; o blog NotaPE que, através de Cristiano Ramos, nos abrigou como colaborador. Fizemos também intervenções no Interpoética, Portal Vermelho, Substantivo Plural, Literatura sem Fronteiras, para citar apenas estes. Publicamos em maior ocorrência textos de poesia e crítica literária no blog Literário, de Pedro Bondaczuk, de Campinas (SP).

Não é novidade para ninguém que o mundo se transforma a cada segundo. Mudam crenças pessoais, hábitos sociais, culturas aparentemente solidificadas, orientações éticas e valores políticos, e ainda a concepção histórica e teórica de sistemas filosóficos, literários e artísticos. Algumas mudanças são imperceptíveis inicialmente, mas com a passagem do tempo acostuma-se a elas. E é neste sentido que mudaram flagrantemente as formas de comunicação, com a chegada das redes sociais e dos espaços de divulgação proporcionados por sites e blogs.

Acima de qualquer coisa, permanecemos humanos e nenhuma transformação terrena pode mudar isso, exceto a morte, este sumidouro do desconhecido. Humanos e perecíveis, nosso nome somente servirá de herança e repasto se deixarmos alguma obra de relevância para quem virá depois. O que se reafirma como algo de extrema dificuldade, pois requer a junção perfeita do que a inteligência pensou e o talento facilitou ao espírito criativo. E assim uma espécie de compulsão criativa se veicula nos diversos setores do conhecimento e da arte, resultando em obras que tanto poderão ter a sua duração elastecida como simplesmente ficarem esquecidas até que alguém as resgate do limbo e as exponha a uma visualidade inesperada. Tais obras, configuradas por livros, quadros, esculturas, filmes, imagens fotográficas, composições musicais, prédios de valor patrimonial e artístico,  contudo, não estão imunes à destruição pelas não tão improváveis catástrofes que assolam países, como produto das guerras localizadas e das forças cósmicas da Natureza, que não entram em acordo nem rendem tributos ao homem quando querem se manifestar.

Expressamos os nossos melhores agradecimentos aos seguidores e a todos aqueles que enviaram, através de e-mails, inclusive de outros países, uma quantidade significativa e especial de comentários aos escritos do blog, embora alguns não necessariamente para que os publicássemos. Aos que nos enviaram livros, informamos que, na medida do possível, realizamos as respectivas leituras, mesmo que muitos deles não tenham sido comentados ou avaliados em texto ou artigo.

E que em 2011 continuemos a trabalhar a literatura, partilhando-a fraternalmente nos instantes, situações e vivências possíveis.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVIII

DIAS DE REPENSAR O NATAL & OUTRAS COISAS

1.

            Pensar o Natal como algo simples e não simplório, inteligível e sem complexidades demasiadas, que chegue a alguém na forma de dádiva ou presente. Exemplos iniciais desdobram-se em mais outros: um texto que se espalha sem as vaidades de seu autor, uma fala desvestida do circunstancialismo do seu locutor, um abraço sem as garras traiçoeiras do tamanduá ou da serpente. Muitos não apreciam a leitura, mas isso não serve de motivo para se abandonar a nobre causa da palavra dançando luminosa ou obscura nos feitios da página. A maioria das pessoas prefere saber mais lidar com números, contas, placas, anúncios, cifrões, receitas, marcas, referências. Observando-se bem, há sempre o amigo, o vizinho, o parente, o conhecido ou o desconhecido total que não perderam de todo a paciência e a inclinação para a leitura, a quem interessa tanto o calor do abraço quanto a poesia da vida e das coisas. São estes que justificam qualquer mensagem escrita, qualquer esboço permeado de misterioso sentido criativo. E que se esmeram em aguçar talvez com certo exagero os ouvidos, absorvendo a fala transmitida por quem mais desenvolto e astuto.

2.

            Um pouco de festa não faz mal a ninguém. Pão e circo. Carnaval e caviar. Vinho e celebração. Quermesse e roleta, carrossel e cachaça. A transgressão e a fartura, mesmo que ilusórias e passageiras, se reivindicam necessárias. Ninguém pode ser tão rígido ao ponto de não se permitir, de vez em quando, quebrar as regras vigentes. Desde que não cause dano ou lesão a outrem. Através do humor brincante certeiro e sincero de gente modesta e despojada constata-se a verdade das pequenas alegrias. Os jogos e brincadeiras em família cujos membros, pares e casais ainda não se desintegraram, podem ser deveras estimulantes e facilitar o bom convívio. Entretanto, logo se intui e após se verifica que algo se perdeu da harmonia, da solidariedade e do espírito de grupo ancestrais entranhados na essência do humano.

