sábado, 20 de novembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVII


EM ALGUMA PARTE UMA COROLA

Luiz Carlos Monteiro

“Uma corola” é o poema que contém internamente o título do livro de Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma (Rio, José Olympio, 2010). Tanto faz que essa corola esteja (ou esteve) em São Luís do Maranhão ou na Rússia, no Rio de Janeiro ou em Santiago do Chile. E se, opostamente, não está nos lugares demasiado conhecidos do poeta, pelo menos esplende, fulge em alguma parte alguma da vida. Conforme a interpretação que se dê, pode-se pensá-la como cota de lirismo poético fornecida pelas musas ou esperança com serenidade nos propósitos revolucionários de mudança social. Porque o percurso de Gullar envolve tudo isso, e mais: o testemunho da deterioração do jogo ético mais sensato, justo e solidário em favor da rapina e da corrupção, o sofrimento pessoal e familiar na experiência do exílio involuntário que deu lugar à escrita de um longo poema, o Poema sujo (1976), que abalou as estruturas da poesia brasileira. Ninguém ainda havia escrito daquela maneira desabrida, irrefreável, direta e irreverente por aqui.

Não será difícil ao leitor de poesia apreender a fala reinventada de Gullar no seu novo livro, no ano em que completa 80 anos de idade e recebe, merecidamente, o cobiçado Prêmio Camões. A sua trajetória existencial, com fortes entradas no político, sempre se associou à poesia e à arte, e vice-versa. A capacidade de pensar os movimentos literários e artísticos do século 20 e depois, situa largamente os feitos do ensaísta e do crítico, do teatrólogo e do neovanguardista. E também do militante destemido e explícito, em alguns momentos clandestino, que trabalhou uma poesia de luta e indignação contra a opressão e a tortura, as perseguições e injustiças sociais, em livros como Dentro da noite veloz (1975) e Na vertigem do dia (1980).

Mesmo que certo público se tenha acostumado à voz coletiva do poema, nunca deixa de haver a dicção individual do poeta Gullar. E esta dicção já produz há bastante tempo uma fala reconhecível pelos que o leem. O ritmo, a força e a agilidade de seu verso facilitam a empatia de numerosos leitores, magnetizados e presos até o término de cada poema lido como experiencial real e sensível.

Nas partes II e III do livro, assuntos e preocupações antigas de Gullar se insurgem com mais força nos poemas que se referem a artes plásticas e a indagações cósmicas. A pintura e a escultura saltam dos ensaios e se abrigam na poesia. A pera que apresenta uma falsa figuração da vida na pintura, dura mais que a sua versão verdadeira e natural de fruta. Quando o corpo do morto que não pode ser revivido pela arte, resta ao artista Siron apenas “imprimir as marcas da morte ausente/ e vil/ no leito de concreto/ metáfora brutal/ da vida que explodiu”.

O imponderável do cosmos sofre comparações, buscas e explicações que ficam geralmente no plano obscuro das especulações, das respostas não encontradas. Contudo, Gullar fala de ciência e universo sem resquícios de pedantismo positivista, evitando a superficialidade, o esvaziamento e a racionalização tópica de uma temática ou assunto no poema. Estabelece fluxos dialéticos entre o perfume do jasmim e a podridão de bananas e peras, a pequenez da mosca, do gato e do homem frente à amplidão cósmica, a dimensão ínfima da terra em relação a qualquer estrela, a escala crescente que vai do planeta à galáxia.

O tom geral é de desordenamento da linguagem e indagação constante, recriação em torno do mesmo e do conhecido, com imagens captadas de escritos anteriores em visões pedestres e aéreas, palavras distribuídas espacialmente entre travessões e parênteses. Observa-se a intrusão de questionamentos sobre a escrita e a consciência a instigar a consciência de si e do mundo, a escrita que não se quer totalizante nem mercadológica, apesar do “suposto prestígio literário”, como nos poemas “Nem aí...” e “Off price”.

