segunda-feira, 19 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVIII

POLÍTICA

Já faz um bom tempo agora
que em entrevista a um jornal
Pelé disse uma frase famosa:
O brasileiro não sabe votar.

Ainda hoje estamos na dúvida
sobre isso que o Rei afirmou,
pois tem toda uma gente do povo
que não vota por dinheiro ou favor.

E se em toda escolha de nomes
se avalia e se pesa o melhor,
muitas vezes o que acontece
é que o melhor pode ser o pior.

E se em toda disputa por votos
a história assim se repete
misturando eleição com folclore
o vencedor fica sendo a vedete.



UM LIVRO UM TANTO ESCANDALOSO

O livro autobiográfico de Joaquim Nabuco, Minha formação, resultou principalmente das circunstâncias do isolamento político a que ele foi submetido após a queda do Império em 1889, pelo fato de ser um dos mais empenhados e intransigentes defensores do regime monárquico. Nabuco ficou sem espaço político efetivo para a sua atuação parlamentar, no auge de uma carreira que se inicia em 1878, quando é eleito deputado por Pernambuco, imediatamente após a morte do pai, o senador Nabuco de Araújo.

Tal eleição deveu-se a um acordo anterior entre seu pai e o barão de Vila Bela, chefe político de Pernambuco, no qual o senador Nabuco deixou averbada a indicação do filho para deputado pelo partido liberal. Em 1879, Joaquim Nabuco assume a sua cadeira na Câmara, e começa também os trabalhos da campanha abolicionista, que teria como desfecho o 13 de maio de 1888. Durante mais de uma década, essa legislatura é interrompida apenas no período 1881-83, devido a divergências entre ele e o partido liberal. Esta interrupção viria a ter consequências positivas, uma vez que foi no exílio em Londres que Nabuco escreveu O abolicionismo, livro claramente destinado à propaganda e agitação em favor da libertação dos escravos, e guardadas certas diferenças e proporções, correspondente em prosa aos poemas escravistas de Castro Alves. A grande diferença entre ambos é que a visão de Nabuco voltava-se mais para o combate ao que existia de negativo e desabonador na escravidão, no referente a aspectos históricos, sociais e econômicos, enquanto que Castro Alves era portador de uma visão poética romântica e sentimentalista, ainda que libertadora.

Na sua fase de recolhimento, Nabuco escreve, além de Minha formação, a biografia do senador Nabuco de Araújo, Um estadista do Império, e outras obras de reconhecido valor histórico, a exemplo de Balmaceda, sobre a Revolução Chilena. É desse tempo também a sua participação na fundação da Academia Brasileira de Letras, ao lado de Machado de Assis, amigo de toda a vida.

Quando foi publicado em 1900, Minha formação certamente gerou protestos e causou estranheza, como já alertou Gilberto Freyre: “Para o Brasil da época em que apareceu, Minha formação foi um livro um tanto escandaloso, por ter sido, para muitos, cheio de louvor em boca própria. Não faltou quem acusasse o autor de deselegante e narciso”.

A elite bem-pensante brasileira, da qual obviamente Joaquim Nabuco fazia parte, sendo inteiramente desfavorável à prática de confissões públicas, não poderia admitir que uma figura do porte dele passasse a revelar, sem pudores, hipocrisias ou falseamentos, a sua experiência de vida pessoal. E isto, mesmo que o memorialista jamais se excedesse ou avançasse nas declarações de vivências íntimas e particulares, decerto comprometedoras de imagens ou comportamentos de conveniência burguesa. Ou que ele pouco envolvesse nos seus relatos a gente conhecida da época, a não ser numa escala funcional que quase sempre secundarizava os circundantes, predominado aí tanto o esteio de uma vaidade considerável, como o equilíbrio sóbrio de sua educação e origem eminentemente aristocráticas.

O produto histórico-literário final de Minha formação envolve, entre outras coisas, a narração calcada numa prosa de rara fruição e reconhecida beleza poética de sua infância no Engenho Massangana; a educação primeira com o barão de Tautphoeus, as passagens pelo Colégio Pedro II no Rio de Janeiro e pelas faculdades de Direito de São Paulo inicialmente, e depois a conclusão do curso no Recife; o processo de gestação seguida da afirmação de posicionamentos políticos liberais e monárquicos; a descrição de viagens que fez ao exterior em épocas distintas de sua vida, notadamente à Europa e à América; a listagem exaustiva dos autores que mais o influenciaram literária, política e filosoficamente.

Ele desvela ainda a sua transitação mundana e tendências aristocráticas, que passariam a conviver, de modo um tanto contraditório, com os mais altos ideais de emancipação dos escravos. Os seus laços burgueses de liberal fiel ao Imperador e à monarquia parlamentarista foram adquiridos por absoluta influência do pai, e logo após consolidados no conhecimento da Constituição inglesas, de Bagehot, autor hoje obsoleto e que ninguém mais lê, e também no seu desempenho como adido de legação em contato direto – e deslumbrado, como ele mesmo deixa entrever – com a nobreza da Inglaterra.

O memorialismo de Joaquim Nabuco torna-se em certos instantes denso, espectral e obscuro, pelas numerosas teorizações políticas e referências a acontecimentos históricos que empreende, pelas datações e assuntos não raro repetidos, como se ele tivesse feito, e na realidade em certa medida o fez, uma montagem aleatória de vários escritos dispersos e que guardassem pouca relação entre si.

Por outro lado, estas disposições, inovações e inversões, pouco usuais em fins do século XIX, podem ajudar a revelar a sua originalidade na concepção estrutural do livro, que não se inicia propriamente pelos anos da infância, não havendo, portanto, a rigor, uma sequência cronológica e linear definida. O capítulo da infância, “Massangana”, será apresentado como o capítulo 20 de Minha formação.

O que o motivou para esse procedimento, certamente terá sido a oportunidade e a relevância do assunto em detrimento da sequência pura e simples do tempo. De todo modo, mesmo com esta independência do fator temporal, ao fim certos capítulos se entrelaçam e se interpenetram, ganham agilidade narrativa, se lidos com a necessária atenção, embora arrastem-se os capítulos em que ele passa a enumerar as suas influências européias, o que não acontece com os que referem-se aos Estados Unidos.

Em Minha formação, o elemento político alterna-se, em períodos diversos, com as inclinações literárias e artísticas do autor. No capítulo “Crise poética”, o depoimento acerca da sua condição de poeta malogrado, consciente de suas limitações para este ofício, é de uma sinceridade gritante. É sintomático o fato de ele eleger Camões como poeta de sua preferência, estendendo-se esta admiração desde a adolescência à maturidade, e tendo continuidade nos seus tempos de embaixador nos Estados Unidos, com vários discursos pronunciados sobre o poeta.

No capítulo final, “Os últimos dez anos”, não há como deixar de identificar a sua impaciência em prosseguir nesse memorialismo, que o faz estabelecer como ponto de chegada das suas vivências, bem mais públicas que privadas, a idade de cinquenta anos, demarcando assim, de modo bastante sugestivo, o que já se encontrava definido e realizado em sua intensa atuação política. A sua ação libertadora chega até a vitória da causa abolicionista, que permitiu, sem que talvez ele próprio fizesse idéia do que estava por vir, a derrubada do Império e motivou, na mesma sucessão de acontecimentos, o advento da República.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIII, jul. 1999.)


CRÍTICO LITERÁRIO E DE ARTE

Gilberto Freyre assina, além da obra sociológica e antropológica que o consagrou, um tipo de produção literária infrequente e de não tão grande ocorrência em seus escritos, e assim de certo modo pouco conhecida do público leitor, intelectual ou não, que o vem acompanhando.

Essa produção literária – diferentemente de seus livros de reconhecida importância como Casa-grande & senzala (1933), Sobrados e mucambos (1936) e Ordem e progresso (1959) – refere-se à crítica praticada por ele, que se efetiva tanto no plano artístico-cultural quanto no literário propriamente.

Em 1962, através do então jovem crítico Renato Carneiro Campos, tais textos críticos foram reunidos e organizados numa publicação a que se intitulou Vida, forma e cor, editada pela José Olympio, no Rio de Janeiro. A segunda edição de Vida, forma e cor, a cargo da Editora Record, também no Rio de Janeiro, só sairia vinte e cinco anos depois, em 1987, ano da morte de Gilberto Freyre, mas, a julgar pela ficha catalográfica do livro, com este ainda vivo. Nesta nova edição foram suprimidos sete textos, “Algumas notas sobre a pintura no Nordeste do Brasil”, “Nota sobre Augusto dos Anjos”, “Euclydes da Cunha: sua interpretação do Brasil”, “Euclydes da Cunha, tropicalista”, “Introdução do autor ao livro Região e tradição”, “Temas estrangeiros” e “De um Diário de viagem pelas terras europeias de Portugal”, e acrescentado um, “Ciência do homem e museologia: sugestões em torno do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco”.

Foram mantidos na íntegra os dois prefácios constantes na primeira edição, do autor e de Renato Carneiro Campos, onde no de Freyre há a indicação do percurso de alguns destes ensaios e artigos, apesar das supressões e do acréscimo referidos: “São trabalhos de épocas diversas. O ensaio sobre Augusto dos Anjos foi escrito em inglês e em Oxford; e apareceu numa revista literária de Boston em ano remotíssimo: 1924. As notas sobre pintura no Nordeste são de 1925. O ensaio acerca de Amy Lowell inclui trechos de um trabalho, também escrito em inglês, aparecido num jornal dos Estados Unidos, quando o autor era ainda estudante da Universidade de Baylor. Vários dos outros ensaios são de todo inéditos. Alguns, porém, são retirados de trabalhos já publicados: Aventura e rotina e A propósito de frades, principalmente. A nota sobre Joyce apareceu primeiro em jornal, depois em Artigos de jornal – livro esgotado há anos. São também incluídos o prefácio a outro livro, há anos esgotado, Região e tradição, o prefácio a O romance brasileiro, de Olívio Montenegro, o prefácio aos Ensaios de crítica de poesia, de Otávio Freitas Júnior, o prefácio aos Poemas negros, de Jorge de Lima, o prefácio ao ensaio de Temístocles Linhares sobre o romance moderno.

Um dos primeiros autores brasileiros a atentar para a presença de Freyre como crítico foi o decano da crítica paulistana Antonio Candido, com o pequeno mas sugestivo ensaio inicialmente titulado “Gilberto Freyre crítico literário” (1962), e quando republicado em 1993, com o título mais provocativo “Um crítico fortuito (mas válido)”.

Seja como for, há no ensaio de Candido muita acuidade perceptiva com relação à função crítico-analítica de Freyre, como quando discorre sobre a “ambiguidade criadora” presente na obra do sociólogo pernambucano: “Nela – na obra –, quando saímos à busca do sociólogo deslizamos para o escritor, e quando procuramos o escritor damos com o sociólogo, Se procurarmos especificamente o crítico, acharemos o estudioso que utiliza impuramente a literatura para os fins de sua manipulação sociológica; mas – continua Candido – a impura utilização torna-se de súbito tratamento vivificante, que retorna sobre a literatura a fim de esclarecê-la, porque a sociologia de Gilberto Freyre, sendo estudo rigoroso, é também visão, e a este título a expressão literária se crava no seu cerne, como recurso de elucidação e pesquisa”. A ligação de Gilberto Freyre com os assuntos literários remonta à sua formação escolar no Recife, na década de 1910 e em parte da década de 1920, se bem que sem orientação estilística definida. Desse tempo importam as leituras de autores brasileiros, hispânicos, portugueses, ingleses e franceses, com uma predileção especial dele pela literatura inglesa.

