terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Notas Cotidianas e Literárias X

MÃE & FILHA

De passagem por Olinda decido ir à procura de alguém que conheço. Chego ao bairro. Localizo a rua e a casa. Chamo. Moram apenas as duas. Mãe e filha. A mãe aparece. Mesmo me reconhecendo não se altera. Não me convida a entrar e nem alimenta nenhuma conversa. Diz apenas que Ela não está. E retira-se para dentro ruminando seus velhos severos cabelos de prata. Antes fecha a porta. Os olhos frios duríssimos por trás dos óculos dourados.
Vi que a antiga árvore da entrada do jardim da casa definhara bastante. Raízes e galhos implodindo cansada. Não havia rastro dos pneus do carro. Insisto. Mas eu preciso saber onde Ela está. A mãe rebate. Agora eu só sei que aqui Ela não está. Taxativa. Volte outro dia. Digo que não posso vir outro dia. Bate novamente a porta na minha cara. Mais três pancadinhas e falo com Ela. Três pancadinhas de nada. Três pancadinhas assim. Desisto. Seguirei o conselho da velha.
Outro dia eu volto. Um tempo que usarei para lembrar e relembrar. Noites que se sucediam rapidamente até o núcleo de vivências inesperadas de muito pique e festa. Horas encruzadas de contatos com aspirantes a artistas e artistas consolidados. Artistas da vida que se equilibravam com a força da ginga e do verbo. Sucesso garantido com as mulheres malucas desinibidas. Bailarinas poetas atores cantoras músicos pintoras. Gente diversa que compunha o espetáculo repetido de bares alternativos e próprios para turista ver e desfrutar. Barraquinhas de queijo assado e tapioca. Abraxas. Cantinho da Sé. Praça do Carmo. Ladeira de São Francisco.
A loucura de aparência espectral de uns contraposta à lucidez falseada de outros. Alguns mergulhados e embalados no ritmo de cigarros ainda proibidos para consumo geral e somente por lá encontrados. Bolinhas de guaraná e fartura de alcaloides . Sempre guardando qualquer ressonância com um passado tão próximo quanto o presente que se estava a fazer. Todos com sede radical de vida. Boêmios que abraçavam a noite pela noite. Sem trocar a conversa bem-humorada e sem compromisso pela destilaria de saberes acumulados. Na noite cerceada e sem saída inventava-se uma outra noite só ocorrente na claridão de luzes clandestinas.
Amanhece e é preciso retornar ao provisório de um quarto. Transitar pela cidade ainda sonolenta. Resolvo que vou ao duplex das duas para ver se Ela também já voltou da surpresa viageira e errante. Busco sem hesitar pela velha ao basculante da porta. Nenhum sinal humano ali. Estava morta na volta. Não sei o motivo. Velhice talvez. Antes tentava dormir não dormia. Agora dorme sem tentar nem desejar. Dormirá indefinidamente. Não há dúvida de que Ela não voltou. Não pude mais procurá-la.


UM POEMA DE GERUSA LEAL

Em Versilêncios (2008), Gerusa Leal pratica uma escrita delicada e sem alarde, mas também sem resignação nem aceitação cega do que a rodeia. Vive e exprime situações cotidianas em sua inteireza ou parcialidade. Questiona os atos simples da vida para melhor compreendê-los. Interage com o ambiente exterior através da poesia que enfoca ângulos diferenciados de visada na percepção de seres e objetos, na fatura que passa a limpo como espetáculos do mundo um vaso de flores, uma laje de prédio, uma vizinha próxima e ao mesmo tempo distanciada. E isto se verifica tanto naqueles dias em que nada dá certo e é preciso esperar pelos instantes seguintes em que porventura o mundo e as idéias retornem ao seu imprevisível lugar. Não intenta estabelecer, nos seus poemas, nenhum ciclo novidadeiro ou fluxo inventivo impossível de ser conseguido por agora. É um fato que, na atualidade, escasseiam materiais concernentes e renovados para isso, no caos de uma grande produção que vem permeando a poesia ao longo dos séculos. Sem se abater, ela trabalha com afinco os materiais líricos que se mostram à mão. Por isso, dirá no poema “Escrevedor”:

não escrevo o que não sinto
amadora que sou
sinto o que não escrevo
jeito de driblar a dor

escrevo o que não sinto
salvo a vida
não sinto o que não escrevo
nem percebo que vivi