3.

Os que estão mergulhados em um tédio existencial alargado e depressivo, ou em algum projeto intelectual de perquirições e pesquisas insolúveis e imponderáveis, sujeitam-se a aprovar o rol das novidades surgidas a cada segundo. É um sinal de que não conseguem alcançar o segredo e o mistério mais antigos embutidos nas águas profundas da arte e da filosofia, a grande atração sensorial da poesia, da pintura e da música. Uma constatação insofismável aponta para o fato de que, em décadas recentes, aqueles que vêm tocando eventos científicos assumiram a multiplicidade meganumérica alojada nas tecnologias da informação, as supostas e reais desordens internas da entropia terrena e os princípios da incerteza vetorizados para a consecução de certezas aplicáveis, práticas e demonstráveis. E assim ultrapassaram em escala notável as injunções imemoriais da metafísica, as aplicações mecânicas e relativísticas e as desvirtuações atômicas desastrosas de um mundo contemporâneo até há pouco menos caótico, porém para eles superado.

4.

Estabelecer teses e reflexões impossíveis de abrangência para país tão imenso e por natureza contraditório já na sua origem, traz o risco óbvio da dispersão e da generalidade. A favela na alça de mira das sentinelas afincadas nos postos militares de observação traduz a distância exata e mínima de um tiro de grosso calibre. Um movimento inverso também se enseja no manejo desarrazoado, amador e sanguinário dos rifles e metralhadoras oriundos de transações internacionais circunvizinhas da alta contravenção. Aqui se encontra envolvido o que de antemão já se sabe: as variáveis estatísticas da quantidade rumorosa e midiática de sequestros, assaltos, estupros e assassinatos coletivos no mundo todo. Tal surto de violência inédita é reforçado pela disseminação desenfreada do tráfico de narcóticos, de bugigangas eletrônicas e objetos de uso doméstico caros e luxuosos, além da escravidão moderna e da comercialização dos próprios seres humanos e seus órgãos.

5.

Nos setores da política e das finanças nada mais causa espanto, a não ser a ausência de novos escândalos. Se existe uma lei constituída e em curso, mais fácil desrespeitá-la em nome de ambições pessoais geradas no cerne das confusões ideológicas. A neutralidade e o distanciamento da sociedade civil do debate político refletem o desvirtuamento e a desconfiança com relação ao caldeirão ideológico utilitário de feições, destinos e facetas diversas. Uma parcela ínfima insiste na opção primordial de luta pela melhoria de vida dos excluídos e pobres de toda sorte. Poucos assumem o combate feito em nome de numerosas mudanças sociais e políticas, que algum dia talvez possam passar do estágio de quimera a sonho realizado, ou mais propriamente, semi-realizado. No mesmo passo, a maioria assiste à proliferação dos absurdos políticos com um olhar cético, desencantado e questionador.

6.

Militantes profissionais equivocados e antiéticos nem sempre correspondem ao que se espera politicamente deles. Guardam invariavelmente um lugarzinho em casa ou no trabalho, na pasta ou na gaveta, no bolso furado ou na bolsa íntima, para um pró-labore que jamais mereceram. Tais coisas acontecem no mesmo país onde a manutenção sutil ou a substituição brusca de quadros políticos se reafirmam como formalizações democráticas insustentáveis. As posições fragilizadas, extorsivas e ressentidas dos que foram preteridos se manifestam através do fracasso das negociações veladas e das conversas enviesadas, nas quais desaba no chão qualquer espécie ou noção de decoro pessoal ou público. Porque nossas melhores lições de democracia originam-se da verve e da práxis do próprio povo brasileiro e muito menos da parte de quem o dirige ou oprime.

7.

Pensar o Natal como algo revelador – um texto, um abraço, uma fala – de esperança e futuro é ofício de quem não se desgarrou em absoluto da vida e da luta. E é tarefa também de quem se permite sonhar, por mais que o sonho se mostre frágil e à aparência inconsistente. Externa, de modo enfático, a atitude de quem persiste, aprisionado embora, nas malhas e rituais de um  presente encetado em perspectiva fechada e idealizado somente. De quem não deixou de acreditar na busca incessante de um futuro menos sombrio e ainda distante e inalcançado.