Neste Vida, forma e cor, podem ser conferidos textos de variado teor artístico-literário, e mesmo “científico”: no campo literário mais estrito, aparecem textos sobre poetas, romancistas, críticos literários e outros tipos de prosadores; na reflexão teórica que se reivindica ampla, ensaios sobre pintores pernambucanos de importância comprovada – Lula Cardoso Aires, Cícero Dias, Francisco Brennand; e, finalmente, os ensaios “culturais” sobre estética, sociologia, língua portuguesa, museologia, todos em conjunção estreita com a literatura.

O que poderia às vezes emergir em tais textos como dispersão crítica metodológica, recebe um reforço significativo da quantidade de informações que eles carregam, como por exemplo, num mesmo ensaio o autor ensejar a análise arguta de um romance de Josué Montello em pouquíssimas linhas, ou expor a condição do drama pernambucano a partir das primeiras experiências de um Ariano Suassuna.

A interdisciplinaridade que se faz presente nestes ensaios resulta de um modo desviante de análise e interpretação de Freyre, com a inter-relação constante de disciplinas, gêneros literários ou tendências da arte moderna. Além da erudição que teima em não se mostrar, em muito pela espontaneidade que se verifica no tratamento com autores brasileiros ou estrangeiros, através da extrema simplicidade com que ele apresenta e defende seus pontos de vista, é uma característica sua o biografismo através de perfis que ficaram famosos, como os que escreveu sobre Euclides da Cunha, Augusto dos anjos e Jorge de Lima.

Se Freyre se sai bem melhor quando se dedica a formular seus julgamentos valorativos de vertente impressionista, sob a perspectiva de um criticismo humanista, não há como negar os seus numerosos acertos, achados e descobertas, inclusive quanto a aspectos formais, mais em prosa que em poesia, mesmo em alguns momentos nos quais ele prende-se demasiadamente às suas impressões e empatias particulares.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIV, mar. 2000.)


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVII

CHÁ DAS CINCO COM O VAMPIRO

Miguel Sanches Neto é o crítico literário de maior visibilidade do Paraná. Atua também na poesia e na ficção, tendo estreado com um romance de forte vetorização autobiográfica Chove sobre minha infância (2000). A infância e a adolescência atribuladas que levou junto à mãe a quem amava e a um padrasto de quem não gostava, em meio ao trabalho árduo no campo e aos sonhos de enveredar pelos caminhos da literatura são enfocados nesse livro. Em A primeira mulher (2008), seu terceiro romance, Sanches vai privilegiar os meandros do romance de enigma policial, as veredas da articulação política, a desilusão do personagem frente ao ensino universitário, a solidão do homem no espaço urbano, a relação conturbada com as mulheres, e, ainda, a relação edipiana, ao mesmo tempo em que propositadamente distanciada, com a mãe.

Sanches Neto chega agora com seu quarto romance, Chá das cinco com o vampiro, marcado pela polêmica em torno de situações e personagens transplantados da ambiência literária curitibana para o corpo da ficção. A narrativa se entretece entre 1982 e 2002, absorvendo duas cidades paranaenses, Peabiru e Curitiba. Cerca de oito anos após a sua versão inicial, passando pela recusa de algumas editoras e pelas confusões e peripécias originadas do conteúdo que vazou e que tornava identificáveis escritores e jornalistas vivos, a Objetiva finalmente aceitou publicá-lo. Duas linhas de leitura podem ser adotadas para o livro: uma que se prende à cota de realidade sugerida pelas figuras literárias e suas circunstâncias, e outra que desvincula rostos vivos ou mortos da necessidade de serem estabelecidos nexos que os identifiquem com maior ou menor facilidade. O autor conviveu com todos eles, em níveis oscilantes entre a amizade e a desavença, a intimidade desfeita e a indiferença total.

A primeira é uma leitura tendenciosa a explorar vaidades literárias, embates surdos, miudezas da convivência gerada entre pares que lutam para ser reconhecidos dentro e fora do circuito provinciano. Mesmo que alguns já estejam alçados à condição de escritores nacionais, o entrevero se estende indefinidamente, até mesmo depois da morte. Neste caso, a vida literária é mais valorizada do que a própria produção textual, o difícil e espinhoso trabalho individual com a palavra é posto em segundo plano pelo flagrante da conversa mafiosa e suspeita ao pé do ouvido.

A segunda leitura não terá como referencial privilegiado os rostos notáveis ou obscuros, ou uma mistura de ambos. Tratará das questões que envolvem o lastro ficcional trazido pelo autor com seu romance. Não se poderá fugir, nesse ponto, ao recorte em que se inclui a parcela autobiográfica. Insurge-se, então, o personagem Beto Nunes, seus pais e sua tia Ester, que terão importância óbvia na construção da narrativa. Ester ocupará frações significativas da vida do personagem central Beto, com um andamento que ofuscará, em muitas passagens e trechos, Geraldo Trentini.

O grande contista, motivador de toda a polêmica gerada pelo livro, não deixará de ser associado a Dalton Trevisan, qualquer que seja a interpretação que se faça. Beto Nunes ou Roberto Nunes Filho, o alter ego e simulacro ficcional de Miguel Sanches Neto, o discípulo e amigo de antes de Trentini, passa a ser visto como o algoz e inimigo de hoje. Assume a condição maldita de ter revelado segredos pessoais do ficcionista silenciados como um código de honra e respeito pelos curitibanos.

É um fato que Trentini aparece sem aparecer, mostra-se e esconde-se cotidianamente no seu ocultamento de boné, casaco e caminhadas, qual esfinge esquiva e inalcançável que não permite a surpresa de fotografias, as entrevistas incômodas e as devassas na sua misteriosa transitação pela cidade e o seu isolamento em casa. O risco óbvio que o personagem Beto Nunes correu foi o de expor detalhes de uma intimidade guardada a sete chaves. E que, pelo lido no texto, desvenda coisas até então desconhecidas por aqueles poucos com quem convive ou conviveu Geraldo Trentini/Dalton Trevisan.

Não se pode negar que Sanches Neto conhece bem o ofício da escrita. Distribui os capítulos setorialmente em anos esparsos de três décadas, lembrando uma técnica bastante utilizada pelo norte-americano John dos Passos. Contudo, não há um enredo rigoroso propriamente, que obedeça incondicionalmente à lógica temporal e espacial de uma história convencional em prosa. A linearidade de situações e acontecimentos é quebrada e confundida o tempo todo, renegando a monotonia descritivística e impulsionando o andamento cronológico de uma duração estática para outra em constante mutação e avanço. A trama caminha com o personagem principal e a recíproca é verdadeira – o personagem vai sendo feito ao largo da colação anuária mesclada das décadas e cidades envolvidas, com os eventos sobrepondo-se, anulando-se e desaparecendo uns nos outros, da adolescência aos inícios da maturidade de Beto. Este personagem redondo se move ao sabor da incerteza que a passagem das horas lhe oferece. E que ele também conquista, nas suas incontáveis leituras e na sua luta para afirmar-se como escritor em Curitiba. Ao modo de um estopim aceso, as suas revelações incendeiam a pólvora das discórdias, idiossincrasias e desentendimentos.

Beto Nunes vive a vida de um estudante pobre do interior no ambiente inicialmente hostil da capital. Começa numa república de estudantes, depois passa a morar sozinho, sempre com a ajuda de uma mesada familiar. Demonstra pouco interesse pelo curso, e ao invés de assistir aulas, dedica-se a ler. As suas primeiras abordagens a Geraldo Trentini vêm dessa época. E é através de Trentini que os espaços de jornal se abrem, com a publicação de um texto sobre o contista. Dividido entre a solidão e o conhecimento de escritores, Beto Nunes vai produzindo seus textos, ficando conhecido e se impondo como crítico e escritor. Quando sua reputação local está consolidada, inicia um rompimento com a maioria daqueles de quem se aproximara. Com o auxílio de Valter Marcondes, empreende julgamentos desabonadores da obra de Geraldo Trentini e de alguns outros componentes da ambiência cultural paranaense.

Família, sexo, solidão, religiosidade e busca de solidez na vida são motes que atravessam o livro. Beto Nunes carrega o esteio da provocação direta, a necessidade iconoclasta de derrubar preconceitos, tabus e valores antigos. Opostamente, impõe-se a vontade acomodatícia subliminar em torno de formas de vencer na vida, encontrada na relativização de sucesso no jornalismo, ao manter uma coluna literária no jornal paranaense O Diário desde os anos de formação. Fornece um retrato impiedoso do pai com seu bafo de pinga e da mãe com seu cheiro diário de doce. As descobertas e práticas sexuais de Beto Nunes são relatadas extensamente ao largo do livro em tons profanos: o incesto com a tia Ester, a violação metafórica do sagrado pela ejaculação em um pão feito por sua própria mãe, a segunda iniciação sexual num cabaré onde seu pai o levara e a relação proibida com a namorada Martha comprometida com outro.

O mundo literário curitibano é visto em suas facetas de avanço ou decadência, restando poucas figuras respeitáveis por suas obras, entre elas o personagem Valter Marcondes, identificado como o crítico literário Wilson Martins e o próprio Geraldo Trentini/Dalton Trevisan. Uílcon Branco/Wilson Bueno, recentemente morto, era o editor do jornal Maria, que na realidade se chamava Nicolau, e estava circunscrito no grupo de literatura neobarroca latino-americana, sendo visto como autor de uma obra preciosista e de valor apenas para a história literária; Valério Chaves/Valêncio Xavier, falecido em 2008, era o vanguardista que aparece também desfavoravelmente em Chá das cinco com o vampiro por escrever uma literatura trash e feita de montagens e colagens. O publicitário Antônio Akel/Jamil Sneg, é um cronista e escritor que detém o respeito, a amizade e a simpatia do personagem-narrador. O colunista político Orlando Capote/Fábio Campana carrega a dupla imagem do jornalista bem-sucedido e do escritor medíocre.

O jovem discípulo e aprendiz de escritor intenta superar o vampiro mestre da ficção curitibana, além de todos aqueles que o incensam e cercam, numa admiração ampla e inesquivável. Beto Nunes não se importa com as gerações a que pertencem, com os livros que publicaram ou com os títulos que ostentam, pois sabe que irão transformar-se em futuros desafetos, uma prática normal na província. O processo de troca, convivência e conhecimento estético entre o autor e o contista curitibano iniciou-se pelo lado considerado sério da escrita, a análise literária do romance A polaquinha, de Dalton Trevisan. Entre outras coisas, as circunvoluções paródicas do erotismo são apresentadas como a maneira que as prostitutas encontram para resistir e enfrentar gigolôs, homens casados e jovens em busca da primeira experiência sexual, através da dissimulação e da aparente fragilidade. Não configura nenhuma coincidência o fato de que um dos textos inaugurais da lavra de Miguel Sanches Neto ter sido justamente O artefato obsceno: visitando a polaquinha (1994), editado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (onde o escritor leciona), sob a forma de um breve ensaio acadêmico.

domingo, 4 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXVI

OS VAQUEIROS


I

Quem viveu na caatinga
e foi criado no mato,

nascido na Cacimbinha
entre Sertânia e o Brabo

pode não ter mãos certeiras
na derrubada do gado,

pode não ter mãos de seda
nem feitas de muitos calos,

mas guarda os que a caneta
lhe trouxe de verso e palavras

escritas na força e peleja
do poeta com seus fantasmas,

de menino que veio cedo
estudar e morar na cidade.