O poema não partilha ilusões, falseadas às vezes, ou assimiladas cotidianamente pela sina do ser poeta. Vislumbra a condição e o fingimento pessoano, que anula a dor suposta e a real, e, por uma ironia suprema e incisiva, passa a reafirmar sensivelmente o amor. Assim, no estrato secular e fragmentário das formas e sentidos, Gerusa Leal procura descartar discretamente a “dor”. Elege a “vida” antes da escrita do que não se sente. E assume o silêncio do não escrever que não se amplie em vida, que não renda homenagem ao milagre de se estar vivo.


PARACHOQUES

Há frios cubos, metais de lodo, flores de cinza
na Catedral. Na República agonizam os ventos.


COTIDIANAS

É flagrante o avanço qualitativo sinalizado na cota de espaço demarcado e na dosagem de liberdade conquistada pelas mulheres na sociedade atual. Elas se fazem presentes e com força em todos os setores e campos da vida, do lazer e do trabalho. Na política ou na direção de uma empresa, na engenharia e nas artes. Na luta social e nos meandros da justiça, na publicidade e na literatura, na internet e nos órgãos de imprensa. Executiva e professora. Atriz pornô e modelo de luxo. Glamorosa ou desleixada, sem jamais perder de vista o que nela se manifesta em vaidade feminina. Sensualidade à flor dos poros da pele, que busca muito mais do que a mera condição assexuada, sem se arranhar nas veredas escolhidas e adotadas. Rigidez e frieza no comando e na defesa de organizações de procedência variada, da ultra-secreta à pública e oficial.
Todas reivindicam e merecem o devido respeito, não importando a atividade assumida. Mesmo aquelas que atuam na sombra e na bandidagem podem um dia se regenerar. Ou irão encontrar no seu caminho apenas prisão, violência e morte. A mulher não declina o seu instinto maternal por circunstância de tarefas que exijam o máximo de sua fibra e resistência. Algumas delas precisam disto para o embate com o chauvinismo estigmatizado no soco e no tiro, na pedrada e no corte de faca ou facão. Dados estatísticos mostram que as mortes domésticas são feitas de tais expedientes primitivos e elementos da traição e do ódio gratuito, incluindo outras mortes ritualizadas em atos até mais cruéis. Mulheres guerreiras e libertárias não faltam na história. Muitas desempenharam seus papéis corajosamente e a contento, sem parcialidade. E continuam desempenhando, emergindo e acontecendo pela multiplicação propiciadora de efeitos no sentido favorável e decisivo de seu próprio crescimento individual e humano, afetivo e sociocultural.


RELEITURAS

1) Caligrafia da solidão – Maria João Cantinho. Este livro de 2007 reúne dez contos que refletem um clima de grande lirismo com a afluência do sonho, do delírio e da abstração. Nesta perspectiva, ela inicia o primeiro conto, com título igual ao do livro: “Na penumbra, as cortinas movem-se. O vento manso da tarde entra. Por momentos, o quarto ilumina-se. Raios fulvos de sol correm no chão enquanto o homem escuta os sons, o murmúrio da folhagem, geme no chão vazio, ouvindo a luz, o sopro, as folhas que estremecem, numa fala de árvores”. Trechos como este vão se repetir numerosas vezes, revelando a comunhão homem-natureza. Em “Apagar os Rastros”, a travessia de um homem em plena guerra mundial leva-o até seus limites extremos – da doença, da invasão momentânea de suas melhores lembranças, do desespero pelo cerco da polícia nazista, e finalmente da reconciliação consigo mesmo através da morfina. Outros personagens são identificados pela cegueira, que pode ser tanto real como sugerida ou imaginária. Cegos por uma circunstância orgânica, ou por não enxergar o mundo concreto do cotidiano, ou ainda por recusar-se a vê-lo simplesmente, ou ainda mais por ignorar os meandros da natureza humana e suas manifestações mais profundas de sentimento e esperança. Assim, certo olhar metafísico assume um primeiro plano, do olhar que se volta bem mais para si mesmo e a própria solidão do que para o outro e o mundo. Há passagens que parecem ter sido tiradas de versos, e isto fica bem mais patente quando se sabe que essa autora portuguesa também é poetisa. Da intrusão da poesia na prosa, resulta que seus textos seguem um roteiro que não abre mão do lirismo, nem, em termos da ficção, do ritmo característico à prosa.

