sábado, 25 de dezembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXIX

Foto: Ursula Newmann

AOS AMIGOS E VISITANTES DO BLOG
COM VOTOS DE UM FELIZ 2011

Antes de qualquer conversa, começo por desejar um 2011 de intensas e múltipas realizações a todas as pessoas que conheço ou convivo cotidianamente. Sem discriminação de gênero ou de outras roupagens e feitios, aí estão incluídos amigos, familiares, vizinhos, conterrâneos, companheiros de jornada, conhecidos de longe ou de perto. Isso se estende também a desconhecidos de quem talvez venha a ser amigo um dia, e mesmo ainda àqueles com quem me desavim por algum motivo que se mostra, no instante em que escrevo, com a sua importância relativizada. Nesta listagem não poderia esquecer, de modo nenhum, os visitantes deste blog que mantenho há um ano. Com alguns, faço contato presencial e com outros, apenas virtualmente. Com ambos, os sinais de amizade são reforçados pelo gosto da literatura.

Aliás, neste âmbito, o ano que finda foi bastante produtivo, em especial para os projetos coletivos. O acontecimento literário mais importante foi, certamente, a realização da Fliporto em Olinda, no mês de novembro. Nossa participação direta se deu com o lançamento do livro Cronistas de Pernambuco, em colaboração com Antônio Campos, curador da festa, como parte de um projeto maior da editora Carpe Diem, a trilogia Pernambuco em antologias. Atendendo ao convite de Sérgio Pires e Fátima Falbo, da agência publicitária Atma Promo, realizamos, até agora, três mesas-redondas sobre Carlos Pena Filho e sua obra, na condição de eventos internos à exposição Carlos Pena Filho: 50 anos de memória, no Santander Cultural. Dispusemos de uma boa cobertura da imprensa e participamos do livro em formato álbum que leva o nome da exposição. Esperamos concluir algum projeto que restou inacabado em 2010 ou de anos anteriores.

Mantivemos uma forte interação com a blogosfera através da reprodução de textos e publicação de inéditos em espaços locais e de outros estados. Destacamos, no Recife, o Jornal da Besta Fubana, do escritor Luiz Berto, que hospedou a nossa coluna “O Mundo Circundante”; o blog NotaPE que, através de Cristiano Ramos, nos abrigou como colaborador. Fizemos também intervenções no Interpoética, Portal Vermelho, Substantivo Plural, Literatura sem Fronteiras, para citar apenas estes. Publicamos em maior ocorrência textos de poesia e crítica literária no blog Literário, de Pedro Bondaczuk, de Campinas (SP).

Não é novidade para ninguém que o mundo se transforma a cada segundo. Mudam crenças pessoais, hábitos sociais, culturas aparentemente solidificadas, orientações éticas e valores políticos, e ainda a concepção histórica e teórica de sistemas filosóficos, literários e artísticos. Algumas mudanças são imperceptíveis inicialmente, mas com a passagem do tempo acostuma-se a elas. E é neste sentido que mudaram flagrantemente as formas de comunicação, com a chegada das redes sociais e dos espaços de divulgação proporcionados por sites e blogs.

Acima de qualquer coisa, permanecemos humanos e nenhuma transformação terrena pode mudar isso, exceto a morte, este sumidouro do desconhecido. Humanos e perecíveis, nosso nome somente servirá de herança e repasto se deixarmos alguma obra de relevância para quem virá depois. O que se reafirma como algo de extrema dificuldade, pois requer a junção perfeita do que a inteligência pensou e o talento facilitou ao espírito criativo. E assim uma espécie de compulsão criativa se veicula nos diversos setores do conhecimento e da arte, resultando em obras que tanto poderão ter a sua duração elastecida como simplesmente ficarem esquecidas até que alguém as resgate do limbo e as exponha a uma visualidade inesperada. Tais obras, configuradas por livros, quadros, esculturas, filmes, imagens fotográficas, composições musicais, prédios de valor patrimonial e artístico,  contudo, não estão imunes à destruição pelas não tão improváveis catástrofes que assolam países, como produto das guerras localizadas e das forças cósmicas da Natureza, que não entram em acordo nem rendem tributos ao homem quando querem se manifestar.

Expressamos os nossos melhores agradecimentos aos seguidores e a todos aqueles que enviaram, através de e-mails, inclusive de outros países, uma quantidade significativa e especial de comentários aos escritos do blog, embora alguns não necessariamente para que os publicássemos. Aos que nos enviaram livros, informamos que, na medida do possível, realizamos as respectivas leituras, mesmo que muitos deles não tenham sido comentados ou avaliados em texto ou artigo.

E que em 2011 continuemos a trabalhar a literatura, partilhando-a fraternalmente nos instantes, situações e vivências possíveis.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVIII

DIAS DE REPENSAR O NATAL & OUTRAS COISAS

1.

            Pensar o Natal como algo simples e não simplório, inteligível e sem complexidades demasiadas, que chegue a alguém na forma de dádiva ou presente. Exemplos iniciais desdobram-se em mais outros: um texto que se espalha sem as vaidades de seu autor, uma fala desvestida do circunstancialismo do seu locutor, um abraço sem as garras traiçoeiras do tamanduá ou da serpente. Muitos não apreciam a leitura, mas isso não serve de motivo para se abandonar a nobre causa da palavra dançando luminosa ou obscura nos feitios da página. A maioria das pessoas prefere saber mais lidar com números, contas, placas, anúncios, cifrões, receitas, marcas, referências. Observando-se bem, há sempre o amigo, o vizinho, o parente, o conhecido ou o desconhecido total que não perderam de todo a paciência e a inclinação para a leitura, a quem interessa tanto o calor do abraço quanto a poesia da vida e das coisas. São estes que justificam qualquer mensagem escrita, qualquer esboço permeado de misterioso sentido criativo. E que se esmeram em aguçar talvez com certo exagero os ouvidos, absorvendo a fala transmitida por quem mais desenvolto e astuto.

2.

            Um pouco de festa não faz mal a ninguém. Pão e circo. Carnaval e caviar. Vinho e celebração. Quermesse e roleta, carrossel e cachaça. A transgressão e a fartura, mesmo que ilusórias e passageiras, se reivindicam necessárias. Ninguém pode ser tão rígido ao ponto de não se permitir, de vez em quando, quebrar as regras vigentes. Desde que não cause dano ou lesão a outrem. Através do humor brincante certeiro e sincero de gente modesta e despojada constata-se a verdade das pequenas alegrias. Os jogos e brincadeiras em família cujos membros, pares e casais ainda não se desintegraram, podem ser deveras estimulantes e facilitar o bom convívio. Entretanto, logo se intui e após se verifica que algo se perdeu da harmonia, da solidariedade e do espírito de grupo ancestrais entranhados na essência do humano.

3.

Os que estão mergulhados em um tédio existencial alargado e depressivo, ou em algum projeto intelectual de perquirições e pesquisas insolúveis e imponderáveis, sujeitam-se a aprovar o rol das novidades surgidas a cada segundo. É um sinal de que não conseguem alcançar o segredo e o mistério mais antigos embutidos nas águas profundas da arte e da filosofia, a grande atração sensorial da poesia, da pintura e da música. Uma constatação insofismável aponta para o fato de que, em décadas recentes, aqueles que vêm tocando eventos científicos assumiram a multiplicidade meganumérica alojada nas tecnologias da informação, as supostas e reais desordens internas da entropia terrena e os princípios da incerteza vetorizados para a consecução de certezas aplicáveis, práticas e demonstráveis. E assim ultrapassaram em escala notável as injunções imemoriais da metafísica, as aplicações mecânicas e relativísticas e as desvirtuações atômicas desastrosas de um mundo contemporâneo até há pouco menos caótico, porém para eles superado.

4.

Estabelecer teses e reflexões impossíveis de abrangência para país tão imenso e por natureza contraditório já na sua origem, traz o risco óbvio da dispersão e da generalidade. A favela na alça de mira das sentinelas afincadas nos postos militares de observação traduz a distância exata e mínima de um tiro de grosso calibre. Um movimento inverso também se enseja no manejo desarrazoado, amador e sanguinário dos rifles e metralhadoras oriundos de transações internacionais circunvizinhas da alta contravenção. Aqui se encontra envolvido o que de antemão já se sabe: as variáveis estatísticas da quantidade rumorosa e midiática de sequestros, assaltos, estupros e assassinatos coletivos no mundo todo. Tal surto de violência inédita é reforçado pela disseminação desenfreada do tráfico de narcóticos, de bugigangas eletrônicas e objetos de uso doméstico caros e luxuosos, além da escravidão moderna e da comercialização dos próprios seres humanos e seus órgãos.

5.

Nos setores da política e das finanças nada mais causa espanto, a não ser a ausência de novos escândalos. Se existe uma lei constituída e em curso, mais fácil desrespeitá-la em nome de ambições pessoais geradas no cerne das confusões ideológicas. A neutralidade e o distanciamento da sociedade civil do debate político refletem o desvirtuamento e a desconfiança com relação ao caldeirão ideológico utilitário de feições, destinos e facetas diversas. Uma parcela ínfima insiste na opção primordial de luta pela melhoria de vida dos excluídos e pobres de toda sorte. Poucos assumem o combate feito em nome de numerosas mudanças sociais e políticas, que algum dia talvez possam passar do estágio de quimera a sonho realizado, ou mais propriamente, semi-realizado. No mesmo passo, a maioria assiste à proliferação dos absurdos políticos com um olhar cético, desencantado e questionador.

6.

Militantes profissionais equivocados e antiéticos nem sempre correspondem ao que se espera politicamente deles. Guardam invariavelmente um lugarzinho em casa ou no trabalho, na pasta ou na gaveta, no bolso furado ou na bolsa íntima, para um pró-labore que jamais mereceram. Tais coisas acontecem no mesmo país onde a manutenção sutil ou a substituição brusca de quadros políticos se reafirmam como formalizações democráticas insustentáveis. As posições fragilizadas, extorsivas e ressentidas dos que foram preteridos se manifestam através do fracasso das negociações veladas e das conversas enviesadas, nas quais desaba no chão qualquer espécie ou noção de decoro pessoal ou público. Porque nossas melhores lições de democracia originam-se da verve e da práxis do próprio povo brasileiro e muito menos da parte de quem o dirige ou oprime.

7.