II

Quem foi criado no mato,
no ermo dos tabuleiros

já teve o traquejo do gado
gostando de ver no terreiro

das fazendas ou soltos no pasto
os bichos sobre os lajedos

pulando barrancos e grotas
tangidos pelos vaqueiros.

III

No Sertão há meninos vaqueiros
sem medo correndo prado.

Há os vaqueiros mais velhos
nas pegas de boi pelo mato.

Também os mais jovens vaqueiros
com sua sanha e amor pelo gado.

Há ainda as mulheres vaqueiras
que humanizam essa arte de macho.

E tem ainda os poetas vaqueiros
que improvisam aboio e toada.

IV

Mesmo que certos vaqueiros
atalhem o gado de moto

a tradição não se acaba
por ser ela a mais própria:

Tanger boi a cavalo
junta trabalho e esporte

e vem de tempos antigos
que não se tinha o transporte

perigoso, enviesado, de aço
de quem viaja em duas rodas.

V

O que mais conta ao vaqueiro
é a destreza no trato com os animais.

O que mais vale ao vaqueiro
é o lento preparo de bois e cavalos.

Cavalos para sela e torneio.
Bois para as festas de vaquejada.

VI

Mais de cinquenta léguas
tangem boiada os vaqueiros,

arreios recurvos nas selas
atrás de negócios nas feiras

do Sertão e Agreste, na leva
pastoril das rédeas ligeiras.

Contornam estradas e serras,
previnem o estouro e a perda

de reses só confiadas a eles.
Descansam à sombra das árvores

próximas de pasto e riacho
em terras de cacto e veredas.

Prosseguem ao sol incidente
nos verdes de cinza e distância

quando o gado desfila pungente
mugidos de preguiça inconstante

e desolado o azul se faz lento
aboiar pelo ermo horizonte.

sábado, 3 de julho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXV

LEMBRANDO CARLOS PENA

 Carlos Pena Filho fez sua estreia na poesia em 1952 com O tempo da busca, volume de poemas magro e apropriado à sua condição de jovem poeta. Nascido no Recife, em 17 de maio de 1929, desde muito cedo se afirmou como personalidade singular de poeta em franca e rápida expansão. Ao absorver a experiência concreta com o mundo sensível na atividade de maior peso em sua vida e na qual conseguia suas melhores realizações e sucessos, a poesia, desenvolveu um lirismo emocionado e subjetivo. Com o apuramento de uma sensibilidade estética privilegiada, contrapôs a esse lirismo limpo e arrojado poemas de vertente social e popular. E serviu-se do mesmo cuidado tanto com as estruturas fixas e tradicionais ocorrentes no lírico, quanto com as formas livres presentes nos poemas de raiz mais nordestinada. Tais poemas constantes no bloco Nordesterro, e no poema longo que se desdobra em outros, Guia prático da cidade do Recife, exerceram também o papel de afastar certa noção de purismo requerida para Carlos Pena Filho por companheiros de geração.

A mudança de orientação diccional nos poemas de Nordesterro revela uma faceta poética social e radicalmente oposta ao maneirismo formalista neoparnasiano apreendido da geração de 1945, façanha até então inimaginável num poeta que se diferenciava pela realização lírica de sua poesia. E isso vai culminar numa poética urbana de rara eficácia, representada pelo Guia prático, poema com feitio de inventário da cidade solitária em meio a seus transeuntes, prédios e rios. Assumindo uma atitude desse tipo, rompia de modo corajoso as amarras políticas de seu próprio meio e convivência, de cunho liberal. Essa nova prática demonstrava que o poeta não estava impregnado apenas de sonetos líricos e subjetivistas, mas poderia ser capaz de trabalhar conteúdos de maior impureza, como os referentes ao sociopolítico, ao rural e ao urbano escritos em linguagem contundente e desabrida.

Carlos Pena destacou-se como um dos poetas mais vigorosos da década de 1950. Devido ao seu temperamento boêmio, as suas vivências pessoais seriam sublinhadas por uma vida literária e intelectual movimentada e enriquecida de muitas solicitações e atividades.

Não se teve notícia até agora de nenhum evento ou iniciativa de âmbito público ou privado para lembrar a passagem dos 50 anos da morte de Carlos Pena Filho, em 1º de julho deste ano. Da parte de entidades culturais e oficiais, o silêncio em torno do poeta que tanto cantou e amou o Recife é frio e majestático, restando o sentimento individual disperso dos que o leem e continuam a admirar a sua poesia. Não é de nenhum modo justo nem animador esse esquecimento a que vem sendo submetido em sua própria cidade, quando se pensa que ele tem a maioria de seus leitores distribuídos por aqui. Contudo, não é possível negar que existem também grandes leitores da poesia do Livro geral espalhados por todo o País, certamente porque a leitura de seus versos não suprime a fruição e o prazer provocados por uma conformação altamente fluente e musical que os reveste.

Todo o desempenho lírico e estético do poeta que viveu e escreveu como um dos mais autênticos e entusiasmados recifenses, realiza-se numa obra que, se não extensa numericamente, mostra-se competentemente elaborada e trabalhada no pequeno circuito de uma década e meia. Impiedoso e irônico com o lado superficial e obscuro da cidade, repudiava seus surtos conformistas e a banalização conservadora e padronizada de comportamentos e relações. Sem excluir a força dessa indignação, pode-se partilhar ainda da descoberta lúdica de um mundo solar e marinho, luminoso e desértico ao mesmo tempo, que permeia frações e núcleos significantes de sua poesia. Ao largo de seus versos e estrofes de construção impecável, notadamente naqueles poemas em que se sente a presença do poeta pleno e maduro, confirma-se o percurso exigente de uma poesia que sempre buscou, da adolescência à morte prematura, as melhores soluções e definições acompanhadas dos mais convincentes resultados estéticos.
(In: Jornal do Commercio, Opinião, Recife, 19 de junho de 2010.)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXIV

RAVELSTEIN
UM LIVRO IRÔNICO E INQUIETANTE

Uma década depois de seu aparecimento, Ravelstein se coloca ainda hoje como livro saudavelmente irônico e inquietante, além de provocante e explosivo. É o último livro de Saul Bellow (1915-2005), judeu americano nascido no Canadá e prêmio Nobel de 1976. Outras obras de Bellow, dentre o seu considerável acervo ficcional de décadas diferentes, como Por um fio, As aventuras de Augie Archer, O planeta do Sr. Sammler e Dezembro fatal despertaram a curiosidade do público americano e europeu pelas verdades do escritor ditas em tom polêmico e desassombrado, sem medo de desagradar a ninguém. Apareciam nas suas páginas referências repetidas das consequências desastrosas da Grande Depressão de 1929 em diante, das duas guerras mundiais e do anti-semitismo massivo e intercontinental, do ceticismo perante a América como a nação mais influente e democrática do planeta em contraponto com a vida miserável da gente esquecida dos guetos, bairros amontoados e similares de favelas tropicais. O mundo da alta cultura e da crítica não poderia desprezá-lo ou ignorá-lo, pois no seu desempenho narrativo encarregava-se de falar em absoluto a seu tempo, sem renegar a sintonia com um passado literário demasiado próximo ou distanciadamente clássico, e sem deixar de projetar e confrontar situações de sua própria época com essa tradição e os dias vindouros.

Judaísmo e guerra, velocidade tecnológica e desmoronamento progressivo do corpo, filosofia grega e gastronomia francesa, música clássica e esportes, compõem um conjunto de assuntos e uma sequência de acontecimentos desenvolvidos em Ravelstein (Rio de Janeiro, Rocco, tradução de Léa Viveiros de Castro). Ravelstein, um conhecido e bem-sucedido professor de filosofia política pede a seu amigo escritor Chick que faça a sua biografia. Ravelstein se encontra à beira da morte, acometido por vários males infecciosos, entre eles AIDS, mas resiste com determinação e coragem enquanto o corpo se decompõe vertiginosamente. O escritor reluta bastante, pois sabe que ao biografar o filósofo estará também retratando a si mesmo, ao considerar que os ligava uma amizade de várias décadas. É aí que reside o viés polêmico do texto: Bellow, identificado como Chick, – e Abe Ravelstein como o filósofo Allan Bloom (1930-1992) – teria cometido exageros no perfil e na visão do amigo. Mesmo que a obra tenha todo um lastro ficcional, a introdução de situações reais e ainda muito recentes da vida de ambos foi contestada, talvez pela maneira extremamente crua, sincera e irônica que Bellow utilizou.

O escritor e o filósofo promovem um duelo intelectual que expõe no limite o que pensam sem escamoteações. São diálogos encetados e construídos com a finalidade de analisar a alma por dentro, o flagrante nem sempre previsível das intrincadas relações humanas, a falta de entusiasmo nas coisas que são feitas como rotina. E também a corrida desabalada das últimas décadas do século 20 em direção a um caos irreversível e às vezes não identificado, ensejando a luta inglória pela sobrevivência entre predadores de todo tipo, o consumismo exacerbado e a indiferença pelo humano e o humanismo, a metafísica cambaleante, cambiante e teimosa por isso viva ainda, a tremenda desesperança dos rostos da maioria desorganizada.

O escritor se manifesta a partir do novelo literário de suas percepções, falhas, defeitos, titubeios, vacilações e acertos. O filósofo a partir do saber acumulado numa inteligência privilegiada volta-se para as causas da loucura do mundo moderno de informatas, burocratas e tecnólogos, estabelecendo a conexão possível entre o mundo antigo e o declinar do século 20. Filósofos gregos são trazidos e retransformados para a atualidade da alta política liberal europeia e norte-americana. Surgem daí reflexões sugestivas e entremeadas sobre Platão, Sócrates, Maquiavel, Rousseau e Keynes. O mundo patriarcal, monoteísta e dominador de Moisés permite que se fale sobre Jerusalém e a longa tradição das Escrituras, sobre a condição dos judeus agora incluídos geopoliticamente em países e continentes, mas ainda com sanções e efeitos restritivos nem sempre explícitos.

Ravelstein, um homem de muitos desafetos intelectuais, era o controlador dos amigos (monitorava os casamentos de Chick), de alunos (incitava-os a afastar-se de suas famílias, a imitá-lo na aparência exterior de ternos, gravatas e sapatos caros) e de quem quer que fizesse parte de suas relações acadêmicas, mundanas ou de amizade. A dependência de Chick relativamente a Ravelstein era apenas aparente e parcial, pois o escritor pensava por si mesmo e uma ou outra vez não desejava contrariar o amigo. Essa suposta humildade de Chick, que defendia a conversa franca entre ambos que nada deveriam esconder um do outro, talvez seja responsável pela extrema acidez e pelo humor constante que destila no perfil traçado, para muitos críticos e colegas do filósofo, incômodo, ao expor pós-morte fatos que não eram de domínio público.

