domingo, 5 de junho de 2011

Notas Cotidianas e Literárias XCIV

VOCAÇÃO DEVORADA PELA TV

A indústria televisiva tem desviado vocações literárias ao mesmo tempo em que produz monstros de audiência. Alguns autores que iniciaram suas carreiras escrevendo literatura em modalidades como o romance, o conto, a poesia ou a peça teatral, foram seduzidos pela TV e passaram a se dedicar com mais ênfase ao texto para telenovela. Podem ser aqui lembrados Dias Gomes, que deixou peças de teatro memoráveis; Manoel Carlos, que chegou a publicar poemas pelo “Círculo do Livro”; ou Aguinaldo Silva, que continua militando nos dois campos, e contabiliza cerca de uma dezena e meia de livros publicados. Seu romance mais recente, 98 Tiros de Audiência, com subtítulo “Intriga e Mistério nos Bastidores das Telenovelas”, acaba de ser lançado e retoma a temática policial em que ele é especialista, com uma vasta experiência de repórter em jornais cariocas. Ninguém mais adequado para a função do que o pernambucano, uma vez que conheceu de perto e a fundo, a partir da década de 1960, a contravenção do jogo do bicho, o roubo desenfreado de automóveis associado ao avanço do tráfico de drogas, a corrupção policial indiscriminada e o mundo glamouroso, competitivo e banalizado das celebridades. O grupo seleto de escritores do qual poderia fazer parte Aguinaldo Silva é composto de ficcionistas do porte de João Antônio, José Louzeiro e Rubem Fonseca, que se esmeraram, cada um à sua maneira, na narrativa de cunho policial ou em episódios da malandragem do Rio.

Um dos livros de Aguinaldo Silva que causaram mais estranhamento foi Primeira Carta aos Andróginos (1975), um misto de romance e ensaio, com numerosas transfigurações e referências à mitologia grega e a personagens bíblicos, estrutura formal que se aproxima em muitos momentos à poesia, um questionamento subjetivo mas não velado do homossexualismo e das dificuldades sociais que o assumi-lo traz num país onde a cultura ainda é bastante machista e arraigada. Em República dos Assassinos (1976), ele conta a trajetória do policial-bandido Mateus Romeiro, um dos “homens de ouro” da polícia carioca, preparado para executar suas vítimas sem pestanejar, e que atinge o êxtase sexual no momento de sacrificá-las. O protagonista acaba enveredando pelo crime através do “Esquadrão da Morte” – organização criada pela própria polícia para matar bandidos –, ao enviar carros roubados para o Paraguai e investir o dinheiro ganho trazendo na volta cocaína. O personagem que faz o repórter Aguinaldo Ribeiro (uma junção de Aguinaldo Silva com o também repórter policial à época Octávio Ribeiro), envolve-se com o policial-bandido, a ponto de ajudá-lo a cobrar dívidas de gente poderosa na contravenção e de demonstrar por ele um grau de intimidade que ultrapassa os liames mais corriqueiros da amizade.

O último livro editado, O Homem que Comprou O Rio (1986), demonstra ainda a força do escritor Aguinaldo, com a escolha do contraventor Giovanni Improta para personagem central, promovendo a agilidade de uma narrativa impecável onde cada fato, personagem secundário ou situação relatada ocupa seu devido tempo e lugar. Esta distribuição, inter-relação e movimentação exata no espaço e no tempo dos personagens e eventos faz com que o romance atinja o seu estágio de eficácia e eficiência, cumprindo obviamente com sua função literária e estética específica. Este romance guarda algumas semelhanças de concepção de personagens e situações com 98 Tiros de Audiência. Primeiro, o modo como os detetives Paulinho Reitz e Luis Trajano atuam, se comportam e se relacionam com as mulheres, com outros policiais e outras pessoas. Ambos sempre são afastados de casos que envolvam pessoas importantes porque, em termos éticos mostram-se incorruptíveis. A Paulinho Reitz não importa se o maior implicado nas mortes de Orlando e Misael, de O Homem que Comprou O Rio, é um bicheiro que domina a Baixada Fluminense e que seja afilhado do governador Valmiro dos Santos.

Em 98 Tiros de Audiência vem à tona praticamente tudo o que se passa nos bastidores de uma novela global. A grande luta de atores, autores e diretores para manter o pico de audiência a qualquer preço, que às vezes teima em despencar. A humilhação de quem persegue a fama e encontra, em contrapartida, a fúria de executivos preocupados apenas com o número de telespectadores e conseqüentes investidores na publicidade. Talvez por isso se sinta mais forte a presença do autor de novelas do que propriamente do escritor ou do roteirista de cinema. O estilo romanesco segue o da trama folhetinesca, que guarda sempre a surpresa para o dia seguinte ou o próximo capítulo, levando qualquer leitor a querer saltar páginas e descobrir o que virá pela frente. Neste livro, ironicamente, o assassino da estrela Aurora Constanti é o alter ego de Aguinaldo Silva, o autor Everardo Lopez. Ele fica num beco sem saída ao ter de repetir a performance de 98 pontos no dia da morte de Aurora Constanti, mulher belíssima, porém bêbada e cocainômana, que investe tudo numa boa confusão e é odiada pelos colegas de trabalho, pelo diretor Quase-Quase e por Mister Zee, o Todo-Poderoso. Os capítulos aparecem em seqüências de blocos, à maneira de monólogos e depoimentos dos envolvidos com a diva Aurora Constanti, recurso já utilizado em República dos Assassinos para o julgamento de Mateus Romeiro. Mas, o que surpreende agora, em relação à escrita de Aguinaldo Silva, é aquela perda de vigor do escritor para deixar reinar o novelista. Nada se passa no âmbito da vida pessoal ou privada com discrição ou autenticidade, ao contrário, tudo resvala para o superficial, o bombástico, o sensacional, o deslavadamente público. Este é, sem dúvida, o preço que um escritor pode vir a pagar para ter seu público medido em milhões de pessoas.

In: Continente Multicultural, nº 73, jan. 2007.

Um comentário:

  1. Excelente artigo, Luiz Carlos. Verdadeira aula de como não.

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