Pensar o Natal como algo revelador – um texto, um abraço, uma fala – de esperança e futuro é ofício de quem não se desgarrou em absoluto da vida e da luta. E é tarefa também de quem se permite sonhar, por mais que o sonho se mostre frágil e à aparência inconsistente. Externa, de modo enfático, a atitude de quem persiste, aprisionado embora, nas malhas e rituais de um  presente encetado em perspectiva fechada e idealizado somente. De quem não deixou de acreditar na busca incessante de um futuro menos sombrio e ainda distante e inalcançado.

sábado, 20 de novembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVII


EM ALGUMA PARTE UMA COROLA

Luiz Carlos Monteiro

“Uma corola” é o poema que contém internamente o título do livro de Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma (Rio, José Olympio, 2010). Tanto faz que essa corola esteja (ou esteve) em São Luís do Maranhão ou na Rússia, no Rio de Janeiro ou em Santiago do Chile. E se, opostamente, não está nos lugares demasiado conhecidos do poeta, pelo menos esplende, fulge em alguma parte alguma da vida. Conforme a interpretação que se dê, pode-se pensá-la como cota de lirismo poético fornecida pelas musas ou esperança com serenidade nos propósitos revolucionários de mudança social. Porque o percurso de Gullar envolve tudo isso, e mais: o testemunho da deterioração do jogo ético mais sensato, justo e solidário em favor da rapina e da corrupção, o sofrimento pessoal e familiar na experiência do exílio involuntário que deu lugar à escrita de um longo poema, o Poema sujo (1976), que abalou as estruturas da poesia brasileira. Ninguém ainda havia escrito daquela maneira desabrida, irrefreável, direta e irreverente por aqui.

Não será difícil ao leitor de poesia apreender a fala reinventada de Gullar no seu novo livro, no ano em que completa 80 anos de idade e recebe, merecidamente, o cobiçado Prêmio Camões. A sua trajetória existencial, com fortes entradas no político, sempre se associou à poesia e à arte, e vice-versa. A capacidade de pensar os movimentos literários e artísticos do século 20 e depois, situa largamente os feitos do ensaísta e do crítico, do teatrólogo e do neovanguardista. E também do militante destemido e explícito, em alguns momentos clandestino, que trabalhou uma poesia de luta e indignação contra a opressão e a tortura, as perseguições e injustiças sociais, em livros como Dentro da noite veloz (1975) e Na vertigem do dia (1980).

Mesmo que certo público se tenha acostumado à voz coletiva do poema, nunca deixa de haver a dicção individual do poeta Gullar. E esta dicção já produz há bastante tempo uma fala reconhecível pelos que o leem. O ritmo, a força e a agilidade de seu verso facilitam a empatia de numerosos leitores, magnetizados e presos até o término de cada poema lido como experiencial real e sensível.

Nas partes II e III do livro, assuntos e preocupações antigas de Gullar se insurgem com mais força nos poemas que se referem a artes plásticas e a indagações cósmicas. A pintura e a escultura saltam dos ensaios e se abrigam na poesia. A pera que apresenta uma falsa figuração da vida na pintura, dura mais que a sua versão verdadeira e natural de fruta. Quando o corpo do morto que não pode ser revivido pela arte, resta ao artista Siron apenas “imprimir as marcas da morte ausente/ e vil/ no leito de concreto/ metáfora brutal/ da vida que explodiu”.

O imponderável do cosmos sofre comparações, buscas e explicações que ficam geralmente no plano obscuro das especulações, das respostas não encontradas. Contudo, Gullar fala de ciência e universo sem resquícios de pedantismo positivista, evitando a superficialidade, o esvaziamento e a racionalização tópica de uma temática ou assunto no poema. Estabelece fluxos dialéticos entre o perfume do jasmim e a podridão de bananas e peras, a pequenez da mosca, do gato e do homem frente à amplidão cósmica, a dimensão ínfima da terra em relação a qualquer estrela, a escala crescente que vai do planeta à galáxia.

O tom geral é de desordenamento da linguagem e indagação constante, recriação em torno do mesmo e do conhecido, com imagens captadas de escritos anteriores em visões pedestres e aéreas, palavras distribuídas espacialmente entre travessões e parênteses. Observa-se a intrusão de questionamentos sobre a escrita e a consciência a instigar a consciência de si e do mundo, a escrita que não se quer totalizante nem mercadológica, apesar do “suposto prestígio literário”, como nos poemas “Nem aí...” e “Off price”.

É constatada a precariedade do “não dito” como algo que foi “dito”, revelando o impasse do poeta diante do que se ocultou no tempo e não veio à fala, do que não se conseguiu transformar em palavra. Situações, vivências, sensações, distâncias mostram-se às vezes inalcançáveis à sua verve pela impossibilidade de se dizer tudo, de esgotar o possível da fala, independentemente de fôlego poético e vontade individual. Ao ser instaurado um "branco", um vazio se associa e limita-se com as circunstâncias externas de concepção e consecução do poema, entravando a disposição criativa. Tal frustração momentânea não logra impedir o desempenho posterior da poesia, facilitando a recepção e a realização de outros poemas que o redimem frente àquela incapacidade provocada pela “desordem” de ficar “o não dito” pelo “dito”, como no poema de abertura, “Fica o não dito pelo dito”.

A desmemória involuntária de Santiago do Chile e a perquirição metafísica da morte em Rilke completam este ciclo de poemas. Voltar a Santiago não traz mais a experiência algo romântica do exílio, a saída do país envolta em precaução, mistério e clandestinidade. A cidade e o tempo não são mais os mesmos, e as lembranças do passado recente cedem lugar à visada de uma outra capital chilena sem Allende nem impulsos de revolução, mais urbanizada, globalizada e impessoal. O longo poema sobre Rilke flagra o corpo do poeta a se debater ante a proximidade da morte, a solidão indescritível de quem reluta em abandonar o mundo e a vida: “Assim se acaba um homem/ que sem resposta iluminou/ o indecifrável processo da vida/ e em cuja carne sabores e rumores se convertiam/ em fala, clarão vocabular,/ a acessibilidade do indizível.”

Entre desordem e razão, aparência e profundidade, estrutura e sentido, Gullar pensa o poema por dentro e por fora. Reafirma conexões que vão do racional ao delirante, da matéria à sensação, da linguagem poética à vida prática. E sem temer paradoxos, dicotomias e contradições, compõe os elementos estéticos gerais e vitais de sua poesia em permanente e saudável confronto consigo mesmo e com o mundo externo.





domingo, 14 de novembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVI

GERAÇÕES

                                 Luiz Carlos Monteiro

Os símbolos de uma época
que lentamente expira

são como signos datados
de outras épocas antigas

obedecendo à lógica
mais natural de um ciclo

interminável do cosmos
que se repete nos dias.

E assim pouco a pouco
são desmontados os ícones

e vão desabando os líderes
da época que se extingue

ídolos de massa e profetas
visionários poetas artistas

substituídos por outros
que irão também extinguir-se

na roda viva do tempo
sem hora marcada ou aviso.

(Inédito, 2010)

CARLOS PENA FILHO / 50 ANOS DE MEMÓRIA

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CRONISTAS DE PERNAMBUCO (4ª CAPA)

Esta antologia reúne uma centena de textos de cronistas nascidos, radicados ou que viveram em Pernambuco e, mais particularmente, numa cidade, o Recife. Muitas histórias e assuntos aqui desenvolvidos se ramificam em situações, vivências, paisagens e lugares outros. Mas a cidade do Recife se faz presente e cumpre sua função inaugural de instigar poetas, ficcionistas e cronistas. Autores que não conseguem esconder em sua produção literária o melhor de si. A prova disto é a predominância do texto de qualidade, atendendo ao desempenho pessoal de cada um. Alguns desses cronistas são nomes já consagrados na cena literária brasileira. E há também os estreantes, os que publicam pouco ou os que ainda não têm livro editado. Todos se alinham numa convivência democrática que não busca escamotear a escolha literária consequente e o critério estético definidor. Vez ou outra o leitor pode deparar-se com crônicas radicalmente diferentes em forma e sentido. O que não invalida a tentativa de ampliar dicções e atitudes resultantes e originárias do trabalho solidário e participativo. Cronistas de Pernambuco mostra-se como livro substancial e necessário, que se soma aos volumes publicados anteriormente, de poesia e de conto, formando a trilogia Pernambuco em antologias. Dicções, atitudes, gestos e falas internas e externas que não se realizam apenas para um autor ou para um grupo reduzido, mas para todo um conjunto de escritores. O fato inconteste e o fator positivo é que este Cronistas de Pernambuco representa uma lacuna enfim preenchida, que o leitor tem agora em mãos, podendo desfrutá-lo do jeito que melhor preferir.

VÍDEO DE PERNAMBUCO EM ANTOLOGIAS

video

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A POESIA COTIDIANA DA CRÔNICA



Prefácio
Luiz Carlos Monteiro

A crônica é um gênero literário polêmico por excelência. Da sua origem remota em sintonia com o relato histórico organizado no tempo, passando pelo ensaio e o folhetim até chegar aos nossos dias, quando se consolida na fronteira entre a poesia e o conto, o lirismo subjetivo e a narrativa cotidiana, há um longo percurso. Já na primeira metade do século XIX no Brasil, a crônica funcionou, nos poucos jornais existentes, como folhetim de derivação francesa. A narrativa domingueira e eclética dos fatos políticos, históricos e culturais do cotidiano, que saía no rodapé da primeira página dos jornais, sustentada no modelo francês, teve seus cultores iniciais na voga romântica, cujo representante principal foi José de Alencar. O escritor romântico manteve semanalmente, entre 1854 e 1855, uma seção famosa, “Ao correr da pena”, nos jornais cariocas Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Nos folhetins que publicava, Alencar aproximava-se da literatura ficcional, ao imprimir a sua maneira e o seu estilo aos textos: “Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio, a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do prosador que logo se afirmaria no cenário nacional” (1). Posteriormente, em 1856, Alencar inaugurou a seção “Folhas soltas” no Diário do Rio de Janeiro (do qual foi diretor), cujos textos, mesmo não tendo a periodicidade da coluna anterior, traziam agora o feitio característico da crônica, sem estar presos ao noticiário ou aos fatos jornalísticos.