2) Antonio – Beatriz Bracher. A história de Benjamim, “o filho morto” e redivivo em outra geração, movimenta todo um complexo genealógico, que embora formado por um grupo numericamente pequeno de pessoas, empreende a conjunção narrativa da riqueza e das misérias da vida de uma família paulista quatrocentona. Vivências trazidas a lume pela multiplicidade de “personas” e atores que nela interagem cotidianamente. E que revelam as suas facetas familiares obscuras e suas mazelas corriqueiras, as trajetórias individuais de figuras as mais díspares removendo-se num mesmo espaço. O avô Xavier, pai do primeiro Benjamim, um sonhador que exerceu funções como as de editor, crítico de arte e dramaturgo. Um sujeito que não cessou a continuidade e a reprodução, mesmo com suas inclinações e empreitadas artísticas consideradas extremamente fantasiosas e utópicas pelos que o rodeavam. Na estrutura romanesca de Antonio (2007), Beatriz Bracher apresenta, como possíveis substitutivos aos capítulos, três personagens-narradores: a avó Isabel, os amigos da família Haroldo e Raul. Cada relato vai destecer o fio fino e leve que une vida e morte, a aparição de outros personagens definidores para a trama, como o sempre lembrado Teo, o pai do segundo Benjamim, que deixa São Paulo para se aventurar pelo sertão. “Preparação do Corpo”, o fortíssimo e pungente texto final, parece ter sido elaborado paulatinamente, para criar o inevitável clímax, com a morte de Isabel. A neta Laura reclama do odor excessivo das flores: “Que cheiro forte, vai deixar todo mundo tonto”. Ao que uma florista ali presente, responde com “falsa distração”: “O cheiro do cadáver fica cada vez pior, por isso as flores. Os dois se misturam e a gente acha que a tontura vem só das flores, não é tão chocante”.

3) A escrita da nova mulher – org. Luzilá Gonçalves Ferreira. Publicado em 2005 pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE, traz oito ensaios acadêmicos sobre nuances da condição feminina e feminista da mulher, com destaque para mulheres escritoras. Os perfis enquadram esboços biográficos em atitudes e estilos, que ensejam revelações estéticas a partir de análises de livros produzidos por mulheres pioneiras de épocas mais distanciadas, como o século 19, ou que atuam e atuaram em dias recentes ou contemporâneos. De Edwiges a Nélida, de Virginia Woolf a Ercília Cobra, numa circularidade que envolve caracteres isolados e coletivos complementados pela escrita única e inconfundível que cada uma articulou. Sem esquecer de todo o corpus de influências literárias ou de outros matizes culturais que cada uma sofreu e absorveu, repudiou ou aceitou. São visões que expõem a faceta transgressora de mulheres que estiveram “à frente de seu tempo”, tal Edwiges de Sá Pereira revisitada por Andreza Cristina e Irmã Maranhão Barbosa. Travando uma luta desigual que podia iniciar-se em cidades pequenas, atravessar o estado e o país, culminando na perseguição promovida por presidentes brasileiros, caso de Ercília Cobra estudada por Alcina Bechara. O romance “Mulher no espelho”, de Helena Parente Cunha, servindo como pano de fundo para a teorização e as conquistas da mulher ao longo do tempo e de países nos contextos transgressivos e de submissão. Ou a identificação e a recuperação de traços educativos em populações sertanejas esquecidas, em intervenção radical que “confirma o compromisso de Maria Ignez Mariz em construir uma personagem feminina apresentando traços de resistência, com o desejo subversivo de aprender a ler e escrever, na busca de liberdade”, conforme as palavras de Ana Maria Coutinho, sobre a autora paraibana.