É constatada a precariedade do “não dito” como algo que foi “dito”, revelando o impasse do poeta diante do que se ocultou no tempo e não veio à fala, do que não se conseguiu transformar em palavra. Situações, vivências, sensações, distâncias mostram-se às vezes inalcançáveis à sua verve pela impossibilidade de se dizer tudo, de esgotar o possível da fala, independentemente de fôlego poético e vontade individual. Ao ser instaurado um "branco", um vazio se associa e limita-se com as circunstâncias externas de concepção e consecução do poema, entravando a disposição criativa. Tal frustração momentânea não logra impedir o desempenho posterior da poesia, facilitando a recepção e a realização de outros poemas que o redimem frente àquela incapacidade provocada pela “desordem” de ficar “o não dito” pelo “dito”, como no poema de abertura, “Fica o não dito pelo dito”.

A desmemória involuntária de Santiago do Chile e a perquirição metafísica da morte em Rilke completam este ciclo de poemas. Voltar a Santiago não traz mais a experiência algo romântica do exílio, a saída do país envolta em precaução, mistério e clandestinidade. A cidade e o tempo não são mais os mesmos, e as lembranças do passado recente cedem lugar à visada de uma outra capital chilena sem Allende nem impulsos de revolução, mais urbanizada, globalizada e impessoal. O longo poema sobre Rilke flagra o corpo do poeta a se debater ante a proximidade da morte, a solidão indescritível de quem reluta em abandonar o mundo e a vida: “Assim se acaba um homem/ que sem resposta iluminou/ o indecifrável processo da vida/ e em cuja carne sabores e rumores se convertiam/ em fala, clarão vocabular,/ a acessibilidade do indizível.”

Entre desordem e razão, aparência e profundidade, estrutura e sentido, Gullar pensa o poema por dentro e por fora. Reafirma conexões que vão do racional ao delirante, da matéria à sensação, da linguagem poética à vida prática. E sem temer paradoxos, dicotomias e contradições, compõe os elementos estéticos gerais e vitais de sua poesia em permanente e saudável confronto consigo mesmo e com o mundo externo.





domingo, 14 de novembro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias XXXVI

GERAÇÕES

                                 Luiz Carlos Monteiro

Os símbolos de uma época
que lentamente expira

são como signos datados
de outras épocas antigas

obedecendo à lógica
mais natural de um ciclo

interminável do cosmos
que se repete nos dias.

E assim pouco a pouco
são desmontados os ícones

e vão desabando os líderes
da época que se extingue

ídolos de massa e profetas
visionários poetas artistas

substituídos por outros
que irão também extinguir-se

na roda viva do tempo
sem hora marcada ou aviso.

(Inédito, 2010)

CARLOS PENA FILHO / 50 ANOS DE MEMÓRIA

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

CRONISTAS DE PERNAMBUCO (4ª CAPA)

Esta antologia reúne uma centena de textos de cronistas nascidos, radicados ou que viveram em Pernambuco e, mais particularmente, numa cidade, o Recife. Muitas histórias e assuntos aqui desenvolvidos se ramificam em situações, vivências, paisagens e lugares outros. Mas a cidade do Recife se faz presente e cumpre sua função inaugural de instigar poetas, ficcionistas e cronistas. Autores que não conseguem esconder em sua produção literária o melhor de si. A prova disto é a predominância do texto de qualidade, atendendo ao desempenho pessoal de cada um. Alguns desses cronistas são nomes já consagrados na cena literária brasileira. E há também os estreantes, os que publicam pouco ou os que ainda não têm livro editado. Todos se alinham numa convivência democrática que não busca escamotear a escolha literária consequente e o critério estético definidor. Vez ou outra o leitor pode deparar-se com crônicas radicalmente diferentes em forma e sentido. O que não invalida a tentativa de ampliar dicções e atitudes resultantes e originárias do trabalho solidário e participativo. Cronistas de Pernambuco mostra-se como livro substancial e necessário, que se soma aos volumes publicados anteriormente, de poesia e de conto, formando a trilogia Pernambuco em antologias. Dicções, atitudes, gestos e falas internas e externas que não se realizam apenas para um autor ou para um grupo reduzido, mas para todo um conjunto de escritores. O fato inconteste e o fator positivo é que este Cronistas de Pernambuco representa uma lacuna enfim preenchida, que o leitor tem agora em mãos, podendo desfrutá-lo do jeito que melhor preferir.