O outro grande cronista da época foi Machado de Assis. Diferentemente de Alencar, o autor de Dom Casmurro questionava por dentro as relações entre texto literário e linguagem jornalística, a partir dos diversos moldes jornalísticos então utilizados na crônica: “Machado de Assis é o cronista que buscou a maturidade estética da crônica, tornando-a um gênero de natureza híbrida que pode abrigar várias linguagens no jornal e manter uma independência linguística ante o folhetim e o discurso jornalístico de sua época” (2). As transformações locais sofridas pela crônica, notadamente no Rio de Janeiro, fizeram com que recebesse contribuições definidoras que autorizam muitos críticos e estudiosos a considerá-la como modalidade desenvolvida ao extremo no nosso país. É dessa forma que ela é vista por Massaud Moisés: “(...) é certo que, pela quantidade, constância e qualidade de seus cultores, a crônica semelha um produto genuinamente carioca. E tal naturalização não se processou sem profunda metamorfose, que explica o entusiasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania brasileira da crônica: ao menos em relação à crônica dos nossos dias, tudo faz crer que raciocinam corretamente” (3). Chega-se a outros cronistas de especial relevância, numa série temporal que envolve os nomes de Olavo Bilac e João do Rio, Mário de Andrade e Rubem Braga, tendo este último atravessado, depois que começou a publicar em 1928, quase todo o restante do século XX a escrever crônicas de grande sucesso de público.

Uma das antologias mais recentes que pudemos conferir, Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria, organizada pelo professor Douglas Tufano, alinha apenas dez cronistas. São cinco cariocas – Carlos Eduardo Novaes, Lima Barreto, Luís Martins, Machado de Assis e Olavo Bilac, três mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, uma cearense – Rachel de Queiroz e um paulista – Lourenço Diaféria. O pequeno número de cronistas, com predominância do Rio de Janeiro, é compensado pelo número de crônicas, numa média de cinco para cada um deles. É bem menos conhecido fora da sua terra do que os outros, Lourenço Diaféria, embora seja tido como o legítimo representante da crônica paulista. Esse fenômeno ocorre também em Pernambuco com um autor enraizado feito Renato Carneiro Campos, o cronista natural e abalizado do Recife. Outro nome sui generis da antologia de Tufano, o poeta Paulo Mendes Campos, ombreia-se com o do pernambucano Nelson Rodrigues na valorização da crônica futebolística. O formato curto e a aproximação ao ficcional e ao subjetivo logram sugerir propósitos de concepção do organizador, ao ressaltar o “compromisso” dos cronistas com a “vida concreta”. Fornece, em poucas palavras, uma definição da crônica moderna: “Hoje as crônicas em geral são mais curtas, os autores gozam de uma liberdade de expressão maior, o tom subjetivo é mais acentuado, os elementos ficcionais estão mais presentes – mas todas guardam seu compromisso com a vida concreta, mesmo quando parecem não estar falando dela” (4).

Voltando um pouco no tempo, uma coletânea que teve grande alcance de público, Elenco de cronistas modernos, continha apenas sete autores: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. A afluência regional era menos acentuada, e o número de crônicas, dez para cada um. Mas, todos tinham sido editados pela extinta Sabiá, no que se constata facilmente que o critério geral de inclusão foi esse (5).

Ao prefaciar um dos volumes da conhecida série Para gostar de ler, Antonio Candido afirma que a crônica “elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser natural. Na sua despretensão, humaniza; e essa humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição” (6). Eis aí, sem tirar nem pôr, o que seria um dos papéis fundamentais da crônica: humanizar e, no mesmo compasso, nos aproximar ao “modo de ser mais natural”. Dessa humanização, que reaquece linguagens e procedimentos, é que se chega ao texto acabado, livre das intrusões que o tornam frágil, gorduroso e destituído de seus sentidos inaugurais e extensivos. Por isso mesmo, foi facilitada uma ampliação da leitura da crônica no Brasil, vetorizada em formas esteticamente expressivas oralizadas (inicialmente no rádio) e escritas (na revista e no jornal) que intentavam comunicar quase sempre o que se queria ler, sentir e escutar. A permanência vigorosa da crônica nos jornais brasileiros era somente interrompida em circunstâncias imperiosas e superiores, que não dependiam exclusivamente dos cronistas, como, por exemplo, a morte. Mas, enquanto vivo, cada cronista recriava o cotidiano a partir do seu campo de observação, com sua visada pessoal que elegia o homem e a vida como objetos primeiros e privilegiados.

Nossa antologia inicia-se no Recife do século XIX, com um cronista de costumes, o Padre Lopes Gama, que passou a editar a partir de 1832, com algumas interrupções, um jornal implacável, O Carapuceiro. Nesse jornal, Lopes Gama fustigava todos os segmentos da sociedade, sob os pontos de vista moral, religioso ou político. Dele publica-se aqui a crônica “As palestras da ponte da Boa Vista”, uma viagem irônica, irreverente e bem-humorada por uma tipologia humana que se reunia diariamente na ponte em torno a conversas sérias ou maledicentes que dependiam dos caracteres sociais e humanos de cada grupo (“rabequistas”, “gamenhos”, “jogadores”, “políticos”, “cavaleiros da indústria”) (7). Na condição de cronista mais antigo desta coletânea, Lopes Gama enseja os passos inaugurais da prática jornalística de se fazer crônicas. E exatamente por isso, como não poderia deixar de ser, que a maioria dos autores aqui presentes é composta de jornalistas de batente ou que exerceram atividades de jornalista. Há, também, os que têm outras atividades, no âmbito artístico ou profissional, mas que não deixam de rabiscar a sua crônica e publicá-la em jornal ou livro. Escritores que se completam no romance, no conto ou na poesia, emprestam também a sua contribuição.

O Recife de Mário Sette é um capítulo à parte. Na crônica “Não há quem dê mais?”, do conhecido livro Arruar: história pitoresca do Recife antigo (8), Sette discorre sobre os leilões em domicílio que ocorriam rotineiramente no Recife do século XIX. Casas eram invadidas por agentes, licitantes e curiosos, uns ávidos por uma boa negociação, outros simplesmente para especular como vivia a gente que estava a vender seu mobiliário, na ânsia de desvendar segredos familiares, normalmente fechados ao público.

Uma boa quantidade de escritores que ultrapassaram com seu nome as fronteiras pernambucanas faz-se presente nesta antologia: Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Osman Lins. Dentre os que aqui viveram por um tempo, mas que não deixaram de lembrar o Recife em seus escritos, encontram-se Nelson Rodrigues, pernambucano que se radicou no Rio, cuja crônica, “O menino de Pernambuco”, é sintomática de sua infância recifense; Clarice Lispector, que passou parte da infância no bairro da Boa Vista, não tendo jamais esquecido a cidade; Raul Pompéia, que com um grupo de colegas deslocou-se em 1885 de São Paulo ao Recife a fim de concluir o curso de Direito; e Rubem Braga, que esteve aqui de maio a setembro de 1935. Braga conviveu com intelectuais e boêmios locais, frequentou a zona do meretrício e escreveu crônicas que se popularizaram em todo o Brasil. Fez amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Dié­gues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu 25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Aliança Libertadora Nacional nordestina, que ele editava. Depois de três prisões, deixou a cidade em 13 de setembro de 1935, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro (9). O cronista-compositor Antônio Maria, que viveu até o início de sua juventude no Recife, passando a morar depois no Rio de Janeiro, repartiu-se entre a crônica dessas duas cidades. Suas lembranças recifenses fornecem um painel lírico e urbano de fidelidade e paixão pela cidade; do mesmo modo, quando escreve a crônica carioca, consegue, com familiaridade, retratar amigos, absorver recantos boêmios, dobrar ruas e esquinas do Rio, relatar situações cotidianas com um profundo sentimento lírico.

Além da crônica-poema, como é o caso da que escreveu Everardo Norões, “Um certo padre Gomes”, o leitor vai dispor também de crônicas-perfis de autoria de Gladstone Vieira Belo (tendo como objeto o jornalista Antônio Camelo), de Osman Lins (que mostra a relação de amizade de Osman com o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld), de Paulo Cavalcanti (que reúne, num só texto, o poeta Mauro Mota e uma visada panorâmica e saborosa do Recife que este viveu). Nesse ponto, uma cronista brasileira da maior importância vem à lembrança, Rachel de Queiroz, que teve recentemente uma seleção de suas crônicas feita por Heloisa Buarque de Hollanda. Sobre os “perfis definitivos” em forma de crônicas elaborados por Rachel, notadamente um sobre o Padre Cícero, pronuncia-se Heloisa Buarque: “A galeria de personagens inesquecíveis, lendas e lembranças da seca, fatos curiosos e flagrantes do cotidiano é a matéria-prima central com a qual Rachel trabalha suas crônicas e sua expertise narrativa” (10).

Das crônicas sobre a cidade do Recife e suas manifestações culturais e festivas, seus personagens populares e sua convivência boêmia, sua compulsão libertária e seus novos-ricos, seus becos obscuros e seus locais públicos, a mais representativa é, certamente, “Recife”, de Renato Carneiro Campos. Que vem escrita em prosa poética delirante e nominativa, dando a impressão de nada ter faltado na tremenda declaração de amor à cidade feita pelo cronista.

Em toda coleta literária, surge imediatamente o problema das omissões, por variados motivos – de espaço, de contato ou de escolha. Omissões que podem ser corrigidas futuramente em novas antologias, nas quais aqueles que ficaram de fora poderão vir a ser contemplados. Nomes que invariavelmente serão lembrados pelo paradoxo da sua momentânea ausência, a exemplo de um Pereira da Costa. E de outros que tiveram presença e papel relevante na crônica recifense: Mário Melo, Aníbal Fernandes, Theo¬tônio Freire, Silvino Lopes, Altamiro Cunha, para citar apenas esses. Mas, com um trabalho assemelhado e militante nos jornais locais, tais omissões completam-se em outros contemporâneos que foram contemplados: Jorge Abrantes, Mário Sette, Mauro Mota, Nilo Pereira, Paulo do Couto Malta e Valdemar de Oliveira.

Novos cronistas comparecem, alguns inéditos em livro, outros elastecendo aos poucos a sua bibliografia – Cristiano Ramos, Geórgia Alves, Miriam Carrilho, Raimundo de Moraes. Ao lado desses, aparecem autores consolidados e de carreira literária extensa em suas realizações. Artistas plásticos de inclinação literária já reconhecida também trazem a sua contribuição – Francisco Brennand, José Cláudio e Marly Mota. Nem falta, aqui, a crônica sertaneja dos cangaceiros, com o texto de Frederico Pernambucano de Mello.