Quando Ravelstein, que sempre gastou mais do que podia, chega a endividar-se sistematicamente, Chick propõe que ele escreva um livro sobre sua experiência acadêmica. A grande semelhança Ravestein-Bloom começa nesse ponto: o filósofo publicou em 1987 O fechamento da mente americana (The closing of the American mind), com prefácio de Bellow, um best-seller contundente, que vendeu milhões de exemplares e o tornou um sujeito rico, podendo transitar sem economizar em lugares luxuosos de Paris, manter um apartamento no mesmo hotel onde estava hospedado Michael Jackson, comprar acessórios pessoais, louça e prataria sem pensar nos seus custos dispendiosos. Os hábitos alimentares de Ravelstein são explicitados numa passagem esclarecedora, num almoço promovido pela esposa do fundador do seu departamento universitário: “Abe Ravelstein, na época um jovem membro do corpo docente, foi convidado para um almoço em homenagem a T. S. Eliot. Marla Glyph disse para Abe Ravelstein quando ele estava indo embora: – Você bebeu do gargalo da sua garrafa de Coca, e T. S. Eliot estava olhando, horrorizado.”

Um tema recorrente nas obras de Bellow, como não poderia deixar de ser, é o papel do nazismo na vida dos judeus, que continua a abrir sequelas quando nele se pensa a fundo. Ravelstein, um ateu liberal e filósofo de algumas ideias próprias, que aprendeu o esotérico em filosofia com seu mestre Leo Strauss (no livro, Davarr) não descarta totalmente o talento de apenas um nome vinculado aos nazistas, o do escritor francês Cèline. Mas a condição judaica de Ravelstein, aliada a uma mente de inteligência poderosa e contestadora, permitiu a exposição de uma visão independente, polêmica e diferenciada que atacava em todos os flancos as feridas recentes das duas guerras, a exclusão judaica de muitas decisões populares e nos altos círculos intelectuais e políticos de países. Essa mesma condição facilitou o envio de torpedos filosóficos e políticos envenenados no rosto sorridente da América do século 20: a falência do sistema educacional norte-americano, a paralisia da juventude entupida de rock’n roll, o engessamento de professores acomodados em sua rotina ideológica de esquerda ou de direita, a defesa intransigente da educação como formação de cabeças e quadros novos para exercer funções importantes nos setores públicos e privados do poder, que contribuíssem efetivamente nas escolhas políticas e econômicas de eventos como negociações envolvendo guerras, conflitos raciais e religiosos, invenções científicas e tecnológicas.

Críticos americanos não conseguiram entender como o filósofo convivia no cotidiano com seu ateísmo militante, seus impulsos conservadores e seu desregramento sexual. No final, ele reconcilia-se com o judaísmo, mas mantém a base pragmática e eclética de sua filosofia e não mais se importa com o risco advindo de parceiros ocasionais de rua. Bloom-Ravelstein afirmava que os seus mentores intelectuais poderiam ser listados rapidamente, mas nada era tão simples assim: Sócrates para o discurso filosófico, Maquiavel para o político, Nietzsche para o niilismo distribuído em modos de concepção diferenciados para americanos, judeus, ingleses, alemães, italianos e franceses, além de Rousseau para instigar o individualismo, a auto-exclusão da maioria como rebanho que não pensa, ou não pensa em termos do bem-pensante filosófico.

Chick adoece ao comer um peixe estragado numa praia caribenha, escapando da morte por pouco. No longo período de convalescença é que decide dar início à escrita de Ravelstein, cumprindo a promessa feita no leito de morte de Abe. Bellow-Chick admirava o raciocínio filosófico radical e a capacidade do amigo em mobilizar grandes plateias na Europa e nos Estados Unidos, para divulgar suas ideias em larga escala, nem sempre aceitas compulsória e compassivamente. Na última frase do livro, “Você não desiste facilmente de uma criatura como Ravelstein em favor da morte”, Bellow reconhece a presença de uma figura excepcional que não se acaba com o corpo. Pensamento e matéria, ideias e necessidades diárias que puderam andar juntas enquanto complementares de um mesmo jogo, se revelam onipresentes na experiência efêmera e dessacralizada da vida em confronto e simbiose com a violência inesperada e pacificadora da morte.

CRÔNICA-POEMA ESPORTIVA DE
PAULO MENDES CAMPOS

O jornalista e escritor mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991), dividia seu tempo entre a crônica, a poesia e a vida boêmia. Era um expert em futebol e em frases espirituosas e bem-humoradas. Ao longo de sua vida teve colunas diversas, fixas ou menos duradouras, em jornais e revistas. Nesta crônica-poema, Paulo Mendes homenageia os jogadores da seleção brasileira de 1962, que ganharam o bicampeonato mundial. Ela compõe o livro O gol é necessário: crônicas esportivas (RJ, Civilização Brasileira, 2009, org. Flávio Pinheiro) e intitula-se 13 maneiras de ver um canário. Dos treze canários que o poeta cantou, dois não eram titulares, Pelé e o homem da rua. Mas gozavam da importância dada aos demais, pela condição de fenômeno de um e pela indispensável torcida do outro. Vamos à crônica-poema:


13 MANEIRAS DE VER UM CANÁRIO

I

Gilmar, quando Deus é servido,
come um frango
psicanalítico
por partida. Depois tranquilo-tranquilo, fecha a porta do inferno.

II

Vê Djalma Santos, indo e vindo, saltando, disparando,
correndo, chutando, cabeceando, apoiando, defendendo,
corrigindo, ajudando às vezes, inexplicavelmente, até sorrindo
em seu combate.
Vê Djalma Santos e reconhece logo:
ele acredita em Deus, é um servo de deus, um lateral direito
de Deus.

III

Mauro afirma em Marden, Samuel Smile, na força da vontade,
na vontade da força, na constância do caráter, na vitória
suprema da coragem, e em todos os sentimentos de aço, que
eu, por exemplo, não li.

IV

Nilton Santos confia na bola; a bola confia em Nilton Santos;
Nilton Santos ama a bola; a bola ama Nilton Santos.
Também nesse clima de devoção mútua não pode haver problema.

V

O povo disse tudo: antes Zózimo do que mal acompanhado.

VI

Zito é mensageiro de dois mundos:
o da vida, na área adversária (onde residem os mistérios gozosos)
e o da morte, na área do coração brasileiro (onde residem os
mistérios dolorosos).
Zito ziguezagueava zunindo para o Norte.
Zito ziguezagueava zunindo para o Sul.

VII

Como o poeta limpando as lentes do verso,
como o microscopista debruçado sobre o câncer,
como o camponês a separar o joio do trigo,
como o compositor a perseguir a melodia,
o futebol de Didi é.
É lento, sofrido, difícil, inspirado, idealista.
Eis um homem que quase achou o que não existe: perfeição.

VIII

É pela cartilha da infância que se joga futebol.
Garrincha vê a ave. Garrincha voa atrás da ave.
A ave voa aonde quer.
Garrincha voa aonde quer atrás da ave.
O voo de Garrincha-ave é a chave,
a única chave.
E um bando de homens se espanta no capim.

IX

Vavá não crê, Vavá confere, Vavá vai ver.
Zagueiro faz escudo das traves da chuteira:
Vavá vai ver.
Goleiro faz maça medieva do osso do joelho:
Vavá (de Pernambuco)
vai ver.
Para o que der e vier, Vavá vai ver.

X

Há uma dramaticidade em Pelé que eu não me consinto adivinhar.
Como Cristóvão Rilke, Pelé tem um canto de amor e de morte.
Como Cristóvão Rilke, Pelé é o porta-estandarte.
Como o de Langeneau, Pelé está no coração das fileiras mas está sozinho.

XI

E eis que um jovem disse: “Quando vinha acaso um leão ou urso e levava um carneiro do meio do rebanho, eu corria após eles e os agarrava e os afogava e matava; o mesmo que fiz a eles, farei a este filisteu.” E foi assim que Davi-Amarildo liquidou Golias-Fúria com duas pedradas de sua funda.

XII

Minuto por minuto, durante 540 minutos, Zagalo cumpriu o seu dever.

XIII

Olhei por fim o XII canário
e era o brasileiro anônimo da rua, do mato, do mar,
o coração batendo, bicampeão do mundo.


O QUE DISSE O ATOR MARCO NANINI
SOBRE O TERMO CELEBRIDADE

Em entrevista recente (Playboy, maio 2010), o ator Marco Nanini (pernambucano do Recife, onde nasceu em 1948), ao afirmar que “celebridade é uma coisa insuportável”, foi instigado a explicar por que. E disparou: “Porque na verdade é um pobre-coitado o cara que se acredita celebridade. É um adjetivo tão vago... Quem disse que você é celebridade? Esse título valoriza demais a vaidade de quem está em foco. Se você acredita muito nesse canto de sereia, isso se reverte contra você. Porque quando você vira uma celebridade, seja em que nível for, isso é uma consequência do que você fez, não é a semente do seu trabalho. E, se você começa a acreditar na consequência, tira o foco do conteúdo do trabalho.”


A FORÇA DA POESIA FESCENINA

Existe uma literatura que não pode aparecer em lugares que exijam certa contenção ou recato, pois o comportamento e a etiqueta de algumas pessoas não aceitam conhecê-la, fazer sua leitura e muito menos ouvi-la. Decerto por isso, o norte-rio-grandense Oswaldo Lamartine de Faria, quando da primeira edição de Uns Fesceninos (Rio de Janeiro, Artenova, 1970), na coleção “Erotika lexicon”, avisava que seu livro era “publicado especialmente para bibliófilos e colecionadores em edição fora de mercado”. As manifestações dessa literatura tanto se veiculam em poesia quanto em prosa, sabendo-se embora que a poesia fescenina tem maior ocorrência do que a segunda, porque a rima é de mais fácil memorização e divulgação.

Um mote bem-sucedido que leva a determinada estrofe fica martelando na cabeça de espectadores ouvintes e poetas que apreciam as diferentes modalidades da poesia popular, estando a poesia fescenina aí incluída. Para que alguém verseje sobre atos cotidianos que desafiem o pudor, que desvelem o escondido da genitália e que exponham situações do ridículo humano, basta que esteja em ambientes coletivos principalmente, na rua ou no bar, na cidade ou no mato, onde quer que ocorram flagrantes que desenredem o novelo popularmente satírico e criativo dessa poesia.

A segunda edição de Uns Fesceninos saiu em 2008 no Recife, pela Bagaço, organizada pelo poeta e professor pernambucano Carlos Newton Júnior. Reproduzida em fac-símile diretamente da primeira, a partir de um exemplar que continha anotações feitas minuciosamente à mão por Oswaldo Lamartine. Envolvendo parte da produção norte-rio-grandense do gênero, deste livro participam 17 poetas com breves contribuições, pequenos poemas quase todos acompanhados de um relato em forma de causo, para ilustrar o acontecimento que deu origem aos versos. O tom é invariavelmente jocoso, gozador, sem papas na língua ou sem peias no lápis de quem os criou.