VÍDEO DE PERNAMBUCO EM ANTOLOGIAS

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A POESIA COTIDIANA DA CRÔNICA



Prefácio
Luiz Carlos Monteiro

A crônica é um gênero literário polêmico por excelência. Da sua origem remota em sintonia com o relato histórico organizado no tempo, passando pelo ensaio e o folhetim até chegar aos nossos dias, quando se consolida na fronteira entre a poesia e o conto, o lirismo subjetivo e a narrativa cotidiana, há um longo percurso. Já na primeira metade do século XIX no Brasil, a crônica funcionou, nos poucos jornais existentes, como folhetim de derivação francesa. A narrativa domingueira e eclética dos fatos políticos, históricos e culturais do cotidiano, que saía no rodapé da primeira página dos jornais, sustentada no modelo francês, teve seus cultores iniciais na voga romântica, cujo representante principal foi José de Alencar. O escritor romântico manteve semanalmente, entre 1854 e 1855, uma seção famosa, “Ao correr da pena”, nos jornais cariocas Correio Mercantil e Diário do Rio de Janeiro. Nos folhetins que publicava, Alencar aproximava-se da literatura ficcional, ao imprimir a sua maneira e o seu estilo aos textos: “Ao mesmo tempo em que ele contemplou a variedade de assuntos, achou lugar para o sonho, o humor, o devaneio, a fantasia e as descrições exuberantes da natureza do Rio de Janeiro, que revelavam desde então as qualidades do prosador que logo se afirmaria no cenário nacional” (1). Posteriormente, em 1856, Alencar inaugurou a seção “Folhas soltas” no Diário do Rio de Janeiro (do qual foi diretor), cujos textos, mesmo não tendo a periodicidade da coluna anterior, traziam agora o feitio característico da crônica, sem estar presos ao noticiário ou aos fatos jornalísticos.

O outro grande cronista da época foi Machado de Assis. Diferentemente de Alencar, o autor de Dom Casmurro questionava por dentro as relações entre texto literário e linguagem jornalística, a partir dos diversos moldes jornalísticos então utilizados na crônica: “Machado de Assis é o cronista que buscou a maturidade estética da crônica, tornando-a um gênero de natureza híbrida que pode abrigar várias linguagens no jornal e manter uma independência linguística ante o folhetim e o discurso jornalístico de sua época” (2). As transformações locais sofridas pela crônica, notadamente no Rio de Janeiro, fizeram com que recebesse contribuições definidoras que autorizam muitos críticos e estudiosos a considerá-la como modalidade desenvolvida ao extremo no nosso país. É dessa forma que ela é vista por Massaud Moisés: “(...) é certo que, pela quantidade, constância e qualidade de seus cultores, a crônica semelha um produto genuinamente carioca. E tal naturalização não se processou sem profunda metamorfose, que explica o entusiasmo com que alguns estudiosos defendem a cidadania brasileira da crônica: ao menos em relação à crônica dos nossos dias, tudo faz crer que raciocinam corretamente” (3). Chega-se a outros cronistas de especial relevância, numa série temporal que envolve os nomes de Olavo Bilac e João do Rio, Mário de Andrade e Rubem Braga, tendo este último atravessado, depois que começou a publicar em 1928, quase todo o restante do século XX a escrever crônicas de grande sucesso de público.

Uma das antologias mais recentes que pudemos conferir, Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria, organizada pelo professor Douglas Tufano, alinha apenas dez cronistas. São cinco cariocas – Carlos Eduardo Novaes, Lima Barreto, Luís Martins, Machado de Assis e Olavo Bilac, três mineiros – Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, uma cearense – Rachel de Queiroz e um paulista – Lourenço Diaféria. O pequeno número de cronistas, com predominância do Rio de Janeiro, é compensado pelo número de crônicas, numa média de cinco para cada um deles. É bem menos conhecido fora da sua terra do que os outros, Lourenço Diaféria, embora seja tido como o legítimo representante da crônica paulista. Esse fenômeno ocorre também em Pernambuco com um autor enraizado feito Renato Carneiro Campos, o cronista natural e abalizado do Recife. Outro nome sui generis da antologia de Tufano, o poeta Paulo Mendes Campos, ombreia-se com o do pernambucano Nelson Rodrigues na valorização da crônica futebolística. O formato curto e a aproximação ao ficcional e ao subjetivo logram sugerir propósitos de concepção do organizador, ao ressaltar o “compromisso” dos cronistas com a “vida concreta”. Fornece, em poucas palavras, uma definição da crônica moderna: “Hoje as crônicas em geral são mais curtas, os autores gozam de uma liberdade de expressão maior, o tom subjetivo é mais acentuado, os elementos ficcionais estão mais presentes – mas todas guardam seu compromisso com a vida concreta, mesmo quando parecem não estar falando dela” (4).