De um modo subliminar ou direto, insurge-se um elemento de ligação entre muitas dessas crônicas, sinalizado pelo que fascina ou instiga no perfil guerreiro ou festivo de uma cidade, o Recife. Elimina-se, portanto, algo da disparidade temática predominante e da aparente dispersão conteudística. E, em termos de estrutura e disposição textual das páginas da obra, ao optarmos pela não fixação prévia do tamanho dos textos, imaginávamos que, na consecução posterior do livro, teríamos de assumir a irregularidade das dimensões variáveis e da surpresa do produto final. Na solicitação dos trabalhos aos autores ou seus familiares, as negativas foram tão poucas e irrelevantes que seria ocioso mencionar. Amigos se prontificaram a ajudar, indicando formas de contato com autores, fornecendo livros e outros materiais bibliográficos, apontando locais de pesquisa onde seriam encontrados trabalhos de interesse para a antologia. Parentes de autores mortos agiram com rapidez e diligência enviando crônicas e esboços biográficos – alguns deles também presentes como cronistas, mostrando-se redundante citá-los. Todos sabem, contudo, o quanto ficamos agradecidos e sensibilizados pelo gesto solidário que consolida e reafirma amizades.

Quando Antônio Campos me convidou para este trabalho conjunto que é o Cronistas de Pernambuco, o tempo para pensar sobre o projeto foi mínimo. De imediato, começaram a desfilar no pensamento numerosos nomes que fui juntando aos que Antônio já havia sugerido. E a cada dia novas descobertas, novos insights, e um lema proposto por ele, que funcionou do início ao fim da elaboração do livro: incluir sempre, numa generosidade e desprendimento que não excluía, de outra parte, o critério estético. O fato é que conseguimos reunir uma centena de cronistas que configuram um perfil razoável do gênero em Pernambuco. O feitio estético, a qualidade literária e a capacidade de comoção ou entretenimento originários destas crônicas, deixamos para o nosso possível leitor sentir, desfrutar e avaliar.

Notas
(1) “Alencar conversa com seus leitores”, pref. José Roberto Faria. In: José de Alencar, Crônicas escolhidas. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ática, 1995.
(2) PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil. João Pessoa: Ideia, 1994.
(3) MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.
(4) Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. Organização e apresentação Douglas Tufano. São Paulo: Moderna, 2009.
(5) Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, [s.d.]. A Editora José Olympio relançou a 20ª edição desta obra em 2003.
(6) “A vida ao rés do chão”, pref. Antonio Candido. In: Para gostar de ler: crônicas. Carlos Drummond de Andrade... [et al.] Ed. Didática, v. 5. São Paulo, Ática, 1981. Além de Drummond, os outros participantes são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.
(7) O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. O levantamento das crônicas feito por Evaldo Cabral de Mello teve como base o trabalho anterior de Leonardo Dantas Silva.
(8) Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978.
(9) Para um conhecimento mais aprofundado da vida e obra de Rubem Braga, é importante conferir sua biografia, escrita por Marco Antonio de Carvalho (1950-2007), Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar. São Paulo: Globo, 2007.
(10) QUEIROZ, Rachel de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Gaudi Editorial, 2008. No prefácio a este livro, Heloisa Buarque de Hollanda, que também fez a seleção das crônicas, chama a atenção para “o belíssimo estudo de psicologia regional que é a crônica sobre o Padre Cícero, figura cearense emblemática, reconhecido pelo desenho afetivo e personalizado de Rachel”.

Recife, 30 de setembro de 2010

sábado, 16 de outubro de 2010

CONVITE PARA O LANÇAMENTO DE PERNAMBUCO EM ANTOLOGIAS



Notas Cotidianas e Literárias XXXV


LEMBRANDO ALBERTO DA CUNHA MELO

O desempenho poético de Alberto da Cunha Melo realizou-se em cerca de cinco décadas. Nascido em 1942, sua produção em poesia, para o tempo de vida que pôde viver e dispor, foi respeitável. De temperamento pacífico, no entanto cético e questionador, o poeta não aceitava as injustiças e os tremendos desníveis sociais que caracterizavam o país e a região nordestina. A influência recebida dos eventos negativos em política no cotidiano serviam como estopim para a deflagração de seu canto indignado. Talvez pela abertura à poesia dos novos, pela grande capacidade de fazer amigos, e pelo fato de não ter renegado os companheiros da Geração 65, a recepção de sua poesia gozava de certa unanimidade no Recife. E que, nos últimos anos, tal prestígio ultrapassou as fronteiras pernambucanas, com prêmios, homenagens e publicações que o vincularam a um reconhecimento nacional. Contribui para isso a coluna "Marco Zero", que manteve desde os primeiros números da revista Continente Multicultural, até a sua morte em outubro de 2007, cujos textos foram publicados postumamente em livro pela Companhia Editora de Pernambuco, em 2009.

Alternando com ciclos de versos livres, alguns livros seus, entre eles os três iniciais, Círculo cósmico, Oração pelo poema e Publicação do corpo, foram construídos em versos octossilábicos. A perquirição rilkeana aparece em poemas que indagam sobre uma transcendência que se quer próxima e acessível ao poeta e ao Outro. A partir de versos solenes e meditativos, investe sobre o cotidiano em linguagem classicizante. Este ciclo que já trazia embrionária, contudo diferenciada e ainda inédita, a maneira desabrida de se expressar, encerra-se com a publicação de um novo livro, Noticiário, em 1979, que os mais organicistas diriam visceral. O verso sem demasiadas amarras, sem os freios da métrica principalmente, pode agora derrapar e se esbaldar na palavra direta que não exclui o palavrão, as situações vexatórias e ridículas, os efeitos da dominação que paralisava todo um país e, por extensão, o continente latino-americano. Mas o ritmo não dispensava a concepção rigorosa de se versificar, mesmo que a matéria com que ele trabalhasse fosse impura, como a própria vida.

Em 1983, Cunha Melo publicou, na antologia Soma dos sumos, parte da poesia que vinha fazendo desde 1960. O livro magro não correspondia, de modo algum, a uma obra que poderia ter sido mais bem destacada, apesar de sair no Rio de Janeiro, pela José Olympio. Isto vai ser compensado logo depois com Poemas anteriores pela local Bagaço, em 1989. Aqui, comparecem em octossílabos, meia centena de poemas inéditos e os três livros iniciais já referidos. A força e a dificuldade empregadas na consecução do metro que cultuou com avidez e maestria, o octossílabo, retorna em trabalhos da fase final. É o caso, por exemplo, de Yacala (1999), longo poema que intenta recuperar, para um modelo de homem universal, a solidariedade, a harmonia e a unidade perdidas. Neste texto monotemático, sem esquecer a ramificação de assuntos que o caracteriza, Alberto da Cunha Melo testou seus próprios limites. E conseguiu alcançar, de modo eficaz e competente, um desempenho que o coloca ombro a ombro com os maiores poetas brasileiros das últimas décadas.

Diario de Pernambuco, 12 de outubro de 2010

O POETA

Por muito tempo andou dividido
entre o que restava de vida na noite
e os ritos selvagens de um amor impulsivo.

No entanto tudo aquilo um dia acabou.
Percebeu depois que como chegaram sumiram
a dor e o pranto, o sofrimento e o desamor.

De imediato outras cores e frutos vingaram.
Novo canto soterrou os seus versos primeiros.
A solidão desarmou do seu ser suas unhas e garras.

Assumiu seu papel que sabia inteiro.
Regressou filho e hóspede à antiga cidade.
Recebeu pelas ruas mil abraços festeiros.

Buscou rio e campo nos confins da estrada
a pensar como e quanto se consumiu no amor.
A natureza abrandou sua memória sem calma.

Pois aquele amor impossível finalmente passou.

O AUTO-ENGANO DO POETA

No livro Auto-engano, de Eduardo Giannetti (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), no Cap. 1, p. 55, a citação abaixo refere-se ao auto-engano do poeta em relação a si mesmo, tomando como base o trabalho poético de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. O trecho poderia, com poucas exceções, ser aplicado à maioria dos poetas, aos poetas que não alcançaram nenhuma espécie de glória em vida, mas que persistiram na sua tarefa despojada e sem grandes esperanças de semear a poesia possível. Ou, no limite do possível e de suas forças, escrevê-la apenas. Vale conferir a relação estabelecida por Giannetti, entre a persistência e o auto-engano:
“Tudo, em suma, conspira para que o poeta entregue os pontos, para que reveja sóbria e friamente a sua existência como um desperdício imperdoável – algo para ser renegado e jogado fora como um punhado de versos imprestáveis. E, no entanto, ele não cede. Ele dobra a aposta e se agarra ao infinitesimal de uma probabilidade remota, como a um galho débil no precipício de sua vida. Ele faz do absurdo de sua própria ambição inexplicável a matéria-prima da criação poética. Ele se mantém fiel à sua paixão juvenil com a tenacidade de uma aranha e o fervor de um recém-convertido. Com o passar dos anos, ele constrói anônimo a sua obra, pedra sobre pedra, duvidando e recomeçando sempre, sem aplausos, sem prêmios, sem assento em academia. Auto-engano?”

sábado, 25 de setembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXIV



Um beijo para os crocodilos

POESIA MINIMALISTA E ANGUSTIADA

Um escritor dispõe de possibilidades de escolha diferenciadas para construir a sua obra. A luta com a palavra leva-o a buscar aquelas opções com que mais se identifica em termos de estrutura e sentido. No caso de um poeta, faz-se imprescindível o conhecimento de expressões e manifestações estéticas anteriores e atuais, pois não deve afastar-se demasiadamente da tradição ou mesmo de modalidades correntes de pós-modernidade que estão a acontecer e se perfazem ainda em nível de teoria e experimentação.

Em seu sexto e mais recente livro, Um beijo para os crocodilos, o poeta pernambucano Almir Castro Barros investe fortemente na consecução de um minimalismo obsessivo, cirúrgico e telegráfico para nortear a composição de suas formas poéticas. Utiliza-se de uma economia de meios para a gestação da palavra que a apreende em seus graus diversos de vocábulo, signo verbal, corpo de verso e estrofe. É uma tarefa que exige concisão e equilíbrio para fazer cortes, buscar o fonema exato, alcançar o verso impecável e bem realizado.