Os poetas que praticam a poesia fescenina glosam sobre situações as mais inusitadas. Há o caso de um delegado que queria empastelar um jornal interiorano, quando alguém da redação escreveu circunstancialmente num papel qualquer em forma de paródia “Liberdade! Liberdade!/ Onde estás, fela da puta?” O autor do desabafo foi preso pelo delegado da cidade, um sujeito que atendia por Aguiar, e logo após o poeta Damasceno Bezerra cometeu estes versos em cima daquele mote: “Não sei, ao certo, a verdade,/ Do fato como se deu./ Sei que Mesquita escreveu:/ Liberdade! Liberdade!/ E, por infelicidade,/ Um guarda-civil recruta/ Vai entrando, à força bruta,/ Sem nada o interceptar,/ Chamando por Aguiar:/ Onde estás, fela da puta?” A encomenda de um bodegueiro para conter e prevenir os seus devedores resultou na quadrinha de Jayme Wanderley: “Para não haver transtorno/ Aqui neste barracão,/ Só vendo fiado a corno,/ Filho da puta e ladrão.” Os versos anônimos de um ex-detento permitem que ele se vingue impiedosamente do juiz que um dia o condenou. A autoridade funcionava como barbeiro nas horas vagas, mas um barbeiro especial: “Eu afirmo e dou-lhe fé/ com toda convicção:/ Já tem outra profissão/ o juiz de São José./ Tosou Maria José,/ raspou-lhe as beiras da greta,/ por causa dessa faceta,/ é que todo mundo diz,/ que ele, além de juiz,/ é barbeiro de boceta.”

A morte não é levada a sério por alguns poetas. No cotidiano, de resto, pode-se comumente observar pessoas rindo em velórios, bebendo cachaça, fumando e arriscando um namoro. O poeta José Areias, numa roda de cachaça, ouviu de um dos boêmios presentes uma quadra de outro poeta, Américo Falcão: “Não há tristeza no mundo,/ Que se compare à tristeza/ Dos olhos de um moribundo,/ Fitando uma vela acesa”. Areias arrematou com esta quadrinha infame: “Não há tristeza no mundo,/ Que se compare à tristeza/ Do sujeito olhar um fundo,/ Sem ficar de vela acesa”. A última estrofe do soneto “Enterro do pecado”, de Abner de Brito, sugere um rito profano ao comparar o corpo da mulher a um cemitério no qual, numa metafórica sexualizada, será enterrado o pecado: “Abre os teus braços, mata-me desperto,/ Se tens no corpo um cemitério aberto,/ Vamos fazer o enterro do pecado...”.

A condição do pobre, jamais esquecida em poesia, inspirou os versos de Renato Caldas a partir do mote Se merda fosse dinheiro/ Pobre nascia sem cu!: “Talvez não tivesse cheiro,/ Servia de brilhantina./ Ninguém cagava em latrina/ Se merda fosse dinheiro./ Todo mundo era banqueiro!/ Sanitário - era baú,/ Porém aqui no Assu,/ A terra do interesse,/ Se tal coisa acontecesse/ Pobre nascia sem cu...”. O mesmo Renato Caldas, desejando publicar um livro, soube da presença do jornalista Carlos Lacerda em visita ao Rio Grande do Norte, no início da década de 1950. Lacerda estava a promover a campanha contra a seca nordestina “Ajuda teu irmão”, e o poeta aproveitou para sapecar a estrofe: “Seu doutor Carlos Lacerda/ Já que inventou essa merda/ De Ajuda a teu irmão,/ Publique Fulô do Mato,/ Ajude ao velho Renato,/ Poeta lá do sertão...”.

Ainda que seja feita de palavrões, irreverência, sátira e ataque ao duvidoso bom gosto pequeno-burguês, essa poesia continua a transitar de boca em boca, atravessando gerações, cidades e países. Seria difícil alguém imaginar que, por trás da seriedade de um Manuel Bandeira ou de um Carlos Drummond de Andrade, havia os cultores de versos altamente eróticos, sem excluir cargas do obsceno e do pornográfico. Mais recentemente, na obra de um Glauco Mattoso, encontra-se toda uma literatura vinculada ao calão fescenino. Mesmo os que hipocritamente se voltam contra e olham de viés construções desbocadas e chulas, motes lascivos e às vezes impróprios, se tiverem oportunidade, certamente vão conferir e se deleitar sozinhos com o proibido estampado em versos que a musa popular facilitou e ditou aos seus poetas.


A WEB E OS LIVROS

Contrapondo tipos raros de livros e textos ao formato do texto na Web, Alberto Manguel em A biblioteca à noite (SP, Companhia das Letras, 2006, trad. Samuel Titan Jr), argumenta em favor das formas consolidadas e seculares do livro e ataca a compulsão de velocidade que sustenta e caracteriza a Web: “O menor livro do mundo (o Novo Testamento gravado numa tabuleta de cinco milímetros quadrados) ou o códice mais antigo (seis folhas encadernadas de ouro de 24 quilates, escritas em língua etrusca e datadas do século V a.C.) possuem qualidades que não podem ser percebidas apenas por meio das palavras que contêm, e devem ser apreciados em sua presença física plena e única. Na Web, todos os textos têm a mesma forma, convertidos em nada mais senão texto fantasma e imagem fotográfica. Para o usuário da Web, o passado (a tradição que nos levou a nosso presente eletrônico) é irrelevante, uma vez que tudo o que importa já esta ali, à mostra. Comparado a um livro que revela a idade por seu aspecto físico, um texto na tela de computador não tem história. O espaço eletrônico não tem fronteiras. Os sites – essas pátrias autodefinidas – têm seu lugar nesse espaço, mas não o limitam nem o possuem, são como água vertida em água. A Web é quase instantânea, não conhece nenhum tempo senão o pesadelo de um presente constante. Superfície sem volume, presente sem passado, a Web aspira a ser (ou se apresenta como) o lar de todo usuário, onde todos pode se comunicar com todos os outros na velocidade do pensamento. É essa a sua característica principal: velocidade”.


GERALDINO BRASIL: UMA POÉTICA DA HUMILDADE

Sonetos de sol e outros poemas, sexto livro de Geraldino Brasil, pseudônimo literário de Geraldo Lopes Ferreira (1926-1996), foi publicado originalmente no Recife em 1979, numa edição do autor, com impressão executada nas oficinas da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). Na verdade, só chegaria a conhecer o livro em 1982, através do poeta Alberto da Cunha Melo, num encontro informal de poetas no Beco da Fome, após um recital dos poetas independentes, que ocorria sempre aos sábados. O beco ainda existe, está lá nas cercanias da extinta livraria Livro 7 desde o início dos anos 70, só que agora com frequentadores diferenciados dos poetas e escritores de variados matizes que o prestigiavam, dos estudantes e militantes de esquerda oriundos do diretório central que ficava próximo, das menininhas assanhadas e sequiosas de sexo, cerveja e conhecimento do mundo, dos porra-loucas, dos malandros, dos anarquistas e de outros bichos e artistas exóticos que por ali transitavam. Mas o livro, para além do seu valor simbólico e afetivo, resistiu tanto ao entrevero etílico daquele sábado, como atravessou valentemente algumas residências onde me instalei nos últimos anos, desgastado apenas pelo manuseio periódico a par das diversas leituras que fiz dele.

Também nesse período 1970/80, o poeta e crítico colombiano Jaime Jaramillo Escobar veio a descobrir a poesia de Geraldino Brasil no livro Poemas insólitos e desesperados, de 1972, passando a divulgar o nosso poeta e sua obra em Bogotá e outras cidades da Colômbia. Talvez por isto fosse comum afirmar-se no Recife que Geraldino Brasil era mais conhecido na Colômbia do que em Pernambuco, principalmente depois da edição colombiana de Poemas, um outro livro seu de 1982. No entanto, creio não se dispor de elementos seguros para uma afirmação desse tipo, a qual envolveria uma enquete mínima que fosse entre leitores e aficionados de poesia daqui e de lá. O que se sabe com certa margem de segurança é que ele continua sendo pouquíssimo conhecido em Pernambuco – e numa extensão que comportaria talvez um outro risco, no estado em que nasceu, Alagoas.

A primeira seção do livro, “Sonetos de sol”, engloba doze sonetos que têm como núcleo motivador e central o sol, como o próprio título indica. Estes sonetos não primam pelo rigorismo formal do metro mais comumente utilizado, o decassílabo. Eles permitem variações que, se de um lado ensejam dificuldades óbvias de contagem, pela quantidade de vogais soltas e de vocábulos que permitem uma dupla contagem e metrificação, de outro lado os versos se prestam, numa proporção satisfatória, ao que o poeta quis exprimir. Exceto o primeiro da coletânea, “Um soneto de sol para o meu irmão de tristeza, Cézanne” (moldado no rimário do modelo tradicional) e “Sol solidão” (onde há apenas uma quebra de sonorização, nos versos que rimam melhor/amor), os restantes estão vazados em versos brancos ou obedecem a um rimário nitidamente ocasional. Num soneto como “Sol sertão”, de temática áspera e reconhecidamente difícil, Geraldino Brasil alia pelo menos dois elementos característicos e de grande ocorrência na sua poesia: uma espécie de ironia direta e despojada de sofisticações e a solidariedade como marca de fé na vida e no homem: “Sol de que mais se morre que se vive./ Vi a gente de lá. Gente, tinha olhos,/ falava. Só a fome era de bicho./ E fé. O sertanejo é antes de tudo// um crente ou sua fé não é de gente.”

Em “Poemas de ler sem tempo” enfileiram-se vinte e quatro tercetos vazados em hexassílabos, podendo constatar-se ainda uma amplitude de variação métrica que se expande em mais de dezoito versos. Observe-se um exemplo escolhido pela justeza do que enuncia, o poema “Homem moderno”: “Eis o que faço e vou mal:/ do principal o acessório,/ do acessório o principal”. Em tais versos, torna-se flagrante, como um achado inesperado, a admirável síntese dialética – não sem uma certa angústia ou desolação –, presentificada no reconhecimento da inutilidade e do sem-remédio que circundam o fazer criativo, as ações humanas e o malogro destas ações quando pretendem ser e significar. Estes tercetos configuram uma vertente aforística peculiar a Geraldino Brasil, com reflexões pertinentes ou contextualizadas do homem, da vida, do tempo, do mundo, do amor e da morte, entre outros assuntos de escolha universal e recorrentes em poesia.

Na terceira seção do livro, “Conhecimento da solidão”, a forma fixa é descartada – com exceção de dois sonetos, “Amor” e “Na estação”, e de uns poucos poemas aleatoriamente rimados e de métrica irregular. Ele pratica agora o verso longo e desmedido, como se os assuntos enfocados exigissem um maior desdobramento sintático-coloquial. Uma faceta do homem-poeta Geraldino Brasil que reitera uma condição especial de humildade no seu universo poético e humano, pode ser entrevista no poema “No cárcere esquecido”: “Sou um pequeno poeta e não sei ver/ todas as belezas. Mas pelo pouco que vejo/ nem posso imaginar as outras que não sei ver.”