Voltando um pouco no tempo, uma coletânea que teve grande alcance de público, Elenco de cronistas modernos, continha apenas sete autores: Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. A afluência regional era menos acentuada, e o número de crônicas, dez para cada um. Mas, todos tinham sido editados pela extinta Sabiá, no que se constata facilmente que o critério geral de inclusão foi esse (5).

Ao prefaciar um dos volumes da conhecida série Para gostar de ler, Antonio Candido afirma que a crônica “elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser natural. Na sua despretensão, humaniza; e essa humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição” (6). Eis aí, sem tirar nem pôr, o que seria um dos papéis fundamentais da crônica: humanizar e, no mesmo compasso, nos aproximar ao “modo de ser mais natural”. Dessa humanização, que reaquece linguagens e procedimentos, é que se chega ao texto acabado, livre das intrusões que o tornam frágil, gorduroso e destituído de seus sentidos inaugurais e extensivos. Por isso mesmo, foi facilitada uma ampliação da leitura da crônica no Brasil, vetorizada em formas esteticamente expressivas oralizadas (inicialmente no rádio) e escritas (na revista e no jornal) que intentavam comunicar quase sempre o que se queria ler, sentir e escutar. A permanência vigorosa da crônica nos jornais brasileiros era somente interrompida em circunstâncias imperiosas e superiores, que não dependiam exclusivamente dos cronistas, como, por exemplo, a morte. Mas, enquanto vivo, cada cronista recriava o cotidiano a partir do seu campo de observação, com sua visada pessoal que elegia o homem e a vida como objetos primeiros e privilegiados.

Nossa antologia inicia-se no Recife do século XIX, com um cronista de costumes, o Padre Lopes Gama, que passou a editar a partir de 1832, com algumas interrupções, um jornal implacável, O Carapuceiro. Nesse jornal, Lopes Gama fustigava todos os segmentos da sociedade, sob os pontos de vista moral, religioso ou político. Dele publica-se aqui a crônica “As palestras da ponte da Boa Vista”, uma viagem irônica, irreverente e bem-humorada por uma tipologia humana que se reunia diariamente na ponte em torno a conversas sérias ou maledicentes que dependiam dos caracteres sociais e humanos de cada grupo (“rabequistas”, “gamenhos”, “jogadores”, “políticos”, “cavaleiros da indústria”) (7). Na condição de cronista mais antigo desta coletânea, Lopes Gama enseja os passos inaugurais da prática jornalística de se fazer crônicas. E exatamente por isso, como não poderia deixar de ser, que a maioria dos autores aqui presentes é composta de jornalistas de batente ou que exerceram atividades de jornalista. Há, também, os que têm outras atividades, no âmbito artístico ou profissional, mas que não deixam de rabiscar a sua crônica e publicá-la em jornal ou livro. Escritores que se completam no romance, no conto ou na poesia, emprestam também a sua contribuição.

O Recife de Mário Sette é um capítulo à parte. Na crônica “Não há quem dê mais?”, do conhecido livro Arruar: história pitoresca do Recife antigo (8), Sette discorre sobre os leilões em domicílio que ocorriam rotineiramente no Recife do século XIX. Casas eram invadidas por agentes, licitantes e curiosos, uns ávidos por uma boa negociação, outros simplesmente para especular como vivia a gente que estava a vender seu mobiliário, na ânsia de desvendar segredos familiares, normalmente fechados ao público.