Outra tendência estética adotada, mais ligada ao discurso e ao significado, sinaliza para um lirismo algo metafísico e recortado em instâncias angustiantes da frágil condição do poeta e do homem em qualquer sociedade em que viva e transite. Tal condição lírica está intimamente ligada aos feitos da experiência cotidiana vivida ou a viver, ao sonho e ao desejo que cada poeta carrega em si, a genealogia e infância, ao ambiente familiar e à vida coletiva e social. Mostra-se reveladora também das intencionalidades do poeta no trato com a vida, a palavra e a linguagem.

Torna-se promissora aqui a atitude que renuncia a certas facilidades comprometedoras da dicção poética que se quer autêntica, viva, incidente e talvez única na sua diferenciação de base. A manutenção da fidelidade fraterna em relação aos companheiros de geração, a Geração 65, não impõe que se desvie do caminho e dos propósitos escolhidos. Assume as injunções, incertezas e consequências do próprio fazer poético, com uma poesia que amplia certa compulsão por uma escrita situada entre o rigor e o subjetivismo. E que ao mesmo tempo refreia algum excesso ou derramamento discursivo que porventura se insurja nas veredas percorridas desde o livro da estreia em 1975, Estações da viagem.

Nada do que Almir escreve ocorre sem a persistência dos obstinados. Serve-se da lente dissecadora dos que não se contentam com um produto poético derivado do manuseio fácil da palavra. É um daqueles poetas que se debatem entre a esperança e a descrença, mas que podem, ao passar da borrasca, exercer a humildade e o rito de perdoar o descalabro e a insensatez alheia. Mas, ao questionar as motivações de ofensas, opressões e traições, não referenda aquela espécie de perdão sem luta, originário da passividade e do conformismo que entorpecem os sentidos e a fala. A dor e o sofrimento são minorados pela tensão saudável recriada pela poesia. O leitor é espelho e parceiro nesta travessia que envolve tanto a sua participação solidária, quanto a liberdade que sugere o preencher lacunas e incompletudes quase sempre propositais deixadas pelo poeta na busca de síntese, profundidade e aperfeiçoamento da arte de fazer e desfazer versos.

Diario de Pernambuco, 18 de setembro de 2010


UM MINICONTO DE DAVID FOSTER WALLACE

 David Foster Wallace, nascido em Ithaca (1962),  faz parte da geração de novos autores norte-americanos. Professor, contista e romancista premiado, sua escrita volta-se também para o ensaio. O conto aqui publicado abre o livro Breves entrevistas com homens hediondos (São Paulo, Companhia das Letras, 2005) e intitula-se "Uma história radicalmente condensada da vida pós-industrial":

Quando fomos apresentados, ele fez uma piada, esperando ser apreciado. Ela riu extremamente forte, esperando ser apreciada. Depois, cada um voltou para casa sozinho em seu carro, olhando direto para a frente, com a mesma contração no rosto.
O homem que apresentou os dois não gostava muito de nenhum deles, embora agisse como se gostasse, ansioso como estava para conservar boas relações a todo momento. Nunca se sabe, afinal, não é mesmo não é mesmo não é mesmo. 

O MUNDO JAMÉ VU DE HOMERO GOMES 

Aqui é onde tudo o que se perde é resgatado. Nesse mundo em que não reconhecemos ninguém, onde nos perdemos e, isolados de nós mesmos, esquecemos identidades, resta apenas nos enfiarmos por caminhos perigosos, espancados e castrados. O que era seu, meu e de todos se esvairá rapidamente diante do Mundo JAMÉ VU.

Então, que Fulano de Tal ressurja do próprio sangue! Neste espaço suas narrativas serão recuperadas, envoltas no mistério de seu suicídio. Além delas, outros achados se farão presentes, servindo de espaço para o estranhamento e a reflexão. Para tanto, convido a todos que adotem este espaço como seu, sentindo-se parte desse pedaço último de humanidade, apresentando resquícios da decadência de sentido, fundamento e essência.

Faça parte do Mundo JAMÉ VU. Contribua, comente, siga e divulgue.
http://www.jamevu.tumblr.com/
Editor: Homero Gomes
Contato: homero.gomes@gmail.com
Colunista do Página Cultural - www.paginacultural.com.br
e do Cronópios - www.cronopios.com.br
Jamé Vu no Twitter - http://twitter.com/hgomesjamevu
Sísifo Desatento no Twitter - http://twitter.com/sisifodesatento

UM POEMA DE ROBSON SAMPAIO

Robson Sampaio, jornalista e poeta, é alagoano radicado no Recife, onde recebeu, em 2006, o título de Cidadão do Recife, concedido pela Câmara Municipal. Publicou os livros O Recife & Outros Poemas (2007) e Eu Sou Capibaribe (2009). O poema abaixo traz um efeito anafórico afirmativo e simplificado nos versos inciais tríplices do que seriam as estrofes, se houvesse a subdivisão dentro do próprio poema, que aparece estruturado em bloco único. Mesmo assim, a sequência é preservada, e "O mistério do entardecer no verão recifense" permite que se pense no Pernambuco ancestral e histórico de grandes lutas e batalhas insurreicionais em relação ao país, na cultura diferenciada em festa popular desbragada que são o carnaval e outras manifestações, e na ambiência tropical que expõe belas mulheres no azul do mar e nas areias das praias fartas e privilegiadas que caracterizam o locus pernambucano.

ENTARDECER

O mistério do entardecer no verão recifense
ilumina o Capibaribe e reflete a alma:
Pernambuco.
O mistério do entardecer no verão recifense
anuncia o som dos clarins de Momo:
Passo e frevo.
O mistério do entardecer no verão recifense
sugere águas mornas e areias quentes:
Azul do mar.
O mistério do entardecer no verão recifense
reacende o calor das mulheres que brincam de sedução:
Vontades ardentes.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXIII

CARTAS DE BRENNAND A FERNANDO MONTEIRO
(SOBRE O POEMA VI UMA FOTO DE ANNA AKHMÁTOVA)

Em 17 de maio de 2010, Fernando Monteiro me enviou quatro cartas de Francisco Brennand, que tinham como assunto central o poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova. O poema havia saído há pouco no Recife e Monteiro estava imerso no processo de sua divulgação. Nelas (postadas por e-mail), Brennand, na condição de leitor lúcido e erudito, enceta uma defesa intransigente do poema, analisa por dentro e questiona o alcance crítico das análises feitas, inclusive de uma resenha que escrevi e postei neste blog. O texto, “Fernando Monteiro & Anna Akhmátova: um diálogo possível da poesia ocidental”, escrito algum tempo depois que o poema apareceu, mas não no calor da hora, circulou por outros blogs: NotaPE/PE (Cristiano Ramos e Cristhiano Aguiar); Substantivo Plural/RN (Tácito Costa); Papo Furado/RN (Jairo Lima); O Pensador Selvagem/RS ( Milton Ribeiro); e Literário/SP (Pedro Bondaczuk). A resenha conseguiu incitar Brennand a perquirir com veemência o afirmado num dos parágrafos, na Carta IV, datada de 17 de maio do corrente. Esta carta chegou exatamente no dia em que Fernando mandou também as outras três, que são de 2009. Em mensagem a Fernando Monteiro, não pude deixar de atender à interrogação de Brennand sobre “a incompletude” de que falo no trecho referido, e que será melhor absorvida depois da leitura da própria carta: “Para o parágrafo que ele [Brennand] destaca, diria que a poesia, apesar de ter uma grande penetração no real e no surreal, com toda a sutilidade que isso requer, deixa lacunas sensoriais que não podem ser apreendidas pelas palavras, e sim pelas sensações e pelo mundo dos sentidos, daí a incompletude de que falei”. Fernando encarregou-se de explicitar as razões do amigo, extremamente válidas, pelo que trazem de amor e zelo ao poema: “(...) como o Anna repercutiu profundamente sobre Brennand (tenho aqui mais de cinco longas mensagens dele sobre o poema), creio que qualquer coisa o inspira a ‘defender’, digamos, o livro pelo qual realmente tomou-se ‘de amores’ (para grande honra minha)...” As cartas, transparentes e densas, além do registro cronológico, considerado como o dia de cada postagem eletrônica por Brennand, contêm ainda títulos esclarecedores e de importância evidente para a compreensão do conteúdo. Vale a pena conferir.


CARTA I

Gnose (com novos acréscimos)

27 de agosto de 2009


Prezado Fernando Monteiro,

“Vi uma foto de Anna...”, em hebraico. Não me surpreende a súbita inspiração de um professor da Universidade Bar-llan, em Israel, de traduzir o seu livro para o hebraico.
Aqui, entre os meus alfarrábios que formam um conjunto parecido com um diário, encontra-se uma personagem fictícia de um cozinheiro coreano que resolve escrever uma carta indecifrável. Tentei saber um pouco a respeito do sistema de escrita coreano e acabei descobrindo não haver um consenso entre os linguistas sobre a identidade desse idioma, frequentemente classificado como um “idioma isolado”. Sem explicação achei isso de uma nobreza tamanha devido ao fato de uma pessoa se expressar num idioma que jamais será universal. Não estou fazendo nenhuma digressão e vou direto ao assunto: o seu longo e admirável poema “Vi uma foto de Anna Akhmátova” ficará dentro da literatura brasileira de todos os tempos como um “idioma isolado”. Foi isso o que me ocorreu. Pode, inclusive, nem ser um elogio, mas o efeito substancial desses versos é de tal forma avassalante que, por natureza, tornará inevitável sua exclusão. Lidos, com ou sem atenção, eles são únicos e plurais. E estranhos, muito estranhos. Que lembranças invulgares, que associações ao mesmo tempo espirituosas e fisiológicas, como se estivéssemos diante de uma batalha sem tempo, de uma carnificina ímpar (e você dentro dela a vociferar, vez ou outra recordando a foto de Anna que também é o tempo). “O tempo que não passa porém cancela nossas pegadas nele.”
Diz você que é a sua visão do mundo. Em oitenta e cinco páginas você escreveu a história da humanidade. Pelo menos a que nós conhecemos, alguns de nós. Outros, jamais a conhecerão. Não pretendo ser um profeta fácil. Agora, de uma coisa estou certo, dentro de muito pouco tempo “Vi uma foto de Anna Akhmátova” será traduzido em diferentes idiomas, a começar significativamente pelo hebraico.