Dois poemas desta série incursionam pela inauguração de uma religiosidade condicionada a um diálogo, em alguns instantes transformado em confronto ou fuga, entre o homem e a divindade. O primeiro deles, “Identificação com o Senhor”, referenda, ao mesmo tempo que põe em dúvida e renega, certas atitudes do “Senhor”: “Eu sou triste, não sou de dizer amém!,/ portanto sou daqui, apegado a estranhos,/ ao sonho, à esperança, ao desespero,/ recusarei o céu,/ antes mesmo da minha condenação (...) Reparem, não é virtude, não me atribuo bondades./ Pelo contrário, é um desentendimento com Deus ou,/ quem sabe?,/ completa identificação.”

Já o drama de um homem condenado ao amor de uma mulher, e lutando por esquecê-la, é narrado em “Desconversa”. Ele tem um santo protetor que sempre o atende, em ocasiões diversas e inusitadas, e resolve apelar para o santo. Ao chegar à igreja, ajoelhar-se e começar a formular o seu pedido, estremece quando lembra que o santo forçosamente o ajudará. É então que se impõem um dilema e uma surpresa, logo resolvidos pelo poeta, onde valem as suas próprias palavras: “E com receio de perder o amor de que sofria,/ com reserva mental desconversou sua oração, tossiu,/ olhou para o relógio, simulou espanto,/ baixou o olhar ao chão, pra não fitar o santo,/ fez um sinal da cruz mal feito e escapuliu.

Ele esmera-se na tematização da infância e suas sugestões infindáveis, no poema “As coisas eram certas”: “Menino, meu futuro,/ a próxima manhã,/ e, certa de chegar,/ não era a espera vã.” Torna-se particularmente enfático quando retrata a circunstância da recepção, nas casas burguesas, de um cão, um mendigo, ou mesmo o leiteiro e o homem do pão em “Ninguém sobrenome não”: “Quando batiam à porta/ do meu santo lar cristão,/ às vezes era um Senhor,/ muitas vezes Ninguém Não (...) E me lembro: tanto ouvias/ o teu nome: - Ninguém Não,/ que se de cá perguntavam,/ respondias - Ninguém Não.” E esmera-se mais ainda na sua condição irrealizada de pintor de naturezas mortas e intérprete eventual de formas e motivos cromáticos, quando intenta substituir a “caneta esferográfica” de poeta um tanto passadista pelo pincel de Cézanne, seu irmão de tristeza, como no primeiro poema do livro, ou em “Quase Modigliani”, poema desta seção.

Fica a constatação de que a seleção destes vinte e dois poemas não obedece a nenhum critério estrutural específico, de forma ou de fundo previamente pensados e elaborados. Mas, devido a essa aleatoriedade que os reveste, eles ressentem-se de certa conformação de conjunto, restando quando não mais uma dicção que enuncia a presença explícita ou, de outro modo, recobre essa presença subliminar do poeta.

A expressão poética deflagrada em Sonetos de sol e outros poemas revela um Geraldino Brasil amadurecido e calejado, pois que à época já entrado nos cinquenta anos (segundo Drummond, referindo-se a Joaquim Cardozo, uma boa idade para poetas). Esta expressão, na sua totalidade, reparte-se em muitas falas e dons, reforçada por um estilo e uma sintaxe que veiculam e ensejam o gosto e a experiência pessoal desse poeta que jamais se afasta das suas fontes geradoras originais, dinamizadas a partir da busca de diálogo direto com um leitor nem sempre acessível. Poética que se retempera também nos arcabouços formais de poemas espalhados em direções multifacetadas: o soneto, o terceto “sintético”, a sextina, o verso livre, longo ou breve, branco ou rimado. E ao circular habilmente por tematizações e complexos conteudísticos e formais sustentados numa poética dividida entre o essencial e a objetividade, ele passa a elaborar a indagação do sentido irrevelado das coisas, além dos destinos e rumos, quase sempre inglórios, reservados ao homem comum no cotidiano.

(“Geraldino Brasil: uma poética da humildade”, Suplemento Cultural da CEPE, ano X, abr. 1997.)


UM POEMA DE FERNANDO PESSOA

O poema abaixo integra o volume Primeiro Fausto, da lavra dos textos dramáticos de Fernando Pessoa, organizado por Duílio Colombini, cuja primeira edição saiu em dezembro de 1986 pelas Edições Epopeia em São Paulo. A única sugestão de título é sinalizada por uma nota do organizador: Encimava o poema a indicação: “Ato III – Cena I”. Afora isso, o poema, no corpus do livro, aparece como o inicial do III Entreato, seguido de “Uma voz” e de outros dois sem titulação. Esse poema caracteriza-se por certo tom goethiano, coisa absolutamente normal, quando se pensa na condição antecipatória do Fausto de Goethe. É revelada, ainda, a faceta “dionisíaca” do Primeiro Fausto em tais versos que cantam o amor sensual e o vinho, numa tentativa de afastar o tédio da vida e a dor terrena:


Cantemos, que a vida
De nada nos serve.
Que em nós a garrida
Canção desmedida
Do vinho referve!

Cantemos, cantemos:
É medrosa a dor
E pegando em remos
Buscando-as viemos
Às praias do amor!

Cantemos as belas
Que sabem amar
Vamos que as estrelas
Sem pudor ou cautelas
Nos vêm escutar!

terça-feira, 25 de maio de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXIII


O PRÍNCIPE MALDITO:
MAZELAS DA REALEZA BRASILEIRA



Não será novidade para os que fazem a comunidade histórica brasileira alguma notícia sobre o livro de Mary Del Priore, O príncipe maldito, por ocasião de sua reedição recente, no Rio de Janeiro, pela Objetiva. É provável, no entanto, que para muitos leitores que não tiveram imediato acesso ao texto, que perderam a oportunidade de lê-lo ou pelo menos folheá-lo na primeira edição em 2007, resenhá-lo agora sirva para chamar a atenção para alguns pontos e problemas. O fato é que a partir do subtítulo expressivo, Traição e loucura na família imperial, o leitor começa a imaginar o que virá nas suas páginas. E, realmente, a autora corresponde ao que se propôs num relato pungente e apaixonado, numa escrita de quem não mediu esforços para chegar ao seu objetivo, através do conhecimento detalhado do seu objeto. Porque nada parece escapar ao olhar de lince da historiadora.

Infância, internato, viagens, estudos, o privado e o externo são investigados com grande riqueza nominativa e documental através de pesquisa abalizada, exaustiva e segura da maioria dos eventos e relações familiares e sociais que absorveram o príncipe Pedro Augusto de Saxe e Coburgo. “O menino que queria ser rei” titula o primeiro capítulo, que enseja uma visada panorâmica em câmara lenta da chegada do navio Boyne, fazendo retornar o imperador Pedro II de terras europeias, no dia 1 de abril de 1872. O imperador, acompanhado de D. Teresa Cristina e dos netos Pedro Augusto e Augustinho, entra no Rio de Janeiro aclamado, recebido acaloradamente pelas forças aliadas que compreendiam ministros, militares, políticos, comerciantes, acólitos, cortesãos e populares. Fizera a viagem de dez meses para, entre outras coisas, visitar o túmulo da filha Leopoldina na Áustria, que morrera um ano antes de febre tifoide.

O príncipe Pedro Augusto, nascido em 19 de março de 1866, estava com seis anos e trazia esse triste legado da perda da mãe Leopoldina, além da ausência constante do pai Luis Augusto de Saxe e Coburgo, o Gusty, que pensava mais em caçar do que dedicar-se aos filhos. Gusty nutria esperanças de completar o quinto império de príncipes austríacos, alemães e ingleses, através de seu filho Pedro Augusto, que alimentava a possibilidade de expansão dessa dinastia europeia, nos anos em que a aristocracia era substituída pela burguesia em ascensão, cresciam o industrialismo e o comércio com evidências nos sinais de consumismo e de uma nova consciência da classe trabalhadora.

Posteriormente, a convivência conturbada com a tia Isabel e o seu esposo francês Gaston, o conde d’Eu, foram experiências que se somaram e levaram Pedro Augusto a estágios constantes de desequilíbrio emocional. O seu suporte era o avô, o imperador Pedro II, que o protegeu e educou após a orfandade, além de alimentar a ideia de tê-lo como seu sucessor. O imperador incentivava também a princesa Isabel a lutar pela sucessão. Essa posição dúbia de D. Pedro II teria consequências desastrosas para a família imperial e a monarquia. Ela iria permitir uma guerra surda, que duraria muitos anos, entre o neto Pedro Augusto e a princesa Isabel. A conspiração de ambos os lados era flagrante: Pedro fez aliados entre os liberais e até entre os republicanos, enquanto que Isabel tinha a seu favor abolicionistas e a gente da Igreja Católica. A circunstância de ser a filha mais velha do imperador dava-lhe direito constitucional ao trono nas viagens de Pedro II. O seu primeiro filho homem seria o sucessor natural, que nasceria somente em 1875, defeituoso de uma mão e recebendo o cognome real de príncipe do Grão-Pará. Representava uma ameaça a mais aos planos de Pedro de Alcântara, que ficara tão irado, invejoso e ressentido quanto a princesa Isabel, nove anos antes, no momento do nascimento do próprio Pedro.

A carolice da princesa e a assinatura de leis abolicionistas serão suas fraquezas maiores na luta pelo trono, gerando antipatia de uns (políticos, maçons e fazendeiros) e empatia de outros (escravos e católicos). Aliás, a passagem de Deodoro da Fonseca, antes amigo e comandado do imperador, para o lado dos republicanos, foi tida como um ato de vingança e retaliação contra Gaston, genro de Pedro II e marido de Isabel, que lutou na guerra do Paraguai substituindo Caxias, cometeu vários equívocos e deslizes arriscando vidas de brasileiros, tendo, entretanto, voltado como herói.

Uma viagem de Pedro Augusto com os avós à Europa entre 1887 e 1888 revela as suas qualidades de bon vivant, de engenheiro conferencista e colecionador de minerais, do articulador de si próprio visando o reinado brasileiro. Foi recebido pela nobreza do Velho Mundo e chamou a atenção da imprensa por onde passava, que não deixava de registrar positivamente os eventos dessa viagem. Há rumores de um suposto casamento do príncipe e as pretendentes são muitas, mas ele, solitário inveterado, pensando somente em reinar, e mesmo depois de ver frustradas suas aspirações, permanecerá solteiro por toda a vida, não tendo jamais se livrado dos efeitos da ausência do amor materno.

O acompanhamento cronológico da situação histórica da segunda metade do século 19, dos seus eventos políticos, literários e artísticos pelo mundo, autoriza a classificação do livro como literatura de não-ficção. Isso gera, também, efeitos perceptivos de outra ordem, como o deslocamento e a interpenetração de datas, estabelecendo o sincrônico de algumas décadas. Contudo, aparecem momentos em que Del Priore se deixa seduzir pela ficção, ao utilizar recursos desta, apesar de não se afastar totalmente da imagética realista renitente, da metáfora dura dos narradores historiógrafos e da ironia severa decalcada em pontos inesperados do texto. O relato biográfico excessivamente datado e descritivo transcende o histórico em passagens e trechos em que a escritora se aproxima da crônica em fragmentos e instantâneos da ficção, dando lugar a insights narrativos bem característicos do texto literário.