Uma boa quantidade de escritores que ultrapassaram com seu nome as fronteiras pernambucanas faz-se presente nesta antologia: Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Manuel Bandeira, Mauro Mota e Osman Lins. Dentre os que aqui viveram por um tempo, mas que não deixaram de lembrar o Recife em seus escritos, encontram-se Nelson Rodrigues, pernambucano que se radicou no Rio, cuja crônica, “O menino de Pernambuco”, é sintomática de sua infância recifense; Clarice Lispector, que passou parte da infância no bairro da Boa Vista, não tendo jamais esquecido a cidade; Raul Pompéia, que com um grupo de colegas deslocou-se em 1885 de São Paulo ao Recife a fim de concluir o curso de Direito; e Rubem Braga, que esteve aqui de maio a setembro de 1935. Braga conviveu com intelectuais e boêmios locais, frequentou a zona do meretrício e escreveu crônicas que se popularizaram em todo o Brasil. Fez amizade com Valdemar Cavalcanti, Manuel Dié­gues Júnior, Capiba, Noel Nutels, Fernando Lobo, Cícero Dias, Odorico Tavares, Gilberto Freyre, entre outros. Escreveu 25 crônicas no Recife para a Folha do Povo, jornal da Aliança Libertadora Nacional nordestina, que ele editava. Depois de três prisões, deixou a cidade em 13 de setembro de 1935, com destino a Porto Alegre e daí ao Rio de Janeiro (9). O cronista-compositor Antônio Maria, que viveu até o início de sua juventude no Recife, passando a morar depois no Rio de Janeiro, repartiu-se entre a crônica dessas duas cidades. Suas lembranças recifenses fornecem um painel lírico e urbano de fidelidade e paixão pela cidade; do mesmo modo, quando escreve a crônica carioca, consegue, com familiaridade, retratar amigos, absorver recantos boêmios, dobrar ruas e esquinas do Rio, relatar situações cotidianas com um profundo sentimento lírico.

Além da crônica-poema, como é o caso da que escreveu Everardo Norões, “Um certo padre Gomes”, o leitor vai dispor também de crônicas-perfis de autoria de Gladstone Vieira Belo (tendo como objeto o jornalista Antônio Camelo), de Osman Lins (que mostra a relação de amizade de Osman com o crítico e antropólogo Anatol Rosenfeld), de Paulo Cavalcanti (que reúne, num só texto, o poeta Mauro Mota e uma visada panorâmica e saborosa do Recife que este viveu). Nesse ponto, uma cronista brasileira da maior importância vem à lembrança, Rachel de Queiroz, que teve recentemente uma seleção de suas crônicas feita por Heloisa Buarque de Hollanda. Sobre os “perfis definitivos” em forma de crônicas elaborados por Rachel, notadamente um sobre o Padre Cícero, pronuncia-se Heloisa Buarque: “A galeria de personagens inesquecíveis, lendas e lembranças da seca, fatos curiosos e flagrantes do cotidiano é a matéria-prima central com a qual Rachel trabalha suas crônicas e sua expertise narrativa” (10).

Das crônicas sobre a cidade do Recife e suas manifestações culturais e festivas, seus personagens populares e sua convivência boêmia, sua compulsão libertária e seus novos-ricos, seus becos obscuros e seus locais públicos, a mais representativa é, certamente, “Recife”, de Renato Carneiro Campos. Que vem escrita em prosa poética delirante e nominativa, dando a impressão de nada ter faltado na tremenda declaração de amor à cidade feita pelo cronista.

Em toda coleta literária, surge imediatamente o problema das omissões, por variados motivos – de espaço, de contato ou de escolha. Omissões que podem ser corrigidas futuramente em novas antologias, nas quais aqueles que ficaram de fora poderão vir a ser contemplados. Nomes que invariavelmente serão lembrados pelo paradoxo da sua momentânea ausência, a exemplo de um Pereira da Costa. E de outros que tiveram presença e papel relevante na crônica recifense: Mário Melo, Aníbal Fernandes, Theo¬tônio Freire, Silvino Lopes, Altamiro Cunha, para citar apenas esses. Mas, com um trabalho assemelhado e militante nos jornais locais, tais omissões completam-se em outros contemporâneos que foram contemplados: Jorge Abrantes, Mário Sette, Mauro Mota, Nilo Pereira, Paulo do Couto Malta e Valdemar de Oliveira.

Novos cronistas comparecem, alguns inéditos em livro, outros elastecendo aos poucos a sua bibliografia – Cristiano Ramos, Geórgia Alves, Miriam Carrilho, Raimundo de Moraes. Ao lado desses, aparecem autores consolidados e de carreira literária extensa em suas realizações. Artistas plásticos de inclinação literária já reconhecida também trazem a sua contribuição – Francisco Brennand, José Cláudio e Marly Mota. Nem falta, aqui, a crônica sertaneja dos cangaceiros, com o texto de Frederico Pernambucano de Mello.