Abraço do amigo,

Francisco Brennand

PS. Qual tem sido a reação do público e da crítica local e nacional? Talvez minhas previsões não tenham cabimento. Teria muito a acrescentar sobre a foto de Anna, mas prefiro voltar a reler: “Havia um mapa traçado na pélvis,/uma naturalidade na nudez total,/um despojamento, uma cor no calcanhar...”
Roberto Alvim Corrêa, que eu conheci de perto numa de minhas exposições no Rio de Janeiro admitia que, em se falando dos poetas, não é prudente citar seus versos a fim de interpretá-los. No seu caso é impossível fugir a tentação.

FB


CARTA II

O reconhecimento da carne (Com acréscimos e PS)

8 de setembro de 2009


Prezado Fernando Monteiro,

“Minhas previsões não tinham cabimento.” Eu acreditava ─ sempre erramos em relação aos outros ─, na minha visão particular das coisas e uma coisa pode ser todas as coisas, como pretendiam os hippies de São Francisco, na Califórnia, nos anos 60. De uma maneira sistemática você foi me mandando exemplares de diferentes críticos brasileiros e todos acertando no alvo, ainda com mais precisão e propriedade de linguagem do que eu em relação a esse poema esdrúxulo “Vi uma foto de Anna Akhmátova”.
Só por diversão, depois de ler a excelente crítica de Hildeberto Barbosa onde ele ressalta a energia de sua linguagem poética, tinha mandado Cristiane alterar o meu pequeno e-mail inicial (“Gnose”) pela quinta vez, para uso próprio, justamente em cima de uma frase que não me agradava: “(...) ao mesmo tempo espirituosas e fisiológicas.” Nada de fisiológicas e sim carnais, porque nas suas múltiplas visões de Anna Akhmátova, você se “permitiu ver a alma na carne / como numa prisão que Dido faz arder”. Não vou abusar de citações para justificar a inconveniência de minhas palavras diante dessa fogueira. No sentido da crítica temos o bastante em Jorge Tufic, muitíssimo em José Castelo e igualmente forte e desconcertante em Milton Ribeiro.
Fui salvo por uma única palavra: talvez. “Talvez minhas previsões não tenham cabimento.” E pelo visto, a “reação” ao poema começa a corroer a alma dos melhores espíritos quando nos encontramos apenas na overture do enigma.
Fiquei confundido com a existência (ou não) de um amor incestuoso entre mãe e filho, embora os versos nada pretendam esconder: “Não poderia haver arrependimento / do amor restabelecendo o elo / do cordão guardado entre cânfora e mirra...” Ou então: “o longínquo traço de sangue da estrela / entre as raças do incesto, o pudor tardio / fugindo dos meus dedos, / escapando do meu sexo até o dia / de lhe inspirarem horror.”
Aquilo que disse que não iria fazer, estou começando a abusar. Veja como são as coisas que podem ser todas as coisas...

Abraço do amigo,

Francisco Brennand

PS. Obrigado pela versão fotográfica de Balthus. Scarlett, de mais perto, tem cara de fruta.

FB


CARTA III

O Juiz

11 de setembro de 2009


Prezado Fernando Monteiro,

Na sua expressiva carta Hildeberto Barbosa demonstra um entendimento incomum dos alicerces subterrâneos de seus versos, chegando ao fascínio, às vezes, ao espanto e mesmo ao estupor diante do poema “Vi uma foto de Anna Akhmátova”, no entanto, no final, acaba por revelar que: “Quem sabe, eu não escreva um texto crítico sobre ele, vontade não me falta, vamos ver o tempo...” Será que HB não se apercebeu que o texto crítico já estava implícito na carta ou ele distingue entre uma carta particular e um artigo público, evidentemente muito mais comprometedor?
Enquanto isso, na sequência dos acontecimentos, chegamos a um inesperado resultado quando um longínquo leitor de Florianópolis, um juiz de direito aposentado, num gesto enfadonho de fim de tarde, resolve ler um poema que a primeira vista lhe pareceu longo e logo adverte o autor das dificuldades desse empenho.
Na continuidade das primeiras quinze páginas do livro, num crescendo da “overture estranha que leva para o poema uma certa majestade”, o magistrado, prisioneiro de suas interpretações forenses, lembra do “Navio Negreiro”, de Castro Alves, ainda não se apercebendo do rio caudaloso que teria de vadear, embora já deslizasse em “ritmo acelerado e vertiginoso”: “Nada de igual havia sido feito na poesia brasileira”, ele confessa.
O resto não precisa comentar. As cartas estão numeradas. Na número 6, ele fala “no teor erudito, algumas vezes, impossível de devassar o sentido”. Na número 7, ressalta “o esforço inaudito do poeta para evitar a vulgaridade, o lugar comum, etc.” E conclui: “tudo parece ser cuidadosamente construído”. Reconhece, na número 8, “a espantosa estrutura organizacional do poema”. Na carta número 9, o juiz se transforma numa das personagens do próprio poema e é ele aquele que deve julgá-lo em última instância: “A razão de ser do poema é o próprio poema. Todo grande poema postula o mistério. Ou é o próprio mistério. O enigma supremo.”
Ele ainda tem muito mais o que dizer nas cinco últimas cartas, mas ninguém melhor do que o autor para se regozijar em silêncio (com um certo sorriso, embora triste). Eu não sei se foi Borges ou outro escritor citado por ele que propugnava que “o leitor fosse o autor duplicado”.
Apesar do nosso crítico militante Hildeberto Barbosa prometer um possível texto crítico, um juiz aposentado (com muitas horas de ócio), lá nos sítios do longe, fez sua as vozes do JUÍZO FINAL.

Você não pode esperar mais.

Abraço do amigo,

Francisco Brennand


CARTA IV

Mais uma vez, Anna

17 de maio de 2010


Prezado Fernando Monteiro, às vésperas de sua viagem à Andaluzia.

Li, com atenção, a crítica do “Anna Akhmátova”, de Luiz Carlos Monteiro, como uma abordagem completa e erudita de todo o seu poema, além de referências ao seu percurso literário traçado em outros poemas, os quais certamente não deveriam ser ignorados porque são excelentes e, em parte, desvendam um pouco de Anna.
Toda a análise de Luiz Carlos Monteiro navega nos bordos do seu poema e o descreve com a linguagem apropriada dos críticos dando a impressão de tê-lo desvendado de uma maneira arguta do começo ao fim. Não resta dúvida que ele leu o poema várias vezes e que soube dizer tudo aquilo que um crítico de sua agudeza pode argumentar.
Poder-se-ia concluir que o conjunto é altamente elogioso e ninguém pode dizer o contrário, embora, a mim, tenha dado a sensação de que ele esqueceu de alguma coisa que deveria ser dito e ele não disse. Entretanto, uma simples carta (um bilhete) de Francisco Jarauta, confessando “ter lido o poema e dele extraído tantas afinidades poéticas e espirituais... E ainda prosseguir na leitura e assim compartilhar nossas ideias e palavras”, me fornecem, de imediato, pelo tom como foi dito, o quanto o filósofo se apercebeu com quem está tratando. O passado de Jarauta já o autoriza com essas poucas observações, a sua enorme afinidade com aquilo que “Anna Akhmátova” merece. E merece sem nenhuma restrição.
Não me agradou Luiz Carlos Monteiro ter mencionado no seu artigo o seguinte termo: “Captadas pela sutilidade da poesia, mesmo que em regime de incompletitude”. Eu pergunto: que incompletitude e em que sentido? Não entendi.
Com o maior prazer escolhi um dos exemplares do livro BRENNAND (Spalla, 1987), escrito por você. O exemplar já está devidamente embalado e seguirá com urgência para o endereço fornecido por vosmecê. Só não coloquei uma dedicatória porque minha letra macularia o livro. Preferi um cartão onde confesso a minha profunda admiração pelo filósofo, quando assinei meu nome.

Boa viagem para você e Cristina.

Abraço do amigo,

Francisco Brennand

sábado, 21 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXII

UM POEMA RECENTE DE FERNANDO MONTEIRO



“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”



Insepulta jaz a pergunta acima


e bem acima do motivo
supostamente íntimo

visto no verso de um dos últimos poemas de Roberto Piva.


A inquirição, franca, fende a fina porcelana de cera dos ouvidos.



Sabemos da penúria,

porém não queremos saber dela.


Plantamos a flor carnívora,

mas desviamos a vista

quando o jardim do pecado

castiga com isso:

indiferença, acídia, tédio mortal

no peito de avestruzes

(os do estômago forte

para literatura feita

com lixo).



Lixo, lixo, lixo:



afirmou três vezes, o Roberto

Pedro da não-negação pívia,
no vôo de Gavião livre
acima da poesia brasileira
do avestruzismo afundando
no tapete vermelho
dos prêmios paulistas
que nunca foram para as mãos
paulistanas desse ímpio gentil,
suave no convívio
porém feroz na recusa
de comércio literário
& negócios do filth.

Tardia lição de um pária,
a pergunta posta no lixo
basta como indagação direta,
resta como interrogação pura
de dentro para fora da sua vida:
para que ser poeta em época
de bosta blindando tímpanos?



Ainda incomoda muita
 gente,

porque perguntar é claro que ofende
(e elefantes chateiam muito menos,
naquele refrão de cantilena),
a penúria a pesar mais, muito mais, do que setenta e dois mil paquidermes do circo embutido no círculo de dúvidas levantadas pela palavra indicando (múltipla escolha, agora):


A) “Um idoso precisando de grana,
com choro e sem vê-la?”


B) “O solitário sem recursos,
num prédio degradado da Sampa
que faz a delícia dos cineastas
de olho de vidro?”


C) “Aluguéis em atraso, dívidas,
a necessidade de tratar os dentes
de ilustre entre os inadimplentes?”...


D) “Etc etc.”


[OBSERVAÇÃO: Dessa forma, é doce morrer no mar
da pergunta debitada ao desalento, remetida ao gosto pelo autoflagelo,
o fingidor a fingir que a penúria seria só a do poeta,
o mais marginal dentre os vates menos ilustres da nossa lira,
pois Piva não teve sorte na vida, nenhum amigo na Folha
e foi curto minuto no noticiário noturno apenas quando morreu
en passant para a TV voltada para a montanha do Lixo.]