O príncipe maldito tem o mérito de humanizar a família real brasileira, de olhos azuis e ramos mais que misturados, a exemplo dos opostos Orléans e Coburgo. A obra mostra ainda que a estirpe da nobreza era tão mortal e tão suscetível a fatores externos e cotidianos quanto qualquer pessoa que não fizesse parte dos seus círculos fechados e reservados. O leitor, qualquer leitor, especializado ou não, se acaso entrar no embalo da leitura, terá dificuldades em abandonar o livro antes de ter virado a página final.

A loucura do príncipe D. Pedro vai intensificar-se ainda mais após a expulsão da família imperial do Brasil, com a proclamação da República. Tentará o suicídio, será internado em manicômios e clínicas, e falecerá, aos 68 anos, no sanatório austríaco de Tülln. E se aquele leitor optar por conferir depois as páginas pretas em tipos brancos que iniciam o livro, não sem intencionalidades editoriais visíveis, conhecerá as raízes de todas as mazelas do príncipe Pedro Augusto, em convulsão, isolamento e exílio na cabine de um navio em direção à Europa, sinalizadas pela morte precoce da mãe e pela não consecução do trono brasileiro.


UM POEMA DE SEVERO SARDUY

O cubano Severo Sarduy (1937-1993), adotou a escrita do grupo agora menos disperso de poetas e prosadores neobarrocos latino-americanos. O texto que se vai ler encontra-se no livro Jardim de camaleões: a poesia neobarrooca na América Latina (2004), organizado por Cláudio Daniel. O poema “Morandi” foi traduzido por Glauco Mattoso e representa uma espécie de homenagem ao italiano Giorgio Morandi, um inovador da pintura de natureza-morta. Sarduy nomeia os objetos e depois os apresenta nas suas relações com o ambiente, vívidos em sua nitidez e obscuridade, como se partilhassem do movimento e da inércia de todas as coisas. Mostramos a versão bilingue do poema:


MORANDI

Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.
Sem outra utilidade ou pertinência
que estar ali, que dar à consciência
um casual pretexto, mas não grafa

o traço humano que ora inflama, abafa
a luz ou que ali beba. Em tudo a ausência:
paredes que, caiadas, dão ciência
que ali ninguém repousa nem se estafa.

Somente é familiar a luz acesa
que põe sobre a toalha posta à a mesa
a sombra que se alarga: o dia quedo

do tempo o passo segue em sua vaga
irrealidade. A tarde já se apaga.
Abraçam-se os objetos: sentem medo.


MORANDI

Una lámpara. Un vaso. Una botella.
Sin más utilidad ni pertinencia
que estar ahí, que dar a la consciencia
un suporte casual. Mas no la huella

del hombre que la enciende o que los usa
para beber: todo há sido blanqueado
o cubierto de cal y nada acusa
abandono, descuido ni cuidado.

Sólo la luz es familiar y escueta
el relieve eficaz: la sombra neta
se alarga em el mante. El día quedo


sigue el paso del tiempo con su vaga
irrealidad. La tarde ya se apaga.
Los objetos se abrazan: tienem miedo.


CÉSAR LEAL, CRÍTICO

A obra crítica de César Leal foi publicada em dois volumes intitulados Dimensões temporais na poesia & outros ensaios (2005). que somam mais de 1.100 páginas. Os textos enfeixados no volume 1, às vezes revistos, contemplam ensaios e estudos antigos já publicados em outros livros como Os cavaleiros de Júpiter e A palavra como forma de ação. São republicados estudos memoráveis sobre autores universais e de há muito consagrados como Dante, Thomas Mann, Gil Vicente, Camões. Entre os ensaios sobre brasileiros, Machado de Assis, Jorge de Lima, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Pena Filho. Este volume mantém uma certa coerência sinalizada pelos autores escolhidos, que representam uma linha de pensamento ao nível da competência poética tanto em seus aspectos clássicos como nas incursões pela modernidade.

Os trabalhos mais novos, às vezes inéditos em livro, que mostram uma produção mais eclética, ficaram para o volume 2, com textos sobre artes plásticas, teoria e história literária e ainda um bloco final com diversos poemas-homenagem dedicados a outros escritores ou a amigos do autor. Podem estar juntos, neste volume 2, poetas tão diferenciados e díspares como Ezra Pound e Weydson Barros Leal, Soares Feitosa e Octavio Paz. O fato relevante é que no âmbito da crítica literária ele fez sempre questão de deixar clara sua opção pela crítica de poesia, desde o aparecimento dos primeiros trabalhos em forma de artigos ou conferências na década de 1950. Sob esse ponto de vista, não se esquivou à problematização dos movimentos e tendências críticas mais importantes do passado e do presente – o new criticism, o estruturalismo, o formalismo russo, o impressionismo, o desconstrucionismo. Os preceitos propalados pelos grupos literários que assinam tais tendências o levaram a servir-se de um amplo acervo teórico para utilização analítica e interpretativa no poema, resultando numa propensão para enfatizar mais o efeito dos elementos expressivos do que comunicativos em poesia.

No ensaio “A crítica literária no Brasil”, registram-se afirmações que apenas corroboram o que pensa a respeito de poesia e técnica expressiva: “Na modernidade, o importante no poema não são os seus materiais, mas a técnica expressiva. Compreender um poema é compreender sua forma, sua estrutura linguística, seus sinais, suas obscuridades, pois a poesia moderna está escrita assim e não como desejariam seus críticos, seus autores, os apreciadores e desapreciadores de sua expressão. Expressão do poeta ou expressão do estilo que eles representam. Temos, ainda, de levar na devida conta aqueles críticos sofisticados aprisionados em seus próprios sistemas, ou os que não admitem modificações no cânon das artes”. Alguns autores imprescindíveis para ele, principalmente ingleses, alemães e norte-americanos, podem encontrar-se hoje um pouco afastados das discussões literárias, sendo, no entanto válidos em setores isolados e em compartimentos específicos de suas obras, a exemplo de T. S. Eliot, Ezra Pound, Dr. Richards, E.R. Curtius, René Wellek, e ainda Hegel e sua estética, que aparece constantemente no sistema crítico de César Leal.

No exercício público da crítica, César Leal especializou-se e revelou idéias próprias a partir de suas reflexões e leituras, assumindo a defesa de uma associação poesia-crítica-ciência, com a vinculação do poeta e do crítico às tendências da física de nossos dias, para enriquecer o instrumental científico-literário e humanista de ambos. E isto, para uma melhor compreensão do universo pós-Newton, com o acréscimo da relatividade e da multidimensionalidade do espaço-tempo. Com o elastecimento do universo, seria ideal que o homem também fosse privilegiado com a abertura da sua própria cabeça, com um pensamento que se distanciasse cada vez mais da barbárie e das práticas reacionárias e retrógradas, adquirindo uma visão voltada para o futuro e para a busca de um mundo melhor. Tal percepção cosmológica se sustenta nas mudanças que não poderiam deixar de acompanhar aquelas transformações científicas e tecnológicas socialmente benéficas e suas contribuições ao desenvolvimento, na atualidade do tempo, de um espírito cosmopolita cultivado e culto, amante da poesia e das artes.

A combinação de erudição com um forte estilo argumentativo, não representaria elemento motivador definitivo para que seus desafetos – a quem chama de “filisteus”, e desautoriza pela carga de intuição que demonstram, embora decline de dizer seus nomes – afirmassem que a crítica e a poesia de César Leal seriam excessivamente intelectualizadas. A leitura de seus textos críticos, de um modo geral, se verifica no âmbito da exposição clara e da expressão compreensível, mesmo que alguns assuntos tragam dificuldades imponderáveis para serem explicados e absorvidos. O ensaio curto pode vir iluminado por uma súbita reflexão ali colocada para deleite, informação e também reflexão do leitor.

Outra qualidade de sua crítica é a sinceridade de propósitos que encampa, sem deixar de apontar as fraquezas de concepção ou realização de autores que ele mesmo admira, mas sem se recusar também ao elogio como reconhecimento da excelência textual. Em muitos momentos, César Leal poderá parecer alguém que detém uma boa fatia do saber literário, contudo sem ser partidário de uma prática exclusivista da retenção de idéias e afirmações, fazendo questão de alardeá-las e divulgá-las onde quer que possa chegar o seu alcance. Esta edição comemorativa dos 80 anos do poeta-crítico, organizada por ele mesmo, tem uma função didática irreprimível, pela vasta informação histórica, pelo desempenho teórico sem vacilações e pela responsabilidade das opiniões e julgamentos emitidos, que apenas promovem a ampliação do conhecimento literário, contemplando desde a época dos clássicos até os dias mais recentes.

“César Leal, crítico”, Continente Multicultural, ano VI, nº 61, jan. 2006.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXII

FERNANDO MONTEIRO & ANNA AKHMÁTOVA:
UM DIÁLOGO POSSÍVEL DA POESIA OCIDENTAL

Pode parecer estranho um poeta escrever todo um poema longo estimulado pela visada instantânea e avassaladora de um rosto feminino numa fotografia antiga. A imagem em preto-e-branco deflagra uma viagem ao fundo da herança poética e cultural planetária acumulada, que passa a envolver referências antigas, presentes e em constante progressão resguardadas no seu refluir greco-romano, medievo e iluminista, e somadas aos oráculos orientais nas vastas paisagens de montanha e deserto. Completando esse veio elastecido em verticalidade poética e desdobramento cultural que atravessa os séculos, do 19 em diante são trazidos a lume e em razoável proporção os rumos e descaminhos reinventados e deslindados pela poesia de amor e de guerra no Ocidente.

Antes deste Vi uma foto de Anna Akhmátova, Fernando Monteiro já carregava em seu fazer literário um êxito comprovado por várias obras de ficção e poesia que ultrapassaram as fronteiras locais. A escrita de livros alternando-se numa fatura estética que contemplava certa diferenciação peculiar entre cada um dos volumes lançados, mesmo pensando-se naqueles de prosa seriada. Na elaboração de poesia, cada texto mostrando-se formalmente desvinculado do anterior, o autor não se distanciando da inteireza de seu estilo, permitindo que traços diccionais e itens de linguagem se tornassem reconhecíveis em sua maneira adotada desde os começos.

Para citar sem consulta, lembre-se aqui esse percurso poético a partir de Memória do mar sublevado, sua estreia em 1973, apresentando um canto solene repleto de ancestralidade e dinastia faraônica. Um balanço enviesado de vida pessoal foi Leilão sem pena, publicado na voga pernambucana da Pirata, num tempo de resistência política, culto entusiasmado ao cinema e incursão pelas artes plásticas. Monteiro vai passar por uma experiência de especial inquirição metafísica em A interrogação dos dias. Sem perder de vista o impulso e o empenho empregados no ritmo ágil, mas que às vezes se arrasta, transparente e obscuro ao mesmo tempo, temperado fortemente pelas passagens de melancolia e depressão e pelas tiradas da sensibilidade irônica. E chegará, quem sabe se em simultaneidade, à exatidão centrada na consecução milimétrica de vocábulos, versos e estrofes em cadência matematicamente obsessiva com Ecométrica.