4) Porque sou gorda, mamãe? – Cíntia Moscovich. Pelo menos três linhas temáticas orientam a confecção deste romance da primeira década 2000. A relação sofrida e ao mesmo tempo simbiótica com a mãe. O questionamento profundo de literatura e vida prática tendo como consequência o assumir-se definitivamente como escritora. A obsessão pela gordura que serve de explicação para tudo no texto. Há passagens de um humor impagável, como aquela em que a vaca Mimosa recusa o leite à família judaica imigrante, mas é flagrada de noite dando de mamar a uma cobra. Outra em que três tias da protagonista, com seu peso excessivo, quebram o eixo de um carro importado que é o orgulho do patriarca judeu. A narradora, na conversa unilateral e intimista que mantém com a mãe, expressa uma relação de amor e ódio, de compaixão e culpa, de admiração e dependência familiar. A comida, num polo, significa gula, satisfação ou prazer; no outro, pelo excesso, tristeza e imobilidade melancólica. Em praticamente todos os capítulos, a personagem central vai, juntamente com um médico, acompanhando a diminuição de peso e comemorando a caráter, isto é, comendo. Cíntia mostra que o “gordo” é outro “diferente” desde que o mundo é mundo – as funções e atos da vida não são os mesmos para quem, dentro da normalidade cotidiana, representa, por vezes, uma espécie de “anormalidade” corporal e orgânica. E isto, mesmo que o gordo mostre-se externamente um ser alegre e sadio. Ao lado de um estilo limpo, enxuto e amadurecido, o exercício metafórico de Cíntia Moscovich se faz desconcertante e inusitado: “De noite, o tormento se multiplicava e eu tinha medo das sombras que juntavam o chão ao teto, que colavam o armário à parede, que iludiam meus olhos a ponto de eu não ver o perigo”.


MULHER

Por que estás
à sombra inerte,
à sombra dos metais
quais bronzes ferozes,
qual morte silente?

(Não te quedaram
as violências,
lágrimas secas,
estas marcas
e demais ofensas
ao teu corpo?)

Ardente teu brilho,
tua força ceifada
serena se explode
e vais ferver,
vais cintilar
com armas equivalentes.
(1983)

3 comentários:

  1. Grata pelo destaque neste belíssimo post, Luiz Carlos. Encantei-me com Mãe e Filha.
    Abraço

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  2. Paulo Salles Cavalcanti10 de fevereiro de 2010 17:20

    Interessantes e merecidos os comentários sobre as obras das mulheres, com destaque para "versilêncios", de minha amiga de longa data, Gerusa Leal, a quem homenageei com o poema abaixo, onde transito pelo livro de Gerusa, o qual consta do projeto do meu quarto livro de poesias, que espero publicar ainda este ano:

    (DI)VERSIFICANDO

    Para a poetiza Gerusa Leal, autora de “Versilêncios’


    mergulhei novamente nos teus versos.
    quem sabe pudesse colher a flor de gelo
    ou encontrasse algum resto de carpintaria
    que pudesse ser objeto de reconstrução

    escravo também sou da mesma senhora
    e quero ver a poesia nas coisas simples
    seja em um encontro familiar
    ou segredos de alcova

    nasci e também preciso caminhar
    com nuvens, chuvisco de azul, fumaça...
    não importa
    e se viver não é profissão
    poesia então...

    quero ser, mesmo que intruso, parte dessa tua nau
    que singra os mares de Holanda a Olinda
    mesmo sem nome e sem falar de amor
    só não quero ser barco sem rumo
    ou escravo da paixão

    Monalisas tive. Sem o mesmo riso
    mas com outros atributos
    Confessaram me amar. Também disse que as amava
    com um ar de um certo talvez

    falo de muitas coisas. Pouco dos meus segredos
    e se não consigo dormir, também não falo
    e no silêncio minha alma dorme

    fiz uma pausa em tuas lembranças
    no drinque depois do banho
    da provisória danação e do teu céu encoberto
    não queria te ver pegar a sombrinha e partir
    mas, se foi preciso...

    não és uma inútil. Tua poesia rasga as veias
    e traspassa corações. Teu medo é natural
    e nem todos os dias são bons

    não és filha de Lilith. És somente uma Eva
    quem sabe mais uma mulher de preto
    rainha ou última guerreira

    troca os morangos mofados
    solve o vinho que ainda está na taça
    sem apego ao que é fumaça ou cristal
    devora as batatas
    morrer? Nenhum pouquinho

    só não quero é chegar ao final
    e contemplar a face impassível de Deus
    eu quero é pular o abismo
    e ir morar com Ele.

    Paulo Salles Cavalcanti
    sallescavalcanti@hotmail.com

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