De um modo subliminar ou direto, insurge-se um elemento de ligação entre muitas dessas crônicas, sinalizado pelo que fascina ou instiga no perfil guerreiro ou festivo de uma cidade, o Recife. Elimina-se, portanto, algo da disparidade temática predominante e da aparente dispersão conteudística. E, em termos de estrutura e disposição textual das páginas da obra, ao optarmos pela não fixação prévia do tamanho dos textos, imaginávamos que, na consecução posterior do livro, teríamos de assumir a irregularidade das dimensões variáveis e da surpresa do produto final. Na solicitação dos trabalhos aos autores ou seus familiares, as negativas foram tão poucas e irrelevantes que seria ocioso mencionar. Amigos se prontificaram a ajudar, indicando formas de contato com autores, fornecendo livros e outros materiais bibliográficos, apontando locais de pesquisa onde seriam encontrados trabalhos de interesse para a antologia. Parentes de autores mortos agiram com rapidez e diligência enviando crônicas e esboços biográficos – alguns deles também presentes como cronistas, mostrando-se redundante citá-los. Todos sabem, contudo, o quanto ficamos agradecidos e sensibilizados pelo gesto solidário que consolida e reafirma amizades.

Quando Antônio Campos me convidou para este trabalho conjunto que é o Cronistas de Pernambuco, o tempo para pensar sobre o projeto foi mínimo. De imediato, começaram a desfilar no pensamento numerosos nomes que fui juntando aos que Antônio já havia sugerido. E a cada dia novas descobertas, novos insights, e um lema proposto por ele, que funcionou do início ao fim da elaboração do livro: incluir sempre, numa generosidade e desprendimento que não excluía, de outra parte, o critério estético. O fato é que conseguimos reunir uma centena de cronistas que configuram um perfil razoável do gênero em Pernambuco. O feitio estético, a qualidade literária e a capacidade de comoção ou entretenimento originários destas crônicas, deixamos para o nosso possível leitor sentir, desfrutar e avaliar.

Notas
(1) “Alencar conversa com seus leitores”, pref. José Roberto Faria. In: José de Alencar, Crônicas escolhidas. São Paulo, Folha de S.Paulo, Ática, 1995.
(2) PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil. João Pessoa: Ideia, 1994.
(3) MOISÉS, Massaud. A criação literária: prosa. São Paulo: Cultrix, 1985.
(4) Antologia da crônica brasileira: de Machado de Assis a Lourenço Diaféria. Organização e apresentação Douglas Tufano. São Paulo: Moderna, 2009.
(5) Elenco de cronistas modernos. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, [s.d.]. A Editora José Olympio relançou a 20ª edição desta obra em 2003.
(6) “A vida ao rés do chão”, pref. Antonio Candido. In: Para gostar de ler: crônicas. Carlos Drummond de Andrade... [et al.] Ed. Didática, v. 5. São Paulo, Ática, 1981. Além de Drummond, os outros participantes são Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga.
(7) O carapuceiro – crônicas de costumes (org. Evaldo Cabral de Mello). São Paulo: Companhia das Letras, 1996. O levantamento das crônicas feito por Evaldo Cabral de Mello teve como base o trabalho anterior de Leonardo Dantas Silva.
(8) Arruar – história pitoresca do Recife antigo. Recife: Secretaria de Educação e Cultura do Governo de Pernambuco, 1978.
(9) Para um conhecimento mais aprofundado da vida e obra de Rubem Braga, é importante conferir sua biografia, escrita por Marco Antonio de Carvalho (1950-2007), Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar. São Paulo: Globo, 2007.
(10) QUEIROZ, Rachel de. Crônicas escolhidas. São Paulo: Gaudi Editorial, 2008. No prefácio a este livro, Heloisa Buarque de Hollanda, que também fez a seleção das crônicas, chama a atenção para “o belíssimo estudo de psicologia regional que é a crônica sobre o Padre Cícero, figura cearense emblemática, reconhecido pelo desenho afetivo e personalizado de Rachel”.

Recife, 30 de setembro de 2010