“E para que ser poeta em tempos de penúria?”
é um dedo que nos acusa, trêmulo,
e não devido ao Parkinson do poeta.


O fato é que ultrapassa do tecido biográfico,
dos dados de cartório, geografia e outros
[PIVA, ROBERTO – São Paulo, 1937/2010]
e progride em acusação, do patamar da pobreza
para um geral “mal estar na cultura”,
uma doença suspensa sobre as cabeças
acima das quais paira a cinza
da pergunta do bardo por anos e anos
tentando, na ignorância da penúria,
“ressuscitar a arte morta da poesia;
errado desde o início,
não rigorosamente,
mas vendo que havia nascido
num país meio selvagem,
fora de época”.


Isso é fragmento de Pound,
ou um centavo da sua franqueza
dedicada ao mesmo objeto
do falso desdém
de Marianne Moore:


Eu, também, não gosto dela.
Lendo-a, no entanto, com um
perfeito desdém por ela,
descobre-se na poesia
um lugar, afinal, para as coisas
autênticas.



“Delicada situação
financeira” etc.,

referiram alguns necrológios em lamento
impresso de delicadeza uníssona,
eu reconheço, para com a memória de Piva.


Com certeza, delicada era a espessura
de nuvem
do seu sistema (?) de vida
refletida no espelho d’água
de uma foto fazendo tremer,
na imagem do poeta sessentão,
a marca dos anos finais
de sol negro no seu endereço
de solidão no centro populoso
da maior cidade da América Latina:


Aqui morou um menino de fazenda
transformado em poeta urbano
de capa do terceiro caderno
que o mendigo depois usa
com finalidades higiênicas.


Nas páginas de jornais,
quando acontecia de se lembrarem dele,
Roberto sabia encenar para a estagiária
enviada da redação (a propósito de qualquer besteira),
o lirismo transverso de uma espécie de anjo
decadente a fazer aquelas perguntas tortas
pelo mau uso do cachimbo fora das bocas
da moda em Liberdade, Vila Olímpia
e Moema.


Não era, entretanto, um amador em espetáculo
performático (y otras frescuras),
e o caso da pergunta que ele deixou perfilada
num verso até simples,
adverte o tempo de aposentar poetas,
abre o verbo,
diz claramente:
em épocas de penúria deprimindo o espírito,
a poesia se torna absurda,
sem sentido, dispensável, inútil,
deslocada e carente de público
inclusive para ouvir o tilintar
do dinheiro, realmente,
num poema de Ritsos:


Tarde sombria como um bolso vazio.
No fundo do bolso um buraco doce, penugento.



Por lá passas um dedo em segredo,
tocas a própria coxa como se tocasses
outro corpo, maior, estranho, profundo
– o corpo da noite ou da tua morte.



Por esse buraco caem as moedas todas,
mesmo as de ouro, cunhadas com a efígie
esplêndida e jovem do Príncipe dos Lírios.


A pergunta de Piva – essa fissura –
revela meramente o que ela revela,
pois o cão do derradeiro livro
não produziria um ganido,
ao latir para tímpanos blindados
pela incultura.


É claro que faltavam conforto, vinhos
e rosas,
sendo parcas as rendas do herdeiro
de antigas terras sumidas
com roseirais na bruma.
E poucos os meios (mais do que os fins)
para os longos fins de semana,
o garoto da banca de revistas,
a importada edição dos inéditos
de Pier Paolo Pasolini.


Tudo tão verdadeiro quanto distante
da essência de outras penúrias
entre esquinas de garoas
e galerias de arte em vernissages
cujo rumor de cálices noturnos
chega aos guardadores de carros
como a música do paraíso
de inalcançáveis perdizes.


Para que ser poeta em tempos assim?


Quando Piva faleceu (e faz pouco tempo),
todos evitaram cuidadosamente
a simplicidade desconcertante
da interrogação relativa
aos Tempos de Penúria
Intelectual,
Moral,
Social,
Sexual,
Musical,
Teatral,
Poetal,
Caricatural...
virando uma exposição no MASP,
um patrocínio da Lei Rouanet,
uma loucura domesticada,
uma homenagem ao terraço Itália,
uma retrospectiva de metrô dedicada ao Bardi
e esquecida dos Flávios da família patrícia
da Casa do Caralho pichado
no monumento àquela revolução
Constitucionalista (com “C” grande)
que é um caso de São Paulo,
como Jânio Quadros,
os Mutantes,
os irmãos Campos
e Hebe Camargo.


Tudo isso está saindo assim
para dizer que Piva começou
quando das edições de Massao
(por favor, não deixem morrer o Editor, sem que ele ouça o “Ohno!” sendo chamado entre os nomes fundamentais da fé clara na poesia, numa época de treva),
os livros despontando da Oscar Freire
entre aguardente e rara consolação
de um Piva no meio dos pífios
entre poetas lançados assim mesmo
(o samurai não usava a katana,
mas longos cabelos de Mifune
e o olho de receber uma Hilda Hilst
com todas as honras).


Hilda! Era instigante encontrar pessoas estranhas
nos bares, moças de botinas, atores que não dormiam,
atrizes que fumavam demais,
gente saudável do modo mais incorretamente político
possível entre invernos e repressões,
notícias vagas de espiões
e manifestos da classe unida
para terminar em separação,
“Diretas Já!”
e outros gritos que vulgarizam poemas
ditos longos (e pré-ditos), elegantes,
essas porras de novo,
e Piva e a prova de que nada muda
– quando no fundo se deseja
a mudança de Lampedusa,
de Salina para Salina.


Fui mal, nessa tentativa de síntese.
Sou ruim, quando se trata de ver de longe
e de perto ao mesmo tempo.


Finjam que não leram,
e recomecemos dos escândalos paulistanos
que sempre terminam bem absorvidos
pela capital grande demais para se assustar
com uma arenga de artista.


Roberto Piva, apesar disso,
bem que tentou,
enquanto seus amigos agora respiram,
afinal saudosos, aliviadamente,
na neblina.



Ele aceitou pisar ao
contrário

na sarjeta cuspida pelos mendigos,
entre seringas e camisinhas usadas
por trás de fumaças das pamonhas
cozidas para os nordestinos
da São João dos antigos cinemas
pornôs reforçados por sexo ao vivo.


Era o puro desespero que Piva via
no palco e na platéia de mãos sujas
de esperma e gosmenta casca de milho
no chão das salas vinte e quatro horas
sem limpeza,
até vir uma mulher com o uniforme de serviço
a fim de suportar a imundície removida com pá,
porém sem a luva de uso “uma por vez”
de recomendação da Saúde Púbica.


Roberto Piva estava pobre e triste,
porém a pergunta que ele deixou
feita para a Indiferença,
dirigida ao Tédio,
destinada à Morte (e fim),
não dizia respeito somente à conta bancária
de movimento certamente ridículo
para o critério dos cheques especiais regulados
pela central de algum banco centralíssimo
na Paulista ou no antigo Viaduto do Chá
sem meias xícaras de medidas
contra o comércio de artigos de plástico
dos miseráveis que comoviam o poeta,
uma vez que as lágrimas de Roberto
raramente eram para si mesmo,
a cara amassada no espelho
implacável da queda dos cabelos
também nos travesseiros
ligeiramente azedos
da longa noite sozinho,
sem beleza.


Tenho uma história para contar, ainda.


De certo modo, é uma história sobre Piva e eu,
que nunca nos conhecemos em São Paulo
ou no Recife ou em outro lugar qualquer
deste país de bienais e flips, flops e flups.


Acontece que alguém de um “Círculo de Leitores OF”
(assim mesmo) resolveu me convidar para ler
fragmentos de Vi uma foto de Anna Akhmátova
e eu perguntei se pagavam,
e a moça do outro lado da linha
[num mau poema, isso quer dizer telefone]
respondeu que “ofereciam passagem e hospedagem”,
mas cachê não.


Pagamentos eram para a sala,
para “o rapaz do som”, “a companhia de eletricidade”,
a “gráfica dos cartazes” e tudo o mais,
menos para o poeta convidado para recitar poemas
ou que raio fosse (digo eu).


Irritado, eu emendei: “Dizer poesia”.
Ela disse: “Pois é. Não há dinheiro para isso.”
Eu disse: “Eu já entendi. Mas você devia ter dito DIZER POESIA,
em vez de recitar poemas.”
Ela disse: “Hein?”
Eu desisti.


Mas voltei a perguntar: “E o que é OF? É inglês?”
Ela disse: “Não! É Orides Fontela. Circulo de Leituras Orides Fontela”...


Então, eu aceitei ir “recitar poemas”,
isto é, aceitei viajar sem ganhar um centavo,
com um propósito “nobre”, “cultural” (essas merdas)
embora a própria Orides houvesse escrito belamente:


Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.


Como eu poderia cobrar alguns trocados
de um Círculo de Leitores tocando
a memória tristíssima da poeta mais pobre do mundo?


Orides Fontela foi despejada,
ficou sem lugar para morar
e teve que se alojar de qualquer jeito
na Casa do Estudante,
na mesma Avenida São João que você conhecia tão bem,
meu poeta (alguma vez chegou a ver Orides
recolhendo algum bichano transido de frio
entre uma delicatessen e um hotel para lúmpens?)...


Esse convite foi na semana em que você morreu, Piva,
eu estava comovido e a lembrança da pobre Orides
veio destroçar ainda mais a minha resolução de cobrar
pra viajar com rota e para um Círculo liso,
com a finalidade de ler partes do Anna Akhmátova
ou qualquer outra excrescência de tempos de penúria
(para que ler poesia?), de maneira que eu propus:
“Eu aceito, mas vou para falar sobre o Roberto Piva”.


Ela: “Quem?”
Eu: “Piva, o poeta que acaba de morrer.”
Ela: “Era seu amigo?”
Eu: “Não”.
Ela: “E por que o senhor quer falar sobre ele?”
Eu: “Porque um dos seus últimos versos não me sai da cabeça”.
Ela: “É tão bonito assim?”
Eu: “Versos não precisam ser bonitos. Versos precisam ser verdadeiros.”
Ela: “Diga ele”.
Eu: “Diga-o”.
Ela: “Eu não sei qual verso é esse que não sai da cabeça do senhor.”
Eu: “Eu sei.”
Ela: “Então, diga”.
Eu: “E para que ser poeta em tempos de penúria?”