Em Vi uma foto de Anna Akhmátova uma solidariedade surda e rebelada vasculha o lastro histórico de guerras e revoluções repisadas de sangue dos inícios do século 20, trazendo a lume as numerosas e insanas perseguições que sofreram poetas e cidadãos pelos regimes ditatoriais que se locupletavam de sua própria indiscriminação ideológica. A poetisa Anna Akhmátova encontrava-se no rol de censura e cerceamento promovidos pelo Estado russo, que deixou marcas inapagáveis de violência. Os burocratas e dirigentes russos imaginavam que, para a manutenção do regime comunista, seria necessário alinhar ou expurgar os dissidentes, torturando e fuzilando intelectuais, artistas e poetas. Sendo um texto realizado a contrapelo de toda e qualquer tirania, descarta as viseiras da genuflexão política e revela uma faceta social permeada pela constatação corrente, porém sem a amplitude dos resultados práticos, de que qualquer atentado à liberdade do homem sufoca-o e termina por eliminá-lo. Uma opressão sustentada em atos abjetos e excessos de violência difíceis de suportar, faz com que se perca temporalmente a inclinação humana para os desvelos da convivência comum cotidiana e pacífica, na qual, em boa medida, podem ser buscados elos vitais do artístico e do criativo.

A cerveja da Boa Vista não desemboca no chope da Guararapes, e a presença de poetas pernambucanos se afirma indiretamente (Carlos Pena, Bandeira, João Cabral). A inclusão en passant de outros poetas reconhecidos como de alcance nacional reabre velhos problemas, tanto pela absorção questionadora de sentido e matéria abordados, quanto pela negação estética e conceitual que transita nas vias marginais do confronto temático e do modo de expressão de uma época (Drummond e Mário de Andrade). Aqui, na condição interna de leitor crítico, o poeta não resiste e associa sua própria experiência com o poético à experiência desses poetas que se encarregaram de transformar, ao longo de seu tempo, vida em poesia. Há uma transplantação de culturas poéticas em choque para instantes paródicos, miméticos e declinantes únicos, na tentativa de absorção do poema como um todo, afastada do unilateral e aproximada dos sentidos não vistos a olho desprevenido.

Este poema dedicado a Anna Akhmátova, estabelece um diálogo com a poetisa e esmiúça relações pessoais existentes talvez apenas no plano do imaginário da criação. A transferência empreendida flagra sexualidades latentes nas tramas veladas das funções solitárias e desejos indizíveis. Faz aflorar os meandros do prazer algo irracional que consome a sucessão de imagens profusas e apaga os rasgos detalhistas de corpos em solidão ou conjunção carnal, com sua atração irrefreável pelo impossível, o mórbido e o proibido. Morto o corpo, distanciada a alma, os atos se enfronham no presente da imaginação movida pela tremenda insatisfação, compulsão e efemeridade que impulsionam e dominam os jogos sensuais. E Anna vai assumir o papel de Mãe Maior da Poesia, irmã e filha, deusa e mulher, musa e amante.

Fernando Monteiro utiliza largamente esquemas e procedimentos expressivos como associações imagéticas em encadeamentos, enjambements e no palavra-puxa-palavra. Com o sabor diferencial de quem tem fôlego suficiente para manter um ritmo acelerado e eficaz na confecção de recortes, intrusões e incisões no corpo do poema, procura evitar o derramamento baboso e as celulites da fala. Por isso, sua dicção traz uma espécie de contenção cerebral inevitável por ser o autor quem é, por ser quem jamais escondeu sua erudição nem os propósitos de fazer alta literatura.

Neste poema, existem evidências que outros analistas podem facilmente identificar, como os ecos percussivos da “terra arrasada” de Eliot que remetem aos metafísicos ingleses e simbolistas franceses. A visão baudelaireana marginal das ruas que lembram Clarice Lispector e Anna Akhmátova, ambas ucranianas, uma tendo vivido no Recife e a outra fisgada no expressivo da fotografia interna a uma antologia de poesia russa comprada num sebo naquela tarde de setembro de 2001. A aquisição do livro suscita a questão de trocá-lo por cervejas em promoção nos botequins das imediações centrais da cidade, considerando-se a oportunidade de absorver o calor tropical em goles gelados e observando a surpresa indiferente da fauna humana que transita pelos becos, ruelas e praças.

Vi uma foto de Anna Akhmátova não foge da contemplação performática que reconcilia o poeta com o espírito pós-moderno e a alma cósmica. São desencavadas vivências cotidianas e situações particulares somente conhecidas, no andamento da construção do poema, pelo próprio poeta. Paisagens à aparência inalcançáveis e pouco acessíveis a quem está de fora, porém pressentidas em pequenos flashes, que ora se perdem no instante, ora são captadas pela sutilidade da poesia, mesmo que em regime de incompletude. E mesmo que seja assim, o poema continua a ofertar um conjunto de imagens em movimento alternado entre o veloz e o estático. E fornece também uma nova cinética e um novo dinamismo ao olhar que enxerga poesia na escuridão mais cerrada, cuja desfocação persiste sobretudo no encobrimento de estágios sensíveis da fruição humana optante pela não-destruição da vida no mundo.


A MULHER FLUTUANTE

Estavam todos completamente sem ação, todos que ali transitavam naquela hora da manhã sob um sol impiedoso de outubro. Homens e mulheres sem idade e sem rosto, mudos e perplexos ante a cena de transgressão milagrosa que se desenrolava na rua central da cidade. Ônibus, carros de aluguel e de passeio, motos e bicicletas entravam em rota de colisão com seus condutores acionando os freios para melhor ver a mulher. No mesmo passo de perturbação e curiosidade, a gente das lojas, bancas, fiteiros e botequins estancava a venda de roupas, sapatos, sonhos lotéricos, miudezas da ganga pirata, cachaça e cigarros.

Ela começou por acariciar o vestido que parecia feito da conjunção de pedaços de pele de tomate intensamente plástico e vermelho com farelos de carne de cenoura de um amarelo queimado. Contrastando com os raios ofuscantes do sol, o moreno saliente e destacado das coxas, do rosto e dos braços que iniciavam um movimento leve e sutil em direção ao secreto de auréolas e bicos, de pelos agressivos e imantados no seu absurdo brilho e negror, instigando promessas de desvelar e encontrar na caverna aventurosa e sugestiva de paisagens e recantos novos a safira preciosa e ansiada de um mundo cósmico inaugural.

Ela caminhava uns poucos passos e depois parava para contemplar o corpo que era seu pertencimento e danação narcisista, como se não houvesse mais ninguém do lado esquerdo da rua. Não andava, pois seu caminhar era um bailado abençoado por todos os deuses e entidades impossíveis e inimagináveis ou que porventura tivessem existido. Nela tudo era rubro e amarelo, as unhas e lábios flagrados em esmalte e batom, os botões redondos de osso do vestido agora lascivamente aberto, o magnífico corpo flutuante e a presença radiosa, os adereços que ela não precisava para compor sua beleza.

Era um caminhar preguiçoso que descobria quadris ousados e divididos em duas partes simétricas e absolutamente distintas, que encarnavam um complemento de loucura e prazer circulante para a órbita voyeurista no feitio assemelhado da rua. Abriam-se passagens de magia ancestral para um presente demasiado feroz e cruel, onde se entranhavam as duas vertentes oscilando entre o escuro e a luminosidade, ensaiando um mergulho definitivo e fatídico para outras veredas desconhecidas e inusitadas.

O trânsito parado, os pedestres acotovelando-se, a pulso dando o espaço necessário para melhor apreciação do espetáculo da mulher em se livrar de sua nudez parcializada e consentida, evoluindo para uma nudez maior, mais livre e sexualizada. Nela nada poderia agredir quem quer que fosse, naquele instante em que era como um turbilhão de carne que revirava o olhar mendicante dos homens e indignava a visada clínica das mulheres.

Ela era a mulher na inteireza de sua nudez, na simbolização secular do pecado original. E todos, com especial fervor os homens, eram adões que talvez não merecessem doar àquela divindade sensual e carnal os ossos da costela não mais edênica. Porque já estavam impregnados da fuligem urbana da cidade destruída pela lama e sujeira, dos dias e das noites reinventados em carência irremissível por uma imaginação paralisada, debilitada e excessivamente inchada das coisas artificiais.


O ENTREVERO DE LAMPIÃO COM MEIA-NOITE
OU O LIMITE DA TENSÃO NA CAATINGA

I

Sem que naquele instante
de tensão atingindo o limite
no bando de cangaceiros

ninguém tivesse a ousadia
de se pronunciar ou mover-se
um passo ínfimo que fosse

e então sorrateiro ou explícito
mas nunca desavisado
pensasse em intervir ou meter-se

em ingresia tão grossa e certeira
ao intentar demonstrar ou fazer
um gesto qualquer de boca

ou ligeiro usar ao acaso
as mãos e os dedos nervosos
de agilidade feroz e treinada

que nem mesmo no lazer ou repouso
prevenidos não se separavam
do gatilho e da lâmina das armas

para se postar de um lado da briga
e firmar posição ostensiva
de lealdade-defesa-amizade.

II

Depois do ataque a Souza
naquele ano de vinte e quatro
Meia-Noite discutiu feio
com dois dos irmãos Ferreira.

Levino e Antônio tramaram
naquele Agosto agourento
uma enviesada partilha
dos restos do roubo e pilhagem.

III

A desavença está feita
e é preciso a interferência
urgente e destemerosa

do chefe dos cangaceiros:
há uma situação radical
de decisão e bravura,

irrepetível e único
eis um momento total
de ferocidade e loucura.

IV

Definidor é agora o confronto
para a liderança de Lampião
desacatado por Meia-Noite.

Naqueles sertões bravios
o negro desaforado
a vivente nenhum respeitava.

E a autoridade legítima
de Virgulino famoso e cruel
não mais reconhecia ou atestava.

Naquela hora incendida de ira
estavam em xeque as vidas
de homens sem medo da sina.

Na caatinga o vento escondia-se,
as nuvens ficaram paradas no ar
e o Sol recoberto de cinzas.

Lampião está calmo e frio
como o seu punhal preferido
sempre sedento por sangue.

Por ora não pensa em fama,
ouro e dinheiro esquece,
quer apenas resolver o conflito

mesmo sem vocação de pacífico,
pois no seu íntimo admira
a valentia do ousado bandido.

V

Meia-Noite desafia o bando
gritando em alto e bom som
que na cabroeira canalha
ninguém ali é tão macho
para diretamente enfrentá-lo
ou apreender suas armas.

Maria Bonita ainda não conta.
Não apitam Jararaca ou Sabino.
Lampião está lúcido e severo,
porém concentrado e em vigília,
relegando até a vingança paterna
a um plano passado e antigo.

Sabe que Meia-Noite é capaz
de impiedosamente matá-lo.
Do mesmo modo que o negro
tem também Lampião seu destino
na palma das mãos ou nos dedos,
nos desfechos de punhal ou de rifle.

Um irmão morto não será importante
no desafio que o instante lhe impõe.
E contra o protesto mudo do bando
libera o homem sem um arranhão.

In: O cangaço na poesia brasileira: (uma antologia). Seleção e prefácio de Carlos Newton Júnior. São Paulo: Escrituras Editora, 2009.