É claro que eu terminei indo lá,
no Centro de Leituras Orides Fontela,
e falei sobre Orides e sobre Roberto,
ambos pobres e doentes e grandes poetas
que São Paulo ignorou de diferentes maneiras,
autorizando o Brasil a ignorá-los também.


Porque, realmente, não há nenhuma razão
para se ser poeta em tempos de penúria
feita da não-percepção do muito que depende
de um “carrinho de bebê vermelho ao sol”
ou qualquer outra banalidade aparente
voltando num sonho leve como avencas
na sombra do perdido paraíso da infância
de vagalumes presos.


Eles estavam já apagados, Piva,
na palma envelhecida de Parkinson e saliva,
cansaço e mais “os anos sem emoção” (...)


São Paulo desaparecera por detrás da juventude
da geração de Robertos confiados
(de modos diversos) na aventura da vida
a trair pelo menos os Pivas (e as Orides).


Não há mais poemas nos muros de eleições sem inspiração.
Não há mais inspiração para seja o que for que ainda não tenha sido traído
ao menos por distração (concedido seja o beneplácito da dúvida sobre a determinação de algumas traições).



“E para que ser poeta
em tempos de
penúria?”



Você perguntou tão francamente
que ninguém poderia prestar muita atenção,
meu poeta pronto para morrer desse lamento,
além da doença e da orfandade de si,
Orfeu perguntando “para quê”?...


E todos fazendo como se a pergunta
não fosse com ninguém,
além do próprio poeta Piva.


[NOTA: O poema já estava terminado – exatamente no dia 3 de agosto, um mês após a morte de Roberto Piva -- quando me deparei com a seguinte notícia, conservada na internet: 13 de junho de 2010... O editor Massao Ohno, de 74 anos, morreu anteontem à noite na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, onde estava internado havia uma semana etc. Apesar disso, decidi manter o verso referente ao Massao – verso que ainda o toma por vivo – íntegro no seu engano, uma vez que a notícia sobre a morte do Editor, despercebida, é mais um exemplo dos “tempos de penúria” de que fala o verso do Piva. FERNANDO MONTEIRO]

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXI

O ENCONTRO DE GRACILIANO COM DRUMMOND

Graciliano Ramos havia saído da prisão no dia treze de janeiro de 1937. Fora preso sem motivação plausível, talvez pela suspeita de pertencer ao partido comunista ou de ser simpatizante do movimento subterrâneo da esquerda anterior ao Estado Novo. Liberto, após quase um ano de detenção, sem emprego ou renda, Graciliano passou a morar na casa de José Lins do Rego. Na busca de opções para ganhar algum dinheiro, anima-se a participar de um concurso de literatura infanto-juvenil, estimulado pelo pintor Santa Rosa.
Certa tarde, dirige-se ao Ministério da Educação e Saúde, cujo titular era o mineiro Gustavo Capanema, para saber informações sobre o prêmio. O evento acontece e é relatado em etapas, desde a sua chegada ao ministério, interação com o ascensorista, negação e indiferença ao cumprimento do Ministro e, ao fim, o encontro com Drummond:

“Duas horas. O Ministério fica no edifício onde está o cinema Rex. Entrei. Estou tranquilo no elevador, esperando um momento oportuno para perguntar ao ascensorista em que andar devo descer, quando o mesmo se empertiga como um recruta ao receber brado de sentido dado por um sargento valentão. Talvez exagere, bateu os calcanhares. Aprumado, disse obsequioso:
- Boa tarde, Senhor Doutor Ministro.
Não olhei para quem entrava; não conseguia tirar os olhos do ascensorista. Despertava-me maior curiosidade naquele instante. Era o típico mulato carioca, cheio de mesuras e rapapés, magro e desengonçado, vestido de azul-marinho, terno já surrado, mas impecável na limpeza. Usava um estranho bonezinho na cabeça, de tamanho menor que a circunferência do crânio. Ficava meio no cocoruto, como se fosse chapéu colocado na cabeça de um burro. Olhando melhor, vi que parecia um desses bonés de motorneiro de bonde. Com meus botões pensei que o mulato devia ser mesmo militar. O hábito do quépi faz o monge. Queria saber de onde tinha desentranhado o “Senhor Doutor Ministro” e o boné.
Nisto dou de cara com o Ministro Capanema. Mineiro compenetrado, tinha o nariz avantajado (quase de negro) e o beiço caído. Bochechas grandes e flácidas. Reconheceu-me, creio, e esboçou gesto de cordialidade na minha direção. Não posso adivinhar a cara que fiz para a S. Excia., sei que cortei o seu gesto pelo meio. Subimos. Deixei que descesse primeiro e fui até o último andar. A sós com o mulato do boné, perguntei-lhe onde poderia obter informações sobre um concurso infantil do Ministério. Indicou-me o andar, já sentado de volta no seu tamborete. Aliás, nele sentou-se tão logo fechou a aporta nas costas do Senhor Doutor Ministro.
O andar era o mesmo em que tinha descido o Ministro. Pelo visto, deste eu não me escapo. Pensei melhor: ridículo um Ministro de Estado a dar informações.”

Como se pode observar, o escritor Graciliano, na perquirição de tipos sociais, prefere observar o traje e os hábitos do ascensorista, deixando de lado a figura imponente do Ministro. O flagrante imperdível do “mulato carioca”, sem que perceba a indelicadeza que está a cometer, paralisam-no momentaneamente. Ultrapassa a condição civilizada, embora “selvagem”, do homem que era, para se fixar na personagem humilde e pitoresca do mulato, facilitada pela visada do escritor. Cede à compulsão literária em detrimento da vida prática. E, no âmbito profundo da situação, contrapõe o mulato ao Ministro, o negro ao branco, o servidor público modesto ao funcionário do alto escalão getulista. Retorna à própria condição implícita de ex-detento, à realidade viva, chã e deprimente, embora sem jamais esquecer a suspensa e simultânea de escritor. Neste tempo mínimo, em que ocorrem coisas somente vistas a fundo por ele, prepara-se o encontro com Drummond:

“Na saída do elevador deparo-me com um poeta mineiro, que veio para o Rio junto com Capanema para ser o seu auxiliar de gabinete, de quem elogiam o caráter e a poesia. Seu nome escapa-me. Magro e taciturno, tímido e falante ao mesmo tempo, trocamos muitas palavras dentro de uma sucessão de mal-entendidos mútuos. Ele fazia questão de não mencionar a situação passada, escondendo-se por detrás do leitor atento e apreciador dos meus livros. Eu, querendo apenas pedir-lhe informações sobre o edital, retribuía as honras e os elogios literários.
Eram dois escritores que se encontravam à entrada de uma Academia de Letras. Competia a mim acabar com a situação falsa, declarando o motivo da minha presença naquele lugar. Se não o fizesse, na certa pensaria que tinha vindo visitar o Ministro. Nunca se sabe neste país. Escrevendo agora e conhecendo a matreirice dos mineiros, não posso deixar de pensar que Capanema tinha de propósito colocado o auxiliar na porta do elevador, á minha espera. Conhecendo ainda como as coisas da literatura se passam nesta província chamada Rio de Janeiro, tenho a certeza de que alguém – talvez o Zé Lins, ou mesmo o Santa – já tivesse advertido o Ministro da minha intenção em concorrer ao prêmio infantil. De qualquer forma, expressei o motivo de eu estar ali.
De imediato, levou-me a uma sala onde uma senhora velha e gentil deu-me a cópia do edital. Agradeci a ambos e fui rever o amigo de boné de motorneiro. Deixou-me de volta, na entrada do edifício.”

Essa suposta visão de Graciliano sobre Drummond e o Ministro é um tanto crua, seca, ressentida e enviesada, originária de quem havia feito uma viagem no porão de um navio de Alagoas ao Rio de Janeiro, passando pelo Recife, sem falar nos maus momentos atrás das grades da prisão da Ilha Grande, como conta com riqueza de detalhes ficcionais e reais em Memórias do Cárcere. Seu modelo de poeta configurava-se no pernambucano Manuel Bandeira, tanto pela qualidade e pelo tipo de poesia que este escrevia e que o tocava mais de perto, quanto pelo comportamento áspero e fechado de ambos. É difícil de acreditar que Graciliano, no íntimo, fosse indiferente à poesia drummondiana, mas o que os afastava naquela ocasião mostrava-se como a instabilidade de vida prática e temporariamente precária do ex-detento frente à adaptabilidade, presteza e desenvoltura do tímido assessor do Ministro.
Contudo, isso não foi escrito nem contado pelo escritor alagoano. Faz parte de um trecho do livro Em liberdade (1981), do escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago, que imaginou um diário de Graciliano da fase pós-prisão, no espaço temporal exato de 2 meses e 13 dias. Santiago encarnou a pele e certas nuances da escrita do autor de Angústia e construiu uma obra única e antecipatória dos efeitos paródicos do pós-modernismo e do deslocamento de personalidade e transferência da escrita de um escritor em relação ao outro. Nada disto se faz sem empatia, admiração ou identificação com a obra do Outro. Contudo, não há confusão estilística ou imitação pura e simples – a maneira estético-literária de Salviano não se perde na de Graciliano. O crítico mineiro preserva sua forma de escrever ainda quando absorve instantâneos da secura, da contundência e da precisão inconfundível no trato com a palavra do ficcionista alagoano.
Com A Terra dos meninos pelados, Graciliano ganha o prêmio do Ministério da Educação e, no mesmo 1937, inicia sua colaboração de cronista para um jornal de São Paulo, falando sobre assuntos cotidianos, que assolavam o homem comum, sem deixar de noticiar os acontecimentos literários, como lançamentos de novos autores. Posteriormente, ao filiar-se ao Partido Comunista, trava relações mais amistosas com Drummond nos eventos da União Brasileira de Escritores. É possível que tenha apreciado A Rosa do Povo (1945), como um livro que retratava intensamente um período focado na finalização da Segunda Guerra Mundial, no pânico que se espalhava pelo mundo através dos pactos e negociações bélicas. O poeta apontava caminhos e atitudes militantes, reforçava com sua poesia a luta da esquerda no Brasil, através da palavra solidária, indignada e empenhada daqueles anos.